Aos 12 anos, Marco Aurélio Araújo Passos pisou pela primeira vez na Marquês de Sapucaí. Era integrante da ala das crianças da Vizinha Faladeira, escola do bairro do Santo Cristo, Região Portuária do Rio. Duas décadas depois, já conhecido por Marquinho Passos, atua como diretor de tamborim na Unidos do Viradouro. É lá que ele ajuda a construir um desfile que vai transformar o próprio mestre de bateria em enredo, o lendário Moacyr da Silva Pinto, conhecido como Mestre Ciça.

O primeiro instrumento de Marquinho veio de casa, contou em entrevista à Agenda do Poder, para a série Artistas da Avenida. Ganhou um cavaquinho da mãe ainda adolescente e, aos 13 anos, já tocava na noite. A intenção era seguir no pagode, mas um movimento inverso aconteceu aos poucos: saiu dos palcos para os ensaios de escola de samba.

“A gente faz ao contrário: não é só da escola de samba que vai pro pagode, eu fiz o caminho inverso. Comecei no pagode e comecei a entender que o samba era muito mais apaixonante pra mim”.

A partir daí, decidiu direcionar o tempo e o estudo para o Carnaval.

A entrada na bateria da Vizinha Faladeira ocorreu em 2000. Desde então, Marquinho acumulou passagens por outras escolas e mantém vínculo de mais de 20 anos com a Unidos da Tijuca, escolhida inicialmente pela proximidade geográfica.

Marquinho ao lado de outros ritmistas da escola de samba Vizinha Faladeira, no início dos anos 2000 – Crédito: Reprodução – Redes sociais

“Eu desfilei na Unidos da Tijuca por mais de 20 anos. Foi a escola que, por ter um ensaio perto da região do Santo Cristo, ali na Leopoldina, era muito mais acessível pra mim e pros meus amigos. Então eu comecei a amar mais o Carnaval e entender que aquilo ali era o que eu queria”, lembra.

Viver de Carnaval, para o Carnaval e no Carnaval

Viver de Carnaval não era um plano estruturado, mas deu certo para o jovem ritmista. Hoje Marquinho comanda o naipe do tamborim da Furacão Vermelho e Branco, bateria da Unidos da Viradouro. Mas a atuação não para por aí: ele também integra a banda de samba do cantor Enzo Belmonte.

“Eu nunca me imaginei viver de Carnaval, mas, no fundo, quando mais novo, cabeça de adolescente, de jovem, a gente achava que daria. Não era um sonho palpável pra mim, era uma coisa de ‘se der, deu’. E hoje eu vivo de Carnaval, pro Carnaval e no Carnaval.”

Em seu coração, mora o desejo grande de que as pessoas conheçam a festa no período em que ela é construída, não apenas nos meses do calendário oficial. Conforme conta, ainda existe dificuldade de reconhecimento externo, principalmente por parte de empresas e do público externo.

Marco Aurélio contou sua história nos bastidores do Carnaval para o 8º capítulo da série Artistas da Avenida | Crédito: Gabriel Damião/ Agenda do Poder

“O maior desafio é o entorno entender como é importante. As empresas entenderem que vale a pena investir, que existe trabalho sério, que não é só aquilo que está na TV. Costumo falar, quando é o fim do Carnaval da gente, é o início para os outros. Porque nessa época já estamos cansados, mas é prazeroso. Daqui a dois meses, já estamos dizendo: ‘Meu Deus, que saudade dessa correria’. E o ciclo se renova”, conta.

Carnaval e História: o que as duas têm em comum

O impacto do Carnaval em sua vida foi tamanho que mudou a relação e a visão do carioca sobre educação. Na infância, enfrentava dificuldade com a disciplina de História na escola. Aluno da Fundação Bradesco, em dado momento, foram os enredos que ajudavam Marquinhos a fixar conteúdos.

Depois de formado, passou a valorizar a matéria. “Eu sempre brinquei que, na escola, eu era muito ruim em História. O que me salvava eram os sambas, os enredos. Depois que saí do colégio, estudei na Fundação Bradesco, onde muitos do Carnaval estudaram. Depois de lá, passei a amar a disciplina. Eu era um péssimo aluno e queria me formar em História pra ser professor através do samba”.

Os ventos sopraram para outros lados e Marquinho não chegou a seguir para a sala de aula, mas debate esse e outros temas do universo carnavalesco no podcast PodSamba, publicado no Youtube.

Marquinho desfilou por 20 anos na Unidos da Tijuca – Crédito: Reprodução/ Jullie Abreu

Olhos, mãos e apitos do Mestre Ciça

Na Unidos do Viradouro, ele é diretor de tamborim sob o comando do mestre Ciça. A bateria opera com divisão de responsabilidades, onde cada naipe tem direção própria. Há diretor de repique, de caixa, de marcação, de terceira e assim por diante.

