Rio faz 460 anos neste sábado e tem festa em dose dupla, de aniversário e carnaval

A cidade que tanto amamos foi construída e reconstruída ao longo de 4 séculos — mas não sem contradições

Dois anos após sua fundação, no dia 1º de março de 1565, em uma paliçada erguida com certa pressa, à beira da Baía de Guanabara, o recém-nascido Rio de Janeiro mudou de lugar. Em 1567, os portugueses derrotaram os povos originários daquelas terras — os tamoios, nas cruentas batalhas de Uruçumirim, ali aos pés do Outeiro da Glória, e de Paranapucu, pelas bandas da Ilha do Governador. Mesmo assim, ainda era preciso tomar cuidado. O cerne da cidade, então, mudou-se para o alto do Morro do Castelo, ponto mais protegido, a partir de onde poderia crescer com sossego.

Movida por interesses urbanísticos, e higienistas, a derrubada do Morro, concluída na década de 1920, deu lugar à Esplanada do Castelo, no Centro da cidade, mas na região resiste até hoje um vestígio do Rio do século XVI: “a primeira e mais movimentada das nossas ladeiras: a Nova ou da Misericórdia, também ponto de partida do primeiro dos nossos largos e da primeira das nossas ruas, ainda da Misericórdia denominados desde o distante século do seu nascimento”, escreveu o pesquisador Brasil Gerson no livro “História das ruas do Rio”.

A Ladeira da Misericórdia hoje tem aspecto meio abandonado e termina em lugar nenhum, já que o Morro do Castelo foi devastado. Mais atraente, o Convento Santo Antônio é legítimo representante da cidade do século XVII: no alto do morro de mesmo nome, diante do Largo da Carioca, ganhou pedra fundamental em 1608 e passou por uma série de melhoramentos ao longo dos anos. O complexo abriga o convento e a bela igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, onde brilham a talha dourada e outros detalhes da decoração de inspiração barroca.

Aqueduto e cartão-postal

Bem perto dali, o Aqueduto da Carioca, construído em 1750, foi a maior obra de engenharia realizada no país naquele período. A estrutura abastecia a população com água fresca trazida do Rio Carioca, na encosta do Corcovado, e distribuída pelas torneiras do chafariz aos pés do Convento Santo Antônio. O aqueduto do século XVIII virou cartão-postal: pelos Arcos da Lapa, em vez de água, hoje passa o bondinho de Santa Teresa apinhado de turistas.

O Rio chegou ao século XIX carregado por mão de obra escravizada, trazida à força da África, motorda economia brasileira e herança vergonhosa que exibe sinais pela cidade até hoje. O tráfico de gente tornou-se um negócio tão grande que, a certa altura, a sociedade se incomodou — não com a crueldade da empreitada, mas com a presença de cativos sujos, em andrajos ou quase nus, expostos na importante Rua Direita — atual Primeiro de Março, prolongamento da pioneira Rua da Misericórdia.

O jeito foi levar esse mercado para lugar mais ermo, próximo à Praia do Valongo, que já servia discretamente para o mesmo fim, mas ganhou melhorias, na forma do cais de pedra levantado em 1811.

Descoberto em escavações para obras do Porto Maravilha, em 2011, o Cais do Valongo voltou à tona e, após intensa campanha, ganhou em 2017 o título de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas, foi equiparado, como local de memória e sofrimento, a dois espaços históricos da Segunda Guerra: a cidade de Hiroshima, no Japão, devastada pela bomba atômica, e o Campo de Concentração de Auschwitz, na Polônia, palco do holocausto nazista.

O aniversariante Rio de Janeiro avançou no tempo e na civilidade: o mesmo século XIX que teve o horror da escravidão simbolizado pelo desembarque de navios, de 1811 a 1831, no Cais do Valongo, cujas ruínas seguem em exposição na região Portuária, abrigou a abolição da escravatura, festejada no Paço Imperial e no Campo de São Cristóvão, outros espaços que chegaram aos dias atuais.

