Os dois próximos domingos vão decidir o destino de milhões de brasileiros. O Enem 2025, porta de entrada para o ensino superior do país, será aplicado nos dias 9 e 16 de novembro. No primeiro dia, os candidatos farão as provas de linguagens, ciências humanas e redação; no segundo, matemática e ciências da natureza.
Para a maioria dos candidatos, será o resultado de anos de esforço, noites mal dormidas e cadernos gastos, motivados pela fé na tão sonhada vaga na universidade.
À medida que o exame se aproxima, escolas e cursinhos intensificam as ações de revisão. Professores da rede privada e pública promovem semanas de simulados e sugerem os temas que costumam ser mais cobrados. Iniciativas comunitárias somam forças na preparação gratuita de jovens e adultos periféricos.
É o caso do Pré-Vestibular Social Luiz Gama, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Ligado ao Coletivo Direito Popular e à Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal Fluminense (UFF), eles formam turmas com base na educação popular e crítica.
Ali, professores e voluntários acreditam que ensinar vai além de revisar fórmulas e datas.
“Os principais problemas de um pré-vestibular social é que muitos alunos vêm com a autoestima muito baixa. Eles acham que não sabem. Quando vejo que o aluno está desistindo, faltando bastante, gosto muito de provocar. Pela característica do nosso pré-vestibular, não é bom a gente ter uma educação só bancária, a gente tem que construir conteúdo com eles e mostrar que também sabem muito! Às vezes mais do que a gente”, diz o professor da área de humanas Fábio Tavares, que dá aulas no projeto.

A reportagem ouviu professores de diferentes áreas — humanas, redação e exatas — que compartilharam as principais orientações para os estudantes nesta reta final.
A sala que sonha junto
Na Faculdade de Direito da UFF, as manhãs de sábado começam cedo. O som dos marcadores coloridos e o burburinho de vozes ansiosas anunciam mais um dia de aulas no Pré-Vestibular Social Luiz Gama.
O cursinho funciona com o espírito da educação popular. Um espaço onde ensinar e aprender acontecem em conjunto, com consciência crítica e compromisso social.
“É um projeto que é feito de alunos majoritariamente da periferia para alunos da periferia. Já passamos por esse filtro social e poder estar retribuindo para nossa comunidade é uma coisa extremamente importante para a gente. Além de dar o conteúdo, trazemos o conteúdo crítico também, mostrando a realidade como ela é”, reforça Fábio.
As aulas são ministradas por alunos do curso de Direito e por professores da própria universidade. Essa troca constante entre quem ensina e quem aprende já inspira jovens como Miguel Labre, de 18 anos. Todos os sábados, ele ocupa uma das cadeiras do pré-vestibular.
Quero fazer Direito. Eu quero ajudar as pessoas que, infelizmente, não têm a condição de pagar um advogado à altura para poder lutar pela sua causa, seja criminal, seja familiar. E eu tenho esse desejo de ajudar essas pessoas.
Miguel Labre, estudante

Na fileira de trás, Pilar Risso, de 17 anos, revisa anotações e fala com um sorriso nervoso sobre o que a motiva a tentar Psicologia.
“Sempre tive dimensão de que eu tinha determinados problemas e que eles poderiam me afetar, não só comigo mesmo, mas no meu âmbito social. E uma curiosidade que eu tenho é saber como a mente funciona”. Ela pausa, respira e completa, já imaginando o momento em que o resultado sair: “Se eu passar, a primeira pessoa que vou ligar é minha mãe. Eu tenho certeza de que vou chorar muito”.
Ciências humanas e as interpretações
Fábio aposta que o Enem 2025 deve seguir a tendência dos últimos anos: temas contemporâneos, conectados a debates políticos e sociais que nem sempre aparecem com destaque na escola.
“O Enem tem uma tendência a trazer temas muito atuais e, principalmente, assuntos que são atuais, mas pouco discutidos. Imagino que pode vir algo sobre a Palestina; sobre o marco temporal dos povos indígenas ou temas ligados à filosofia moderna. Foucault e Bauman, por exemplo, foram muito cobrados nos últimos anos, e são autores que muitos alunos não têm na grade. Eu apostaria nessas matérias mais contemporâneas e abstratas”, explica.

Para o professor, o erro mais comum dos candidatos é achar que ciências humanas se resume à interpretação de texto.
“Saber relacionar o conteúdo com o tema é o que realmente importa. Eu costumo trabalhar a partir de grandes temas como a alteridade: a relação entre o eu e o outro. Entendendo essa relação e o espaço em que se vive, o aluno consegue desenvolver muito bem as ciências humanas”, diz.
Apostas de temas do professor para o Enem 2025
- Conflito entre Palestina e Israel e a crise no Oriente Médio;
- Questões energéticas da Europa e os reflexos da guerra entre Rússia e Ucrânia;
- Geopolítica dos BRICS e o reposicionamento do Brasil no cenário internacional;
- Discussões sobre inteligência artificial e tecnologia, especialmente em educação e trabalho.
