Pelo menos três empresários bastante conhecidos em Santa Catarina participaram ativamente das manifestações golpistas que ocorrem no estado desde a eleição de Lula. São Luciano Hang – dono das lojas Havan, Emílio Dalçoquio – de transportadora e postos de combustíveis, e Luiz Henrique Crestani – de logística, apontados em reportagem publicada nesta quarta-feira pela Agência Pública.
Um documento da Polícia Rodoviária Federal citado na reportagem informa, por exemplo, que caminhões a serviço da Havan foram enviados para os bloqueios.
A Agência Pública lembra que Hang e Dalçoquio participavam de um grupo de WhatsApp de empresários bolsonaristas em que, no mês de agosto, foi defendido um golpe de estado caso Lula ganhasse a eleição.
A reportagem aponta, além de Dalçoquio e Hang, o empresário Luiz Henrique Crestani. Ele publicou em 1º de novembro, no Instagram, que os veículos de sua empresa estavam nos bloqueios:
“Nossos caminhões da @lukelogistica estão parados em Palma Sola”, pequena cidade fronteiriça com o Paraná.
Ele também publicou fotos suas nas manifestações.
De acordo com a reportagem da Agência Pública, os protestos também ganharam a adesão de dezenas de donos de negócios de médio porte e comerciantes que baixaram as portas e coagiram funcionários a participar das paralisações.
Em 3 de novembro, na cidade de Canoinhas, a Câmara dos Dirigentes Lojistas publicou nota conclamando os associados a fecharem seu comércio ou liberarem seus empregados a participarem do “movimento”. O locaute, como é chamada a paralisação de empresários, é crime e o Ministério Público do Trabalho de Santa Catarina está investigando o caso.
Santa Catarina é o estado em que houve mais bloqueios de rodovias.
As lojas da Havan de Luciano Hang foram pontos de concentração dos protestos golpistas. A empresa emitiu nota negando participação, mas o relatório de 31 de outubro da Polícia Rodoviária Federal registra que a Havan, a Premix Concreto e a Transben Transportes – esta da esposa, do cunhado e do sogro de Hang – “haviam deslocado veículos de carga até a manifestação no KM 83 e estavam presentes de forma organizada” no bloqueio da BR-101, na altura do município de Barra Velha. Ali, o protesto foi em frente ao posto de combustível Maiochi, próximo a uma loja da Havan e a uma das garagens da Transben.
Presidente da empresa de transportes ligada à Havan, Adriano Benvenutti, irmão de Andrea Benvenutti Hang, esposa de Luciano Hang, foi denunciado pela Procuradoria Regional do Trabalho de Santa Catarina por coação eleitoral. Ele gravou vídeo pedindo que os empregados votassem em Bolsonaro, como Luciano Hang já fizera.
“Vou pedir encarecidamente a todos os motoristas que votem no Bolsonaro para manter as empresas crescendo”, disse o cunhado de Luciano Hang.
A Transben tem como principal cliente a rede Havan. Além do bloqueio onde oficiais da polícia rodoviária registraram a participação organizada de seus caminhões, ao menos outros quatro pontos de obstruções de vias em Santa Catarina foram realizados exatamente na frente das lojas de Luciano Hang – nas cidades de Itapema, Indaial, Palhoça e Rio do Sul.
Em Itajai, um dos maiores bloqueios rodoviários em Santa Catarina ocorreu em frente aos negócios da família Dalçoquio, dona de uma grande transportadora e sócia de uma rede de postos de gasolina e de um hotel.
Emílio Dalçoquio Neto, um dos herdeiros da empresa, conhece Jair Bolsonaro desde 2015. Em dezembro de 2021, ele acompanhou o presidente, a primeira dama Michelle e a filha do casal, Laura, no parque de diversões Beto Carrero. Junto a Luciano Hang, Emílio foi um dos anfitriões de Jair Bolsonaro em Balneário Camboriú durante a campanha.
A Dalçoquio Transportes emitiu nota em 3 de novembro alegando que “o que pensa ou não pensa o sr. Emílio Dalçoquio não retrata os pensamentos e interesses da administração da empresa. Até porque, o sr. Emílio Dalçoquio não ocupa assento na administração da organização, razão pela qual suas declarações são de cunho único e exclusivamente pessoal, não podendo ser associadas a Transportes Dalçoquio nessas aventuras retóricas”.
Atualmente, Emílio Dalçoquio preside a associação Lux Brasil, que informa “defender ideias conservadoras”. A organização está registrada em nome de Leandro José Castro de Freitas, que até setembro estava lotado no gabinete do senador Jorginho Mello, agora governador eleito de Santa Catarina. A Lux Brasil apoiou o Congresso Conservador Brasileiro, que aconteceu em 26 de junho, em Massachusetts, nos Estados Unidos. O evento contou com a participação de influenciadores da extrema-direita, como o blogueiro Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira.
Outra empresa que apareceu no radar da PRF nos bloqueios golpistas é o Grupo Rudnick que tem postos de gasolina, uma empresa de distribuição de combustíveis e uma mineradora em Santa Catarina.
Foi perto de um posto Rudnick que, segundo a Polícia Rodoviária Federal, começaram os bloqueios do trecho da BR-101 que passa por Joinville, a principal cidade catarinense.
Outro posto de propriedade da família Rudnick serviu de ponto de concentração para manifestantes golpistas no município de Guaramirim.
No município de Rio do Sul, há dez dias os bolsonaristas fizeram circular em grupos de WhatsApp uma lista de 41 empresas e lojas da região que paralisaram as atividades e liberaram seus funcionários para aderirem às manifestações organizadas na frente da Havan. Os lojistas que não aderiram trabalharam com as portas fechadas, com medo de serem taxados de comunistas e boicotados pela população.





