Saiba quem é o ex-CEO das Americanas, alvo da “Operação Disclosure”, que se mudou para Espanha por medo de ser preso

Inquérito de comitê independente contratado pela empresa aponta diretamente para Miguel Gutierrez como mentor de um esquema que levou a varejista à recuperação judicial

O ex-presidente da gigante varejista brasileira Americanas era praticamente invisível para o público. Ele evitava entrevistas à imprensa, mantinha-se distante de investidores e analistas e existem muito poucas fotos públicas dele. Agora, Miguel Gutierrez é famoso. Nesta quinta-feira, o ex-CEO da gigante varejista foi alvo da Operação Disclosure, contra os ex-diretores da Americanas acusados de fraudes contábeis que, conforme divulgado pela própria empresa, chegam ao montante de R$ 25,3 bilhões.

No ano em que o escândalo eclodiu na sua antiga empresa e manchou a reputação dos seus principais acionistas (os bilionários Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles), o carioca mudou-se para a Espanha enquanto as investigações continuaram no Brasil. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O GLOBO, Gutierrez tem cidadania espanhola e saiu do país pelo temor de ser preso pelo escândalo.

Alvos de mandado de prisão na operação deflagrada nesta quinta-feira, Gutierrez e Anna Christina Ramos Saicali, ex-diretora da varejista, passaram a ser considerados foragidos e tiveram os nomes incluídos na na Difusão Vermelha da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol).

Um inquérito interno produzido por um comitê independente contratado pela Americanas aponta diretamente para Gutierrez como mentor de um esquema que levou a varejista de 95 anos à recuperação judicial e tirou o emprego de 5.000 funcionários.

Uma investigação do Congresso trouxe a público documentos — revelados pela empresa — que alegam que Gutierrez e membros de sua diretoria executiva falsificaram contratos publicitários e ocultaram empréstimos tomados por meio de uma estrutura chamada de risco sacado a fim de esconder dívidas da empresa e aumentar os lucros.

Além disso, arquivos digitais com anotações com a caligrafia do próprio Gutierrez, localizados nos computadores da empresa, confirmaram a existência de duas versões das demonstrações de resultados da Americanas, segundo Coelho.

Uma era correta e rotulada como “para uso interno” pelas pessoas que participaram da fraude, enquanto a outra era destinada ao conselho, investidores e acionistas, disse Coelho.

Membros da antiga equipe executiva também falsificavam cartas e assinaturas e pediram aos bancos que removessem as referências a operações de risco sacado, de acordo com as provas apresentadas. A investigação do Congresso concluiu que a fraude foi cometida, mas não identificou quem foi o responsável.

“Fraudes envolvendo alta administração são sempre bem desafiadoras, mas o sistema de governança corporativa conta com mecanismos que auxiliam a identificação do problema, mesmo nos casos em que a alta administração está envolvida”, disse Pamela Roque, advogada e professora do Insper em São Paulo. “Vale também destacar que o fraudador costuma entender o sistema em que a fraude é executada e trabalha com ele.”

A Americanas não disse se acredita que a fraude teve como objetivo enriquecer os executivos ou se houve uma tentativa de esconder problemas que acabaram saindo do controle. Há investigações sobre a razão pela qual alguns ex-diretores venderam ações no segundo semestre de 2022, antes de a fraude se tornar pública.

Os bilionários, cuja participação de 30% na Americanas encolheu em mais de R$ 3 bilhões com a exposição da fraude, foram forçados pelos credores nas negociações a investir R$ 12 bilhões para recapitalizar a empresa e concordaram em não vender ações por pelo menos pelo menos três anos.

Isso se soma ao R$ 1,6 bilhão em investimentos líquidos — descontados os dividendos e juros sobre o capital próprio — que eles fizeram na Americanas na última década, dizem pessoas próximas aos bilionários, que pediram anonimato ao discutir assuntos privados.

Gutierrez e vários ex-executivos da Americanas, por outro lado, ganharam cerca de R$ 750 milhões em salários, bônus e benefícios durante o mesmo período, disseram as pessoas.

Os ex-executivos também venderam ações no valor de R$ 241 milhões nos meses que antecederam a divulgação da fraude, de acordo com um documento de janeiro de 2023 assinado pelo escritório de advocacia Warde Advogados, que representa importante banco credor.

Depois de reformular os dados financeiros de 2021 e 2022, a varejista conseguiu agora chegar a um acordo com os credores para reestruturar sua dívida de R$ 42,5 bilhões. A empresa pretende voltar a ter lucro até 2025, ajudada pela venda de ativos importantes e com a estratégia de concentrar-se na sua operação de lojas físicas.

É o Sicupira, que faz parte do conselho que supervisionou Gutierrez durante anos, quem investirá mais dinheiro para tentar dar suporte à Americanas, disseram pessoas a par do assunto, já que ele detém uma participação maior na empresa do que Telles e Lemann.

“As investigações estão demorando muito e os atrasos não são positivos, criam uma sensação de impunidade”, disse o advogado Camargo. “A sociedade espera que haja responsabilização entre outras ações, além de tentar salvar financeiramente a empresa.”

Com informações do GLOBO.

Leia mais:

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading