O Rio de Janeiro registrou 1.844 novos casos de HIV até setembro de 2025, segundo o Observatório Epidemiológico da prefeitura. A maioria dos diagnósticos está entre jovens, cenário que expõe falhas na prevenção e a persistência do estigma em torno da infecção, como destacam especialistas. Enquanto quase duas mil pessoas passaram a conviver com o vírus este ano, pesquisadores brasileiros avançam em descobertas que ajudam a explicar por que o HIV é tão difícil de controlar — e podem abrir caminho para novas estratégias no futuro.
A maior parte dos novos registros está entre pessoas de 20 a 29 anos (659 casos). Nos adolescentes de 15 a 19 anos, foram contabilizados 62 diagnósticos.
O infectologista Marcos Junqueira, do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe) e professor da Universidade do Estado do Rio (Uerj), aponta que a concentração entre os mais novos está ligada a comportamentos de risco.
“No jovem, você controlar o comportamento e conseguir a adesão adequada ao tratamento é mais difícil. O adolescente e o jovem aderem menos ao tratamento que o adulto ou pessoas mais velhas”, explica.
Para a antropóloga Thalita Medina, mesmo com tratamento eficaz, o preconceito e a desinformação continuam sendo barreiras.
“O HIV continua sendo tratado como um tema proibido, o que impede conversas abertas e educativas. Há uma cultura do silêncio que dificulta o enfrentamento do problema. Além disso, é importante considerar a desigualdade estrutural: pessoas negras, LGBTQIA+, trans e periféricas enfrentam múltiplas camadas de estigma. O medo de revelar o diagnóstico mostra que o preconceito está enraizado não apenas nas relações interpessoais, mas também nas instituições e na forma como a sociedade lida com a diversidade”, afirma.
Vidas atravessadas pelo diagnóstico
Em um exame de rotina, o psicólogo Guilherme Lima, de 32 anos, descobriu que estava vivendo com HIV. Não havia sinais claros, nem desconfiança. “Veio como um choque”, conta. “Eu estava num momento da vida em que pensava em várias coisas, menos nisso, e de repente precisei lidar com uma nova realidade”.
A primeira reação foi de medo. A cabeça correu para os estigmas antigos, as histórias que marcaram as décadas de 1980 e 1990, quando o HIV ainda era sinônimo de sentença de morte.
“Foi doloroso, mas aos poucos fui entendendo que havia tratamento eficaz e que a vida podia seguir. Esse processo emocional exigiu bastante de mim, mas também me trouxe força e muito crescimento pessoal e profissional”
Guilherme Lima
Ele relembra que contar para família e amigos era outro desafio. O receio do julgamento pesava, mas, quando decidiu compartilhar, Guilherme encontrou apoio: “Recebi acolhimento de verdade. Ter pessoas do meu lado fez toda diferença.”

Na prática, a vida mudou: consultas regulares, exames e a rotina com a medicação. Hoje, Guilherme vive com carga viral indetectável, quando o vírus não é mais encontrado no sangue e deixa de ser transmitido.
Junqueira explica o termo: “A pessoa que tem a carga viral indetectável, não transmite o vírus. Se você tem carga viral indetectável, não vai transmitir a doença por relação sexual e outras formas, mesmo que tenha uma relação sem camisinha, sem proteção nenhuma. [No caso das grávidas] a mãe não vai transmitir para o feto”.
Ainda assim, Guilherme lembra que a barreira do preconceito persiste. “Ainda existe muita desinformação. Muita gente acha que quem vive com HIV é um risco para os outros. Também há julgamentos morais, como se o diagnóstico fosse resultado de escolhas erradas. Isso machuca, porque invisibiliza a pessoa por trás do diagnóstico.”
Foi justamente essa experiência que moldou sua atuação profissional. Como psicólogo, ele decidiu atender pacientes que vivem com HIV. Nas redes sociais, Guilherme reúne mais de 44 mil seguidores, onde compartilha diariamente informações sobre o tema.
“Minha vivência me mostrou na pele o quanto o estigma pesa. Então decidi transformar isso em acolhimento. Atender essas pessoas é também oferecer aquilo que eu precisei lá atrás: escuta, compreensão e um espaço sem julgamento”, enfatiza.
Vivendo bem
A nutricionista Camila Jonas, de 34 anos, nasceu com o vírus, transmitido pela mãe durante a gestação, chamado de transmissão vertical. Ela conta que só na adolescência percebeu o peso do preconceito.
“Era um pouco velado para mim. Eu fui descobrir mais adiante, olhando a medicação, que eu vivia com HIV. Ao mesmo tempo, não tinha a dimensão do preconceito, do estigma. Foi mais tarde, no colégio, que eu comecei a entender. Lembro de uma professora dizer que os antirretrovirais só prolongavam a vida, mas eles nos dão vida. É diferente. Hoje, o HIV é uma doença crônica, como diabetes ou hipertensão: exige cuidados, mas é controlável”, conta Camila.
A infância foi feliz, mas marcada por pequenas restrições. “Minha mãe não deixava eu dormir na casa de coleguinhas porque teria que levar a medicação e explicar. Era uma forma de me proteger.” Na adolescência, os desafios aumentaram: o medo da rejeição pesava quando pensava em se relacionar.
Motivada a quebrar estigmas, ela também criou um perfil nas redes, onde compartilha sua história e dá dicas sobre tratamento e prevenção. Hoje, Camila afirma que o preconceito não é uma constante, mas ainda aparece. O medo, no entanto, virou coragem.

