Rio das Pedras, considerada o berço da milícia no Rio de Janeiro e último território do Itanhangá sob domínio paramilitar, vive dias de tensão diante da ameaça de avanço do Comando Vermelho (CV). Informações investigadas pela Polícia Civil apontam que um grupo de ex-milicianos teria abandonado a antiga organização para atuar ao lado da facção criminosa.
A suspeita levanta o temor de uma mudança histórica no controle territorial da comunidade, localizada na Zona Oeste da capital fluminense. Segundo as investigações, nove integrantes da milícia teriam migrado para o CV e participado de articulações para facilitar a entrada da facção na região.
Na manhã desta quinta-feira (18), o clima de insegurança aumentou após criminosos sequestrarem um ônibus e utilizarem o veículo como barricada em uma das principais vias da favela.
Ação com ônibus alterou rotina da comunidade
O coletivo foi atravessado na Rua Engenheiro Souza Filho, importante corredor viário de Rio das Pedras. Após retirarem as chaves do veículo, os criminosos também utilizaram lixeiras para bloquear a passagem e dificultar a circulação na área.
De acordo com informações apuradas pelas autoridades, a ação teria sido ordenada por integrantes da milícia com o objetivo de provocar a presença policial e impedir uma possível investida do Comando Vermelho contra o território.
Como medida preventiva, o sindicato Rio Ônibus informou que dez linhas municipais tiveram seus itinerários alterados para preservar a segurança de passageiros e trabalhadores do transporte público. A Polícia Militar mobilizou equipes do 18º BPM (Jacarepaguá) para atuar na ocorrência.
Cemitério clandestino é encontrado em área de mata
Enquanto a disputa pelo controle da região se intensifica, uma descoberta macabra reforçou as investigações sobre crimes praticados na comunidade. Policiais da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) localizaram um cemitério clandestino em uma área conhecida como Sertão, próxima à divisa com o bairro do Anil.
No local foi encontrado um poço concretado com aproximadamente 20 metros de profundidade, utilizado para ocultação de cadáveres. A estrutura estava escondida pela vegetação e coberta por uma tampa pesada, cuja remoção exigiu o trabalho conjunto de oito homens.
Nesta quinta-feira, agentes da DDPA retornaram ao local com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Subsecretaria de Inteligência (Ssinte) e do Corpo de Bombeiros. Durante a operação, dois corpos masculinos foram retirados do poço e encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML).
Segundo a Polícia Civil, a descoberta é resultado de um trabalho de inteligência desenvolvido a partir de denúncias e investigações relacionadas ao desaparecimento de moradores da região.
Confrontos reforçam clima de guerra
Moradores relataram ter ouvido diversos disparos durante a madrugada desta quinta-feira. Informações divulgadas em redes sociais indicam que criminosos do Comando Vermelho teriam realizado uma nova tentativa de invasão ao território controlado pela milícia.
A disputa entre as organizações criminosas não é recente. Há pelo menos dois anos, o CV tenta assumir o controle de Rio das Pedras, considerada uma das áreas mais estratégicas da Zona Oeste carioca.
Nos últimos anos, a facção já conseguiu avançar sobre outras localidades anteriormente dominadas por grupos paramilitares, incluindo Tijuquinha, Morro do Banco, Muzema, Anil e Gardênia Azul.
Rio das Pedras movimenta milhões em atividades ilegais
Com cerca de 55 mil habitantes, segundo dados do Censo 2022 do IBGE, Rio das Pedras é considerada uma das comunidades mais populosas do município do Rio de Janeiro.
Estimativas de setores de inteligência policial apontam que a milícia arrecada aproximadamente R$ 2 milhões por mês na região por meio da exploração de atividades ilegais, incluindo cobrança de taxas de segurança, comercialização clandestina de internet e fornecimento irregular de TV por assinatura.
A relevância econômica do território ajuda a explicar o interesse do Comando Vermelho em assumir o controle da comunidade, ampliando sua influência sobre áreas estratégicas da cidade.
Lideranças do CV são apontadas como responsáveis pela expansão
De acordo com as investigações, a ordem para intensificar as invasões a territórios rivais teria partido de Edgard Alves de Andrade, conhecido como Doca, apontado como integrante da cúpula do Comando Vermelho.
Outro nome citado pelas autoridades é Carlos da Costa Neves, o Gardenal, apontado como responsável pela coordenação da expansão territorial da facção. Já Juan Breno Malta Rodrigues, conhecido como BMW, seria um dos principais operadores armados do grupo criminoso.
Segundo registros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Gardenal possui 17 mandados de prisão em aberto, enquanto BMW é alvo de 16 ordens judiciais.
Plano de retomada aguarda execução
Rio das Pedras, juntamente com as comunidades da Muzema e Gardênia Azul, integra um plano estadual de reocupação territorial apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Embora o projeto ainda não tenha uma data oficial para começar, a previsão inicial era de que as ações fossem implementadas ao longo de 2026, com o objetivo de ampliar a presença do Estado em áreas marcadas pela atuação de organizações criminosas.
Enquanto isso, a população segue convivendo com o temor de novos confrontos e com a possibilidade de uma mudança inédita no controle de uma das comunidades mais emblemáticas da história da criminalidade organizada no Rio de Janeiro.






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