Remédio demais, pão de menos: Zona Sul do Rio já tem mais farmácias do que padarias

Comércio carioca muda de perfil e moradores protestam contra fechamento de padarias tradicionais para dar lugar a drogarias

Um levantamento da Prefeitura do Rio revela que a Zona Sul da cidade é a única região da cidade em que o número de farmácias (425) já supera o de padarias (380). A inversão tem provocado críticas e protestos de moradores, como o desabafo registrado em uma placa improvisada em Botafogo: “Chega de farmácias, quero uma padaria”, informa O Globo.

O episódio ocorreu após o fechamento da tradicional Panificação Voluntários, que funcionava há mais de 60 anos na esquina das ruas Voluntários da Pátria e Dona Mariana. O imóvel, agora ocupado por mais uma unidade da rede Drogaria Cristal, gerou comoção entre os vizinhos. “Prefiro a padaria. Era a melhor do bairro. Farmácias já temos muitas”, lamenta Josildo Dias, de 50 anos, zelador do prédio e ex-funcionário do antigo estabelecimento.

Em Copacabana, o cenário é ainda mais acentuado: são 118 drogarias contra 93 padarias. Em pouco mais de quatro quilômetros da Avenida Nossa Senhora de Copacabana são  43 farmácias — uma a cada cem metros — contra apenas quatro padarias.

Para o economista e professor Mauro Osório, da UFRJ, o fenômeno está ligado ao perfil demográfico e socioeconômico da região. “O aumento da longevidade e do envelhecimento, aliado à renda mais alta na Zona Sul, acaba gerando público para as farmácias, além das pessoas que procuram estes estabelecimentos por conta dos produtos para estética”, analisa. Segundo o Censo de 2022, Copacabana tem 42 mil idosos e o Leblon concentra a maior proporção de pessoas com mais de 60 anos da cidade: 35,3%.

Já o presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Panificação e Confeitaria, Ronaldo Sales de Lima, atribui o fechamento das padarias à alta dos aluguéis. “Na Zona Sul, o imóvel é mais valorizado e, quando o dono não é o proprietário, não consegue manter o negócio. E, quando é, muitas vezes prefere alugá-lo para outra atividade mais rentável”, afirma. Ele explica que algumas padarias tentam sobreviver diversificando seus serviços ou se transformando em mercearias que ainda vendem pão, mas de forma secundária.

Em Botafogo, o número de padarias (71) ainda supera o de farmácias (65), mas muitas estão escondidas dentro de supermercados, como ocorre na própria Rua Voluntários da Pátria, que concentra 18 drogarias em apenas 1,8 km. Padarias tradicionais como a Nema, Le Déppaneur e a Confeitaria Imperial resistem com dificuldades. A última, localizada na esquina com a Rua Real Grandeza, é um verdadeiro ícone da cidade, aberta desde 1927 e frequentada por nomes como Tim Maia, Paulinho da Viola e Costinha. Após uma grande reforma, reabriu em 2016 com a proposta de manter suas raízes e seguir como padaria e confeitaria artesanal. “Oferecemos produtos próprios, com variedade de pães e doces que fazem a diferença”, destaca o gestor Anderson Michel.

Já a Panificação Voluntários, que encerrou suas atividades há cerca de cinco meses, deixou um vazio no bairro. Fundada por um imigrante espanhol nos anos 1950 e gerida por seus filhos após sua morte em 2020, a padaria virou farmácia e gerou comoção nas redes sociais. “Triste esta padaria ter fechado, e mais triste ainda virar mais uma farmácia”, escreveu uma moradora. “Botafogo é a nova ‘Farmacabana’”, ironizou outra.

A perda também impactou o chaveiro Felipe Barros, de 27 anos, que trabalhava em frente ao local. “Perdi metade da clientela. As pessoas iam comprar pão e aproveitavam para fazer chave. Mesmo que voltem por causa da farmácia, vou sentir falta dos cafezinhos”, lamenta.

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