No apagar das luzes de 2025, em dezembro, a Prefeitura do Rio estimou que a cidade enfrenta um déficit de cerca de 860 mil árvores em ruas e áreas públicas. A demanda por mais arborização, aliás, não é exclusividade da capital e se repete em outras cidades do estado. O problema tem ligação direta com as altas temperaturas que já se tornaram parte da identidade do Rio de Janeiro — e vai além da pauta ambiental, alcançando a saúde pública.

Em meio às ondas de calor cada vez mais frequentes, especialistas ouvidor por Agenda do Poder alertam que a escassez de árvores no espaço urbano contribui de forma decisiva para o aumento da temperatura e para a intensificação das chamadas ilhas de calor, sobretudo em bairros mais pobres. A consequência é uma exposição prolongada da população ao calor extremo, com efeitos diretos sobre o bem-estar e o adoecimento.

Segundo a professora de Epidemiologia Ambiental do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Tatiane Moraes, a arborização reduz a exposição às altas temperaturas e funciona como um fator de proteção à saúde. “Ambientes arborizados têm temperatura mais baixa, favorecendo o descanso e a menor exposição. Então, a chance de se sentir mal ou mesmo de ter um mal súbito nesse espaço acaba sendo menor”, explica. De acordo com a pesquisadora, a ausência de áreas verdes aumenta o risco de mal-estar, internações e agravamento de doenças, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com comorbidades.

Especialistas ouvidos por Agenda do Poder são sucintos: menos árvores, mais calor | Crédito: Agência Brasil

Diferença térmica entre os bairros

A sensação de alívio térmico ao entrar em áreas com maior cobertura vegetal — como comumente relatado por quem atravessa o Túnel Santa Bárbara e chega à Zona Sul — não é por acaso. A desigualdade na distribuição de árvores cria um fenômeno conhecido popularmente como “apartheid climático”.

Dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que mais de 37% dos moradores da Região Metropolitana do Rio vivem em ruas sem nenhuma árvore. Em áreas mais pobres, o cenário é ainda mais crítico. Na comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste, apenas 3,5% da população vive em trechos arborizados. Na Rocinha, considerada a maior favela do Rio, o índice chega a somente 12%.

O reflexo aparece no termômetro. Um levantamento do Observatório do Calor, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que a diferença de temperatura entre bairros mais e menos arborizados pode alcançar 11 °C. Além da presença de árvores, fatores como proximidade do mar, de rios e lagoas, circulação de veículos e densidade urbana também influenciam o microclima. Para Tatiane, viver permanentemente em áreas mais quentes dentro da mesma cidade significa um risco contínuo à saúde. Ela destaca que a exposição crônica ao calor compromete o descanso, o sono e a capacidade de recuperação do organismo.

“Sem áreas verdes, a temperatura permanece elevada até dentro das casas, dificultando a recuperação do organismo. Isso agrava ainda mais os efeitos do calor extremo sobre a saúde ao longo do tempo, tornando a falta de arborização um problema claro de saúde pública”.

Tatiane Moraes, professora

Quanto menos árvores, mais calor

De acordo com o professor do Departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF), Félix Carriello, a presença — ou ausência — de árvores interfere diretamente na forma como o calor é absorvido e dissipado nas cidades.

Segundo o coordenador do curso de Ciência Ambiental da UFF, as ilhas de calor surgem porque materiais como asfalto, concreto e pedra absorvem intensamente a radiação solar, enquanto áreas naturais refletem parte dessa energia. A vegetação, explica, atua de forma oposta: além de oferecer sombra, ajuda a regular o microclima, funcionando como um resfriador natural. Quanto maior a cobertura vegetal, maior o frescor.

“Aliado a isso, a gente tem todo um ambiente que proporciona o aumento dos gases de efeito estufa, como a grande circulação de automóveis. Tudo isso contribui para elevar a temperatura das cidades e intensificar as ondas de calor”, afirma.

Estudos conduzidos por Carriello e outros pesquisadores da UFF, com base em imagens de satélite e simulações, indicam que ruas arborizadas registram temperaturas de 1,5 °C a 2 °C inferiores às de áreas sem vegetação. “Isso faz diferença no conforto térmico e na possibilidade de caminhar pela cidade”, diz.

Tatiane Moraes reforça que esse efeito não é apenas térmico, mas também social e sanitário. Segundo ela, trabalhadores informais e pessoas que passam longos períodos expostas ao sol estão entre os mais afetados. “A exposição contínua ao calor aumenta o risco de exaustão, agrava doenças crônicas e compromete atividades básicas, como o trabalho e o descanso”, explica.

Capital fluminense e cidades do RJ vêm registrando aumento de temperatura | Crédito: Reprodução

Calor, saúde e desigualdade

Quando o calor deixa de ser um evento pontual e passa a fazer parte da rotina de determinados bairros, os impactos se acumulam. Segundo Tatiane, a exposição crônica ao calor intensifica o que pesquisadores chamam de injustiça climática, já que nem todos têm as mesmas condições de abrigo ou de recuperação.

Ela explica que a população exposta de forma contínua a temperaturas elevadas enfrenta maior risco de adoecimento. “Quando essa exposição não é pontual, quando ela é crônica, a gente vê maior risco de internação, de óbito e de piora do quadro clínico de pacientes com doenças cardiovasculares, renais e respiratórias”, afirma.

Tatiane destaca que esse impacto é mais severo entre idosos, crianças, pessoas com comorbidades e trabalhadores informais, especialmente aqueles que atuam em ambientes abertos. “São pessoas que passam o dia inteiro expostas ao calor, muitas vezes sem acesso à sombra, a ambientes climatizados ou a locais de abrigo”, diz.

