Um dos instrumentos usados para calcular o risco de ocorrência de doenças vasculares passou a adotar novos critérios e deixou outros em segundo plano. As condições sociais em que vive o indivíduo agora são levadas em conta, tais como desemprego, pobreza e educação. Na outra ponta, fatores como raça passaram a ser desconsiderados.
Essas variáveis, entre outras, passam agora a fazer parte da calculadora de risco cardiovascular, uma das principais ferramentas usadas pelos médicos para avaliar a saúde do sistema circulatório e a probabilidade de um ataque cardíado ou um acidente vascular cerebral (AVC).
Criada com base em dados da população norte-americana mas usada por profissionais de outros países, incluindo o Brasil, a calculadora de risco é tradicionalmente alimentada com algumas características-chave dos pacientes, como pressão arterial, colesterol, tabagismo, diabetes e dados demográficos como idade, sexo e raça.
O resultado ajuda os médicos a orientar decisões sobre prevenção e tratamento, como mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, o uso de medicamentos para reduzir o colesterol ou a pressão arterial.
Em um comunicado publicado na semana passada na revista científica Circulation, a American Heart Association (AHA) modificou os fatores incluídos nessa avaliação. As principais mudanças foram: a remoção do fator “raça” da equação e a inclusão de novas variáveis, como função renal, e o índice de privação social, que inclui pobreza, desemprego e educação.
Para especialistas, a revisão do algoritmo representa um avanço significativo no campo da cardiologia. A retirada da raça do algoritmo, por exemplo, é um reconhecimento de que, ao contrário do sexo ou da idade, a origem étnica em si não é um fator de risco biológico.
— A raça é uma construção social — diz a cardiologista preventiva Sadiya Khan, da Escola de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, que presidiu o comitê de redação de declarações da AHA, acrescentando que incluir a raça nas equações clínicas “pode causar danos significativos ao implicar que é um preditor biológico”.
Para a cardiologista e intensivista Stephanie Rizk, a mudança corrige distorções.
— A remoção da raça do modelo de avaliação de risco cardiovascular representa um passo importante em direção a uma medicina mais equitativa e baseada em evidências, reconhecendo que as disparidades em saúde são muitas vezes o resultado de fatores sociais e ambientais, e não apenas de diferenças biológicas inerentes — defende a médica, que é especialista em insuficiência cardíaca, transplante cardíaco e coração artificial da Rede D’Or, Hospital Sírio-Libanês e médica da Cardio-Oncologia do InCor/ICESP da Faculdade de Medicina da USP.
Além disso, pela primeira vez, a avaliação estima o risco de um indivíduo desenvolver insuficiência cardíaca. A condição tem aumentado nos últimos anos, com o envelhecimento da população e a elevada prevalência da obesidade, e pode levar a uma grave deterioração na qualidade de vida. Basta lembrar do caso do apresentador Fausto Silva, que precisou de um transplante de coração recentemente ao ter seu quadro de saúde agravado.
A nova calculadora também leva em conta a função renal. Nos últimos anos, médicos têm reconhecido a forte ligação entre doenças cardiovasculares, renais e metabólicas (que incluem diabetes tipo 2 e obesidade). No mês passado, os consultores científicos da AHA definiram um novo distúrbio, denominado síndrome cardiovascular-renal-metabólica — ou CKM, na sigla em inglês.
— Quando a pessoa tem a função renal prejudicada, há um aumento do risco cardiovascular. É um exame simples de fazer e se antigamente havia poucas possibilidades de intervir nisso, hoje surgiram novos remédios que podem ajudar a preservar a função renal — ressalta Cláudio Domênico, cardiologista do Hospital Pró Cardíaco.
As modificações na equação também incluem a avaliação da hemoglobina A1C, em pessoas com diabetes tipo 2, e o índice de privação social, que mede fatores ambientais passíveis de modificação por políticas públicas.
— Esses fatores podem influenciar a saúde cardiovascular de várias maneiras, incluindo acesso limitado a cuidados de saúde de qualidade, maior probabilidade de viver em ambientes com exposição a fatores de risco (como poluição e falta de áreas para atividades físicas) e maior prevalência de estresse psicossocial — explica Rizk.
Para os especialistas, o reconhecimento da influência desses fatores sociais no risco de doenças cardiovasculares contribui para a prática de uma medicina mais holística e justa, que permite direcionar recursos e atenção para as populações mais vulneráveis.
A avaliação também foi melhorada de várias outras maneiras significativas. Anteriormente, o algoritmo só era válido para pessoas com 40 anos ou mais. Agora, ele pode ser usado por pessoas a partir dos 30 anos e estima o risco cardiovascular total dentro de dez e 30 anos.
— Com base nessas informações, a ferramenta calcula a porcentagem de risco de o paciente sofrer um evento cardiovascular como um ataque cardíaco ou um AVC — explica Rizk.
Domênico acrescenta que a probabilidade de um evento como esses ocorrer é calculada por faixas.
— Quando é menor que 10% em dez anos, o risco do indivíduo é considerado baixo. Entre 10% e 20%, ou 1% a 2% a ano, ele é moderado. Já quando é maior que 2% ao ano, o paciente tem alto risco — explica.
Embora a atualização tenha sido vista com bons olhos, Domênico chama atenção para dois outros fatores que têm impacto na saúde cardiovascular, mas que não foram incluídos no algoritmo provavelmente pela ausência de biomarcadores precisos. São eles: saúde mental e nível de inflamação.
— Apesar de a capacidade de predizer o risco de eventos cardiovasculares estar mais refinada, ainda precisamos caminhar um pouco mais para incluir esses fatores. As emoções negativas nos afetam da mesma forma que as positivas nos ajudam. Mas ainda não existem biomarcadores para avaliar o nível de estresse, ansiedade e depressão. Para o nível de inflamação, já existem alguns, mas não são muito bons — avalia.
Uma forma de incluir esses fatores na avaliação clínica é escutar bem os pacientes durante a consulta para detectar o grau de ansiedade, estresse ou depressão. Já no que diz respeito à inflamação, uma ferramenta simples é a medida cintura-quadril.
— Essa gordura que se acumula na região abdominal é uma inflamação que atinge o fígado, o pâncreas e a ponta do coração e contribui para doenças cardiovasculares, metabólicas, neurológicas e câncer — diz Domênico.
Com informações de O Globo e The New York Times