Segundo Marquinho, o mestre conduz, mas não consegue estar em todos os pontos ao mesmo tempo. É nesse momento que os diretores entram em ação:

“O mestre não consegue estar em todo lugar ao mesmo tempo. Quem acompanha o desfile de escola de samba, vai ver ele na frente, comandando. No dia, o mestre vai precisar dos diretores ali pra auxiliar no comando. A gente trabalha muito em conjunto, é realmente uma união, uma família. Nós somos os olhos, as mãos, o apito do Ciça dentro da bateria”.

Marquinho Passos, diretor da Furacão Vermelho e Branco

O diretor também atua como elo entre o mestre e os ritmistas, explica Marquinho. Ele absorve as demandas e resolve questões cotidianas antes que cheguem ao comando principal. O processo institui uma lógica quase empresarial:

“O diretor tem o papel de auxiliar o mestre em tudo. A gente não deixa chegar algum tipo de estresse pro Ciça ou pra qualquer outro; a gente resolve. É igual numa empresa. Você não vai chegar no CEO e falar que acabou o papel de limpar a mão no banheiro. Existem níveis. A gente auxilia muito o Ciça nisso”, explica.

Além da organização interna e da divisão de responsabilidades, a função exige que Marquinho e outros diretores acompanhem individualmente os ritmistas, algo que vai além da técnica musical.

Se falta dinheiro para que eles compareçam aos ensaios, fica a cargo do diretor lidar com a situação. Para Marquinho, a tarefa exige seriedade, sem deixar de lado a boa e velha compreensão.

Marquinho Passos diz que “respira carnaval” | Crédito: Reprodução/Redes sociais

“É trabalhoso ser diretor. É gestão de pessoas. Às vezes, a pessoa está indo ensaiar e não tem dinheiro de passagem, não almoçou, não jantou. A gente tem que entender o humor dela. Tomou uma bronca no trabalho, está indo pra se divertir e não pode tomar bronca ali. O ambiente tem que ser diferente. É uma seriedade, mas, ao mesmo tempo, tem que ter jogo de cintura. Não é tudo a ferro e fogo. Tem que entender”, destaca.

Um Carnaval que começa muito antes de fevereiro

Os trabalhos começam cedo, logo na primeira terça-feira, depois da Semana Santa, em abril. A cada ano a bateria é remontada, já que alguns ritmistas deixam a escola, outros chegam, além de mudanças de instrumento e funções que acabam redistribuídas.

“Acabou a Semana Santa, na primeira terça-feira já tem ensaio. Então, a gente começa a ensaiar bem cedo. Os diretores começam a entender quem vai desfilar de novo, quem não quer, quem está chegando, a lapidar e montar novamente a bateria, porque todo ano ela é remontada”, conta.

Além disso, a função de diretor também envolve criação musical e administração de pessoas. O desenho de tamborim — uma sequência de frases executadas ao longo do samba, é de sua responsabilidade. Diferentemente da caixa ou dos surdos, instrumentos que mantêm padrões contínuos, o tamborim alterna base e variações. É o que o diretor explica:

“A bateria tem vários instrumentos: surdo de primeira, de segunda, de terceira. A caixa vem tocando um padrão do início ao fim. O tamborim não. Ele faz frases. Além de tocar a base do samba, o carreteiro, a gente faz desenhos, nuances que a melodia pede, que a letra pede. A gente cria em cima do que o samba proporciona”, explica.

O Carnaval que presta homenagem ao Mestre Ciça

Em 2026, a Viradouro levará para a Avenida um enredo dedicado a Mestre Ciça, que completa 70 anos de vida e permanece à frente da bateria. Antes mesmo da escolha do samba, Marquinhos decidiu que o desenho do tamborim traria referências à trajetória do homenageado.

Para isso, teve que estudar as passagens por escolas como Estácio, Tijuca, Grande Rio e outras agremiações ligadas ao percurso do mestre.

Nas redes sociais, Marquinho tem admiração declarada por Mestre Ciça | Crédito: Reprodução – Redes

“Quando saíram os sambas, eu escutei todos. Fui entendendo e trabalhando. Peguei partes do samba da Estácio, da Tijuca, do Vasco da Gama, da Grande Rio. Fiz um estudo para fazer o melhor pra ele. Queria que a pessoa ouvisse e identificasse por onde ele passou. O desenho é praticamente a nuance melódica que o tamborim faz, como se fossem os metais numa banda, fazendo frases”, contou.

Para o diretor, a homenagem ao Mestre Ciça alcança todos os segmentos da escola. A expectativa é a de ver a si mesmo refletido na Avenida em uma dimensão maior.

“Ter um mestre de bateria como enredo, ainda mais em vida e atuando, eu tenho certeza de que não é só pra mim, mas pra todos os sambistas, a personificação de se ver ali como enredo. O enredo é do Ciça, mas poderia ser eu, outro diretor, um passista, um mestre-sala. Quem conhece o Ciça sabe que ele ama o samba. Coloca a cadeirinha dele, assiste ensaio no Setor 11, faça chuva ou faça sol. Ele é sambista”, admira.

A Unidos do Viradouro, que completa 80 anos de fundação em 2026, levará para a Marquês de Sapucaí “Para cima, Ciça!”. A escola será a terceira a se apresentar na segunda-feira (16), com início previsto para 1h.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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