Mente quem diz que em Angra e Paraty não tem praia que preste, só lá nas ilhas. E mais ainda quem acha que patrimônio histórico é espetáculo exclusivo da cidade que abriga a Flip. Aqui tem tudo isso e muito mais. De areias cintilantes até uma tribo indígena de verdade, com ocas e muitas, muitas lojinhas de todo tipo de artesanato. E é por essas e outras que dizem que um dos poucos defeitos da Vila Histórica de Mambucaba era um certo vizinho que, para alegria geral da nação, vai ficar um tempo sem brotar por lá.

Mambucaba não é apenas uma vila costeira bonita, pouco conhecida entre cariocas e simpatizantes: é um espaço onde o passado insiste em dialogar com o presente. Claro, que com tensionamentos evidentes. A expansão do turismo versus preservação histórica, a visibilidade indígena e as expectativas dos visitantes; e o passado escravista que insiste em pedir voz e convida mais à reflexão do que a lagartear na praia tomando caipirinha.

Em Mambucaba gente mergulha com cautela e encara o fato de que além de lugares fabulosos do Rio de Janeiro para se conhecer, aqui ainda há lutas por reconhecimento. A Vila Histórica de Mambucaba não é um museu imaculado, é território pulsante, com personagens, memórias vivas… e praias cintilantes de águas mornas e tranquilas que estão entre as mais incríveis da Costa Verde.

Praias de águas mornas e tranquilas esperam visitantes em Mambucaba | Crédito: Reprodução

História

Em 1557, Hans Staden já citava a localização onde hoje se encontra a Vila Histórica de Mambucaba em seu livro “Duas Viagens ao Brasil”, como aldeia tamoio de Mambucaba. O local foi “achado”, em janeiro de1502 pelo navegador português Gonçalo Coelho, menos de dois anos depois de Pedro Álvares Cabral chegar na Bahia.

Com a expansão colonial, a margem norte do rio Mambucaba, local da vila atual, foi ocupada pelos europeus, enquanto indígenas remanescentes se mantinham mais à margem sul, de onde organizavam ataques e resistências contra os portugueses.

Nos séculos seguintes, especialmente no século XVIII, a localidade passou a desenvolver-se como freguesia e ponto de comércio. Em 1968 a vila foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em sua integralidade, ou seja, não só edifícios isolados, mas o traçado urbano e equipamentos próprios da ocupação local.

Essa medida visa proteger o conjunto arquitetônico e preservar sua memória social. Hoje, embora muitos edifícios estejam deteriorados, ainda se reconhece a malha original de ruas, angulações e recuos típicos do período colonial.

Qual a relação da vila com o tráfico de escravizados?

Entre o final do século XVIII e ao longo do ciclo do café, no século XIX, Mambucaba consolidou-se como porto de exportação, aliado a importação e lucrativo tráfico de escravizados, o que trouxe densificação urbana e requinte arquitetônico.   

A posição geográfica estratégica na foz do rio Mambucaba permitia que embarcações vindas da Guanabara transportassem escravizados até as ilhas em frente à vila, de onde era feita a seletiva (triagem) e o posterior encaminhamento serrano para o Vale do Paraíba e demais áreas produtoras de café.

Esse papel sombrio muitas vezes é ofuscado pelos marcos arquitetônicos e pela paisagem bucólica atual, mas não deixa de ser parte do tecido social da vila.

A vila ainda prosperou mais caçando baleias?

Pois é: em meados do período colonial, Mambucaba abrigou significativas operações de caça a baleias e extração de óleo. Era um dos negócios mais lucrativos e importantes do Brasil. O óleo era usado na iluminação pública e residencial, construção civil, indústria naval e até para fazer sabão.

O litoral da Costa Verde oferecia profundidade suficiente e rotas marítimas favoráveis para que barcos se movimentassem e baleeiros operassem com maior segurança.

Esse tipo de empreendimento era regulamentado pela Coroa: só podia haver caça assídua com autorização régia, dada sua importância estratégica. Relatos locais e textos históricos sustentam essa fase como parte do passado menos agradável de Mambucaba.

Que história é essa de que as areias são cintilantes?

Há relatos de visitantes que percebem um brilho discreto ou cintilação na areia das praias da vila quando o sol incide em certos ângulos, como ao amanhecer ou entardecer.

A explicação é que pequenas partículas minerais, como mica, quartzo ou fragmentos de cristais,  possam estar misturadas à areia, refletindo assim a luz solar.

Nas praias da região de Mambucaba é comum que granulações minerais e areia escura contenham mesmo mica ou grãos de quartzo que brilham levemente à luz tangencial. Ou seja, não espere encontrar um chão de estrelas. Mas que é legal, é.

Praia de Mambucaba, em Paraty | Crédito: Reprodução

A praia nuclear

Uma das atrações da Vila Histórica de Mambucaba é a chamada Praia da Lagoa Azul, o local exato de onde sai a água que resfria os reatores das usinas nucleares de Angra dos Reis. O resultado é uma enseada de água tão cristalina que você consegue ver as tartarugas nadando do alto da encosta. E calma, não há nenhum perigo radioativo.  

