* Paulo Baía
O debate com os presidenciáveis na noite do dia 29/09 e madrugada do dia 30/09 foi trepidante, foi quente, teve um embate político centralizado em Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Rede Globo de Televisão convidou, como manda a legislação eleitoral em vigor, os sete candidatos a Presidente da República de partidos com representação mínima na Câmara dos Deputados, foram sete almas.
Do debate podemos dizer que foi quente. Bolsonaro usou com maestria sua estratégia, do mesmo modo que Lula da Silva também usou com maestria sua estratégia prévia.
Lula e Bolsonaro protagonizaram um festival de direito de respostas, fazendo realçar suas presenças e tempo de fala.
Lula e Bolsonaro ocuparam a maior parte do tempo do debate, sobressaindo os dois em conjunto e cada um individualmente, realçando a polarização Lula x Bolsonaro.
Os demais candidatos, como Ciro Gomes/PDT e Felipe D’avila/Novo desapareceram.
Soraia Thronicke/UB e Simone Tebet/MDB foram usadas tanto por Jair Bolsonaro como por Lula da Silva – mais por Bolsonaro do que por Lula – para servirem de escada, de trampolim. Tentaram reagir às manipulações retóricas de Jair Bolsonaro e Lula, mas não conseguiram, acabaram servindo de escada e trampolim para Jair Bolsonaro.
O Padre Kelmon/PTB foi fazer o que foi planejado por Jair Bolsonaro, tumultuar o debate. Conseguiu em parte, trouxe a necessidade de uma intervenção dura de William Bonner como mediador.
William Bonner fez o necessário para que o padre Kelmon ficasse dentro das quatro linhas de convivência pactuada para o evento televisivo. Padre Kelmon agia dentro da estratégia de Bolsonaro, cumpriu bem seu papel.
Ciro Gomes/PDT desapareceu, sucumbiu às estratégias da polarização Lula x Bolsonaro, bem como Felipe D’avila, candidato do Novo.
Ciro Gomes/PDT e Felipe D’avila/Novo não fizeram parte das estratégias de Jair Bolsonaro e de Lula da Silva, foram escanteados.
Tivemos um debate longo, um debate quente, acalorado, vibrante.
Um debate que trouxe propostas políticas, propostas programáticas, propostas de gestão governamental e pública.
O foco do debate foi a questão da corrupção, foi a questão moral, tanto para Lula como para Bolsonaro.
Todas as questões de natureza ética, moral e de denúncia de corrupção, colocadas a todo momento, foram bem respondidas por Lula e Jair Bolsonaro. Os dois responderam com firmeza e habilidade as acusações de corrupção contra eles próprios ou seus governos.
Ao fim e ao cabo, ao logo do debate com as sete candidaturas, podemos dizer que nada mudou para os telespectadores, para os analistas e colunistas políticos. O debate não contribuiu para mudanças na percepção da população sobre os postulantes ao cargo de presidente da república.
Ficou “tudo como dantes no quartel de Abrantes”, o que fez Jair Bolsonaro e Lula da Silva ganharem a noite e a madrugada.
Pois o retrato apresentado na pesquisa do Datafolha no início da noite do dia 29/09 ficou inalterado.
Lula fica com suas intenções de votos variando de 48% até 52% e Jair Bolsonaro oscilando entre 29%a 33%.
Sobre os demais candidatos ficou uma dúvida: vão conseguir manter seus níveis de intenções de voto apontados no Datafolha de 29/09?
Padre Kelman deve ter seus votos se deslocando em parte para Jair Bolsonaro. Com o debate da Globo, Ciro Gomes e Simone Tebet correm o risco de serem desidratados, vítimas do chamado voto necessário e/ou voto útil, perder votos a favor de Lula da Silva.
Esse debate da Rede Globo de Televisão não se pode dizer que foi frio ou morno, foi um debate vibrante, foi um debate quente. Não se pode dizer que o debate não apresentou propostas, apresentaram propostas, muitas propostas. Não se pode dizer que não se discutiu corrupção na gestões dos governos Lula e de Jair Bolsonaro, se discutiu corrupção e bastante nos dois governos.
Ou seja, todos os pontos foram abordados de forma institucional ou personalizada nas figuras de Lula e de Jair Bolsonaro.
Minha reclamação, que deve coincidir com a dos telespectadores, foi o horário do debate, um debate muito tarde, que virou a noite, que começou já muito tarde, às 22:30 horas.
Um debate que a maioria da população não assiste. A maioria da população terá acesso ao debate através de comentários como esse que elaborei, terão notícias do fato, não foram observadores diretos.
Assim, o debate foi maravilhoso para Lula da Silva.
*Sociólogo, cientista político, técnico em estatística e professor da UFRJ.