Além do conteúdo, o professor ensina que a estratégia de leitura também pode garantir pontos preciosos. “Leia o enunciado da questão antes de partir para o texto. Veja a fonte, porque ela pode te situar no tempo histórico ou indicar o autor. Quando você entende o contexto, acerta de letra sem perder tempo”, recomenda.
Na reta final, Fábio defende foco em fundamentos. “Se o aluno tem só uma semana para estudar, o ideal é priorizar a história do Brasil, principalmente Colônia, Império e República. Em Filosofia, vale revisar as bases: Sócrates, Platão e Aristóteles. São assuntos que aparecem com frequência”, finaliza.
O desafio das exatas
Entre cálculos, gráficos e fórmulas, o maior desafio dos alunos não está, segundo o professor Wanderson Rodrigues, do colégio Elite, apenas em dominar o conteúdo, mas em entender o que a questão realmente pede.
“O que mais assusta o aluno na prova de matemática é a interpretação. Ele conhece o conceito, mas quando precisa compreender o enunciado, trava. Já em ciências da natureza, o medo aparece quando as matérias se misturam. O estudante entende química e biologia, mas se perde quando entra a parte física”, explica.
Para o professor, o segredo é desmistificar a ideia de que a matemática é inacessível. “Matemática é simples, é uma linguagem. Assim como você fala português, fala inglês, como você aprende a andar de bicicleta. Então, é uma linguagem. Você vai criar a estratégia que fica melhor. É a prática. Então, esquece esse mito”.
Na reta final, ele recomenda revisar o que já foi estudado em vez de tentar aprender conteúdos novos.
“Fez uma simulado, uma prova, e na resolução acabou esquecendo um detalhe. Então, pega esse detalhe que errou, entende o porquê do erro e coloca em prática tudo aquilo que já adquiriu anteriormente. Prestar atenção, basicamente, nisso, para controlar a ansiedade e a segurança”, pontua.
A organização do tempo também é decisiva. O professor orienta que o aluno classifique as questões por nível de dificuldade. O ideal, segundo ele, é reservar cerca de três minutos por questão.
“Lembre-se, estratégia. Coloca um textinho no lado dela e pula. O tempo que você está destinando para essa questão difícil, você poderia fazer umas três, quatro, cinco questões que são fáceis. Tem que ter inteligência emocional”, diz.
O professor também lembra que a prova é longa e cansativa, por isso o candidato deve adotar estratégia para ‘acordar’.
“Você sabe que saõ 45 questões cansativas, com muito texto para ler. Vai te um momento em que voce vai estar cansado, fadigado, e ai precisa acordar! Pede para ir ao banheiro, leva uma água, um chocolate para te dar uma energia. Tem que estar o tempo todo se gerenciando”, reforça.
Apostas do professor que vão cair na prova:
1º – Razão , proporção, regra de três e porcentagem;
2° – estatística (média, moda, mediana, gráficos e tabelas);
3° – geometria (plana e espacial);
4° – função (afim e quadrática);
5° – transformações de unidades (notação científica).
Como evitar os erros
Entre os erros mais comuns, Wanderson destaca um que custa caro: não ler o comando da questão com atenção.
“Vocês precisam ler o comando da questão e sinalizar. Às vezes na empolgação, você consegue fazer a conta e fica feliz, acha o valor 10, que é a letra A, vai lá e marca. Mas o comando da questão falava o seguinte: quero dobro desse valor”, orienta.
Outro descuido frequente é com as unidades de medida: km², cm², decímetro. Esses detalhes derrubam pontos preciosos, conforme alerta o professor.
Redação: o divisor de águas
O professor Diogo Comba, que leciona redação em colégios particulares do Rio, aposta que o Enem 2025 deve abordar temas sociais de longa data, mas que continuam urgentes na realidade brasileira.
“O meu primeiro palpite é o seguinte: ‘Por que o acesso à moradia digna ainda é um desafio brasileiro’. O segundo seria: ‘Os múltiplos impactos do crescimento da economia informal no Brasil’”
Diogo Comba, professor
Com anos de experiência treinando candidatos para o exame, Diogo divide os estudantes em dois grupos: os que ainda buscam consistência na estrutura do texto e os que já estão em busca da nota máxima.
“Vamos imaginar, primeiramente, uma pessoa que tem dificuldades, que muitas vezes não consegue alcançar a nota 600, na casa dos 60%, para a redação. Eu sugeriria para que essa pessoa treinasse as partes do texto: introdução, os parágrafos argumentativos e, por último, a proposta de intervenção”, orienta.
Já para os alunos que buscam ultrapassar os 800 pontos, o professor recomenda ousadia: “Eu falaria para essa pessoa treinar temas inéditos da redação, procurando repertórios pouquíssimos utilizados, associando adequadamente esses repertórios ao tema. Pensar em argumentos diferentes, fora da caixinha. Essa pessoa não precisaria, nesse momento, treinar cada parte da sua redação”.