Além dos efeitos físicos, o calor persistente afeta até mesmo o rendimento escolar e a saúde mental. “A dificuldade de dormir, o cansaço constante e a exaustão acabam se acumulando ao longo do tempo”, observa. 

Segundo a pesquisadora, esse desgaste contínuo também afeta a qualidade de vida, o rendimento no trabalho e ainda o aprendizado de estudantes. Ela ressalta que, em bairros mais quentes, até atividades recomendadas para redução do estresse, como exercícios ao ar livre, tornam-se inviáveis, ampliando as desigualdades. 

Tatiane Moraes, docente do Instituto de Medicina Social da Uerj, em entrevista à Agenda do Poder | Imagem: Arquivo pessoal

Calor no dia a dia

Os efeitos da falta de arborização e das altas temperaturas não aparecem apenas nos levantamentos técnicos ou nos estudos acadêmicos. Eles estão presentes na rotina de quem precisa adaptar o dia a dia para lidar com o calor cada vez mais intenso.

Aposentado, Sebastião, de 71 anos, conta que encontrou na praia uma forma de escapar das temperaturas elevadas. “O que mais eu faço é ir para a praia. Quase todo dia vou com um amigo. A gente vai, toma uma cerveja e só volta lá pras 7 da noite”, relata.

Dona Maria, 70, também aposentada, diz que precisou mudar hábitos para preservar a saúde. “Para fugir do calor, uso sombra e água. Como diz o ditado, sombra e água fresca não fazem mal a ninguém”, afirma. Segundo ela, atividades físicas só pela manhã. “Procuro fazer exercício cedo, até no máximo 10h. Depois me recolho e evito sair à tarde. Saúde é tudo. Tento me alimentar bem, comer coisas leves e beber pelo menos dois litros de água por dia”.

Conforme a especialista da Uerj, essas adaptações individuais refletem uma resposta ao aumento do risco associado à exposição prolongada ao calor. Ela destaca que idosos estão entre os grupos mais vulneráveis, já que sentem menos sede, têm maior dificuldade de regular a temperatura corporal e maior risco de agravamento de doenças crônicas. De acordo com a professora, medidas individuais ajudam, mas não substituem políticas públicas capazes de reduzir a exposição ao calor no cotidiano urbano.

Tanto para Tatiane Moraes quanto para Félix Carriello o enfrentamento do calor extremo passa por políticas públicas contínuas de arborização, especialmente nas vias urbanas. 

“Ter uma árvore na rua faz a diferença, mas a possibilidade de se ter bairros e parques arborizados, áreas de lazer com cobertura vegetal, espaços verdes integrados e acompanhamento adequado das espécies é extremamente relevante. É preciso integrar arborização e planejamento urbano, garantindo que áreas menos favorecidas também tenham acesso a parques e espaços verdes de qualidade”, afirma Moraes. 

“Investir em arborização é uma das formas mais eficientes de diminuir a temperatura e transformar a relação do cidadão com a cidade. Se a cidade é mais agradável para caminhar, as pessoas usam menos o carro”

Félix Carriello, professor
Félix Carriello, docente do Departamento de Análise Geoambiental da UFF, em entrevista à Agenda do Poder | Imagem: Arquivo pessoal

Comissão da Câmara critica falta de planejamento integrado

Na capital fluminense, iniciativas recentes buscam ampliar a arborização urbana, mas ainda enfrentam desafios para alcançar as áreas mais vulneráveis. A cidade concentra grandes maciços florestais, como a Floresta da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca, mas a distribuição de árvores nas ruas permanece desigual — principalmente levando em conta o fator econômico das regiões. 

A maior demanda é observada sobretudo em bairros das zonas Norte e Oeste, incluindo Pavuna, Realengo, Anchieta, Quintino Bocaiúva e Madureira. Por outro lado, a Zona Sul concentra a maioria dos locais mais verdes da cidade, entre eles Jardim Botânico, Urca, Laranjeiras, Lagoa, Copacabana, Ipanema e Leblon.

Para enfrentar o déficit, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) lançou, em dezembro, o programa Planta + Rio, que permite a solicitação de mudas pela Central 1746. A meta é plantar 200 mil árvores até 2028, com foco em regiões prioritárias. O número, porém, é visto com cautela frente ao passivo estimado em 860 mil árvores. Até o fim do mês passado, o número de solicitações para plantio de mudas chegou a cerca de 500. 

Segundo a Comissão de Meio Ambiente da Câmara do Rio, presidida pelo vereador Diego Faro (PL), o problema vai além do ritmo de plantio. O colegiado avalia que a política de arborização é fragmentada, dependente de medidas compensatórias da construção civil e sem planejamento centralizado, orçamento próprio ou sistema integrado de dados. O colegiado cobra ainda a criação de um sistema previsto no Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU) — transformado em política em 2016, mas ainda não colocado em prática — que deveria dar transparência sobre a localização, espécie e estado de saúde de cada árvore da cidade, mas que ainda não está plenamente disponível para consulta pública.

“A prefeitura trabalha de forma reativa, sem uma política de longo prazo, o que é problemático, já que árvores são organismos vivos, sujeitos a doenças e aos impactos de um ambiente urbano adverso”, afirma Diego Faro. “Um sistema robusto de gestão da arborização é fundamental para dar respostas mais rápidas e eficazes às demandas da sociedade”, cobra.

Agenda do Poder procurou a Prefeitura do Rio e o Governo do Estado para comentar a situação da arborização nos territórios sob suas gerências, mas não houve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.

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