A cidade adentra o século XX empurrada pelo ímpeto modernizador do “bota-abaixo”, conjunto de reformas no qual se abriu a Avenda Central, atual Rio Branco, se empurrou a população mais humilde para longe do Centro e se abriu caminho rumo À Zona Sul. No coração dessa região, entre 1969 e 1971, obras de duplicação da Avenida Atlântica ampliaram a faixa de areia e deram ao calçadão sua forma definitiva.

Após a chegada aos anos 2000, a Região Portuária foi devolvida à cidade através de ações como a implosão do Elevado da Perimetral, o projeto de requalificação urbana Porto Maravilha e a inauguração do imponente Museu do Amanhã, em uma Praça Mauá reformada.

Uma década de transformações

Já se passou uma década: 2015 foi todo dedicado à celebração dos 450 anos de fundação da cidade do Rio. Não é exagero: o hotsite criado pelo Comitê Rio450 para concentrar notícias sobre as comemorações, ainda no ar, lista 780 eventos relacionados ao tema ao longo de todo aquele ano, numa média de mais de dois por dia. A data redonda ganhou até uma sorridente marca própria, que podia ser vista por toda a parte, até nas faixas de pedestres. Dez anos depois, o aniversário de 460 anos, em pleno sábado de carnaval, será celebrado de forma mais discreta. Festividades à parte, a efeméride convida para uma breve olhada no retrovisor. A década que separa as duas datas foi recheada de mudanças na paisagem urbana, grandes eventos, velhos e novos desafios.

A primeira transformação, ocorrida já sob o signo do quadringentésimo quinquagésimo aniversário, em 2015, foi viária e subterrânea. Não por acaso, o 1º de março — data da fundação do Rio por Estácio de Sá, no distante ano de 1565 — foi escolhido para a inauguração do Túnel Rio450, cujo trajeto de 1.480 metros começa logo depois da esquina das ruas Primeiro de Março com Visconde de Inhaúma e vai até a Via Binário do Porto, na altura do histórico Moinho Fluminense.

De lá para cá, muitas transformações tomaram a área. A chegada dos modernos bondes do VLT, em 2016, mudou a paisagem e deu ares futuristas ao mais histórico dos bairros: o Centro.

O esvaziamento da região durante a pandemia de Covid-19 levou ao surgimento de outro marco urbano deste período: o Reviver Centro. Criado em julho de 2021, o projeto busca, como o nome diz, dar vida nova a uma das áreas mais nobres da cidade. Já são 43 licenças concedidas para construção de 4.064 unidades residenciais, segundo os dados consolidados de fevereiro deste ano. A aposta é que o renascimento do bairro venha com a chegada de moradores e suas demandas por serviços, lazer e cultura.

Madonna e Lady Gaga

Entre 2015 e 2025, o Rio também voltou a ser rota de grandes eventos internacionais — o maior deles, sem dúvida, os Jogos Olímpicos Rio 2016. No ano passado, a reunião do G20 fez com que os olhos do mundo se voltassem para a cidade. E este ano ainda vai vamos receber outro encontro internacional: a reunião do Brics. Longe das gravatas e perto dos figurinos leves e coloridos, as areias de Copacabana voltaram a receber um megashow: Madonna foi a estrela absoluta da praia. Este ano — em maio — a promessa é de mais catarse à beira-mar com Lady Gaga comandando a festa.

— Hoje, o Rio já conseguiu retomar a sua vocação de protagonista do Brasil. Sediamos eventos internacionais inéditos na cidade, como o G20. Fizemos o Reviver Centro, um programa que está recuperando o Centro da cidade, e ainda reestruturamos a mobilidade, com a reforma de todo o BRT e a inauguração do Terminal Gentileza. Este ano voltaremos a ter um evento internacional: o Brics. Ainda temos, claro, muito para fazer. E também muito para comemorar — diz o prefeito Eduardo Paes.

A propósito: hoje, os 460 anos do Rio serão celebrados com missa e bolo, às 9h, na mais carioca das paisagens: o Santuário Cristo Redentor.

Com informações de O GLOBO.

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