Competências e pontos de atenção na redação
Diogo lembra que a redação do Enem é avaliada em cinco competências, que vão muito além de escrever bem. Segundo ele, conhecer o que cada uma delas exige é essencial para entender onde estão os erros e como transformá-los em pontos.
Veja as dicas do professor:
- Competência 1 (norma padrão): Em caso de dúvida sobre ortografia, acentuação, concordância ou regência, pense em uma palavra sinônima cuja grafia você tenha certeza.
- Competência 2 (tipo de texto): Mesmo que o candidato narre ou descreva em alguns momentos, a dissertação deve ser predominantemente argumentativa.
- Competência 3 (coerência): Busque argumentos válidos, criativos e que dialoguem com a realidade social.
- Competência 4 (coesão): Cuide da arquitetura do texto e das ligações entre as partes.
- Competência 5 (proposta de intervenção): Lembre-se dos elementos de intervenção. Seja criativo, mas mantenha a proposta viável e bem estruturada.
Devo começar pela redação?
Para Diogo, administrar o tempo da prova também é parte fundamental. Ele aconselha que os participantes começem a prova pela redação.
“Faz um planejamento do seu texto, faz o rascunho. Aí, vai lá na parte de linguagens, pega algumas questões pequenas, que tenham gráfico, imagem, tirinhas e textos pequenos. Faça essas questões e depois vá para a sua versão definitiva no texto”.
O professor também destaca a importância de repertórios culturais variados e que, muitas vezes, o que o candidato consome e vivencia no dia a dia pode ajudar na elaboração do texto.
“Um filme, uma série, uma música ou um livro podem ajudar muito na hora de escrever. E o conhecimento de outras disciplinas, como história, geografia, filosofia, sociologia, biologia, enriquece a argumentação. Tudo o que o aluno aprende pode e deve dialogar com o texto”, finaliza.
O que levar no dia da prova
- Documento oficial com foto (inclusive digitais como e-Título, CNH Digital ou RG Digital);
- Caneta esferográfica transparente de tinta preta (leve duas);
- Cartão de confirmação de inscrição;
- Lanche leve e água em garrafa transparente sem rótulo.
Os portões abrem às 12h e fecham às 13h (horário de Brasília). A prova começa às 13h30. No primeiro dia, termina às 19h; no segundo, às 18h30.
Outros pré-vestibulares sociais no Rio
- Pré-Universitário Popular Praia Vermelha
Vinculado à Escola de Engenharia da UFF, o projeto atua desde 1999 e oferece aulas de segunda a sexta, das 18h às 21h40, no Bloco H do campus da Praia Vermelha (Rua Passos da Pátria, 156 – São Domingos, Niterói).
Mais informações sobre as inscrições para o próximo ano podem ser acompanhadas pelo Instagram do projeto.
- Pré-Vestibular Nós por Nós
Com o objetivo de democratizar a educação, o projeto oferece aulas aos sábados, das 8h às 18h, no Colégio Municipal Irene Barbosa Ornellas, no Jardim Catarina, em São Gonçalo.
A taxa de matrícula é de R$ 50, e a mensalidade custa R$ 30. Há 10 vagas com isenção para quem comprovar não ter condições financeiras de arcar com o valor.
Mais informações sobre as inscrições para o próximo ano podem ser acompanhadas pelo Instagram do projeto.
- Pré-Enem UFRRJ
Programa de extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em Seropédica, o curso atende estudantes de baixa renda que já concluíram ou estão no último ano do ensino médio. O processo seletivo acontece todos os anos, entre abril e maio, e oferece 150 vagas.
As inscrições são presenciais, na Pró-Reitoria de Extensão, com entrega de cópias de documentos pessoais e preenchimento de ficha socioeconômica.
- Pré-Vestibular Popular Razão 1
Criado em 2011 em parceria com a Paróquia Nossa Senhora do Desterro e a UERJ, o curso é voltado a jovens e adultos de baixa renda que concluíram ou estão cursando o ensino médio.
As aulas acontecem de terça a sexta-feira, das 18h às 21h15, e aos sábados, das 8h30 às 17h. Para participar, é necessário fazer a pré-inscrição online, doar 1 kg de alimento não perecível e entregar uma carta de apresentação.
- Pré-Enem Firjan SESI
Oferecido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e pelo Serviço Social da Indústria (SESI), o curso é gratuito e voltado para estudantes da rede pública. São cerca de 3 mil vagas distribuídas em unidades Firjan SESI e Firjan SENAI em todo o estado.
Podem participar candidatos com idade mínima de 15 anos, que estejam cursando ou já tenham concluído o ensino médio em escolas públicas. Saiba mais sobre a inscrição no site.


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