O maior problema aqui são as correntes. Tanto que há placas avisando que o mergulho ali é proibido (embora muita gente não dê bola para isso). A força das águas que vem da usina é tamanha que cria um movimento contínuo que empurra o nadador menos preparado lá para o meio do mar.

Como é a Praia do Laboratório?

É a que tem a maior faixa de areia dentre todas as praias do “circuito nuclear”. É quase um piscinão de águas calmas e morninhas.

O point é ainda monitorado por órgãos ambientais por ser um local de desova das tartarugas marinhas, que vem à noite cavar seus ninhos na praia.

O que é a “praia secreta”?

Bem, o nome é autoexplicativo, né? Para chegar nesse pequeno pedaço de paraíso você não precisa cruzar uma estrada de tijolos dourados, mas sim vermelhinhos, cor que deve ajudar a manter longe aquele vizinho incômodo.

A recompensa é uma praia cheia de rochedos, parecidos com os da Prainha, na Zona Sudoeste (argh!) da Guanabara, que formam inúmeras e deliciosas piscininhas.

O que quer dizer Mambucaba?

A etimologia do nome “Mambucaba” é controversa. Não há consenso entre os estudiosos, e o nome permanece aberto a interpretações que dialogam com a natureza local, aspectos geográficos e a presença indígena. 

Uma hipótese sugere que “Mambucaba” pode significar “passagem” ou “braço de mar”, aludindo ao fato de que, como dizia o poeta, o rio deságua no mar.

Já outras interpretações afirmam que deriva de mambuca. uma pequena abelha sem ferrão, também chamada “japurá” ou “abelha-cachorro”, abundante na região.  

Qual é a história dos pataxós que vivem lá?

A Aldeia Iriri Kãnã Pataxi Üi Tanara é a única da etnia pataxó (autodenominada Hã Hã Hãe) em todo o estado do Rio de Janeiro e fica localizada próxima à localidade de Iriri.

Esses Hã Hã Hãe migraram da Bahia para o Sudeste entre 2004 e 2005, e inicialmente viveram em Angra dos Reis até 2016, quando ocuparam o território onde hoje residem.

A comunidade considera o local escolhido como “lugar reservado pelos ancestrais”, pois acreditam haver ali vestígios de aldeias dos Tupinambás no passado.

Aqui a infraestrutura é relativamente modesta, com casas construídas pela própria comunidade e foco em preservação, identidade cultural e turismo de leve.

Educação indígena bilíngue é parte do projeto comunitário. E os rituais utilizam práticas como rapé, sananga e outras manifestações típicas de seus ancestrais.

Aldeia pataxó preserva saberes ancestrais | Crédito: Reprodução

A ocupação causou controvérsias?

Tem alguns amigos do vizinho incômodo que questionam a legitimidade da ocupação da terra ou sua amplitude; mas há também aqueles que criticam o turismo na aldeia como potencial ameaça de mercantilização cultural.

Mas o tema mais explosivo em tempos de redes sociais é ironicamente prosaico. Todo paraíso que se preza tem que ter uma cachoeira, certo? Então volta e meia surgem questionamentos em relação ao controle Hã Hã Hãe de acesso à Cachoeira do Iriri.

Ela é formada por duas quedas principais, com piscinas naturais convidativas, e trechos de corredeira rasa que fazem a festa das crianças. Mas a chiadeira é que o acesso só é permitido de sexta a domingo e que os Hã Hã Hãe, vejam vocês que abuso, cobram estacionamento dos Não Hã Hã Hãe.

O que mais tem para fazer por lá?

Além das praias e da cachoeira, visitantes podem fazer trilhas costeiras ou em áreas de mata, caminhar pelo casario histórico da vila, visitar a igreja de Nossa Senhora do Rosário e ruínas do casario colonial.

A trilha até o Pico do Frade, nas adjacências de Mambucaba, também é opção para quem busca vista panorâmica.

A aldeia Hã Hã Hãe oferece vivências culturais, artesanato, contatos com a natureza e a experiência antropológica de um papo direto com os moradores locais.

Igreja Nossa Senhora do Rosário preserva estrutura colonial | Crédito: Reprodução

Melhor época para ir

A melhor época é no verão e em períodos de clima estável, de dezembro a março, quando o mar costuma estar mais tranquilo e o tempo mais quente.

Fora de temporada, muitas trilhas ficam escorregadias ou alagadas em chuvas mais intensas.  Lembre-se que a cachoeira Iriri só está liberada apenas em determinados dias da semana, então convém programar a visita para finais de semana.

Como chegar?

Partindo de carro da Guanabara, e margeando o litoral pela BR-101, são cerca de 200 km até a Vila Histórica de Mambucaba, o que dá uma viagem de umas quatro horas e meia.

De ônibus é preciso ir até Angra dos Reis (tarifas a partir de R$ 78) e de lá pegar um ônibus municipal, van, táxi ou carro de aplicativo.

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