“Teve algumas situações pontuais depois que eu comecei a falar sobre o assunto na internet. Claro que dos 300 comentários positivos, sempre tem um ou outro que é negativo. A gente vê o preconceito como uma ignorância, uma falta de conhecimento. Hoje em dia, infelizmente, ainda existem pessoas que estão presas a visão da época em que o diagnóstico é o fim do mundo, uma sentença de morte. E não! se a pessoa tomar medicação todos os dias, é tranquilo”, pontua.
Para chegar ao ponto de expor sua sorologia publicamente, ela passou por um processo longo de aceitação.
“Antes mesmo de falar na internet, precisei trabalhar isso dentro de mim. Fiz terapia, comecei a contar para amigas próximas e percebi que não era todo mundo que tinha preconceito. Isso me fortaleceu.”
Ciência brasileira em ação
Enquanto milhares de pessoas recebem novos diagnósticos a cada ano, a ciência busca respostas para entender e, um dia, vencer o vírus. No Instituto Nacional do Câncer (Inca), a bióloga Livia Ramos Goes, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), liderou um estudo que ganhou repercussão internacional.
Publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA (PNAS), a pesquisa revelou um mecanismo que pode ajudar a explicar como o HIV consegue se multiplicar de forma tão rápida logo após a infecção.
“Nosso estudo contribui para o melhor entendimento de como ocorre o espalhamento da infecção, esse estabelecimento inicial, e qual o impacto de proteínas do próprio vírus nisso. Essas informações são importantes para podermos tentar desenvolver potenciais estratégias de bloqueio”, detalha.

Apesar dos avanços do tratamento antirretroviral, que tornou a infecção pelo HIV controlável e impede a transmissão (via sexual) quando a carga viral está indetectável, a ciência ainda enfrenta um desafio: os chamados reservatórios virais.
“Uma das grandes barreiras para a cura da infecção por HIV é o fato de que ele, quando entra em uma célula, consegue ficar dormente lá. Como se essa célula ficasse quietinha e não produzisse vírus. Hoje em dia, o tratamento antirretroviral foca em algum ponto da produção desse vírus. Então, se ele está ali quietinho e adormecido dentro dessa célula, que é o que a gente chama de reservatório, o tratamento que a gente tem hoje disponível não consegue atuar sobre essas células”, explica Livia.
Segundo ela, compreender melhor esse mecanismo é crucial para abrir caminho para o que, um dia, pode se revelar a cura: “Estudar e conhecer esses reservatórios do vírus, como eles funcionam e onde eles estão no nosso corpo é muito importante para a gente conseguir desenvolver novas estratégias para atingir esses reservatórios. Enquanto a gente não elimina esses reservatórios, por mais que com a terapia antirretroviral a gente controle a replicação no corpo, a gente não consegue curar essa infecção. O que impede de atingir a cura, é justamente esse reservatório”.
A descoberta foi possível graças a parcerias com laboratórios nos Estados Unidos e África do Sul, e também ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
“Hoje a gente tem em torno de 190 projetos sendo investidos. Em torno de quase R$ 17 milhões de investimentos relacionados a esse assunto em específico. A gente trabalha com vários outros assuntos relacionados a patologia, a doença, o investimento da ciência como um todo”, enfatiza a presidente da fundação, Caroline Alves.

Apesar dos avanços no tratamento e no controle da infecção, o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra o HIV ainda é um desafio. O motivo está na própria natureza do vírus, altamente mutável e diverso, o que dificulta a criação de uma resposta imune única que funcione em todos os casos.
“O HIV é muito diverso. Então, dentro de uma mesma pessoa que vive com HIV, os vírus não são idênticos. Essa diversidade influência no desenvolvimento da vacina. Porque se a gente induz anticorpos contra um determinado tipo viral, muitas vezes você tem um escape”
Livia Ramos, pesquisadora
No entanto, ela pontua: “No caso da cura, a gente fala muito da cura funcional, que é encontrar formas de estimular uma resposta no organismo daquela pessoa e que essa própria resposta seja capaz de conter o vírus. Então, neste cenário, a gente não fala em eliminação completa do vírus, mas sim no controle da replicação viral pelo próprio sistema imune, sem que seja necessário o uso de antirretrovirais”.
Cenário preocupante
O infectologista José Pozza ressalta que, apesar dos avanços do tratamento, os quase dois mil novos diagnósticos registrados no Rio em 2025 ainda representam um cenário preocupante, mesmo estando abaixo do mesmo período no ano passado, quando houve 2.341 casos.
“Quando pensamos em erradicação da transmissão, números como esses, mesmo que discretamente menores que os de anos anteriores, continuam alarmantes porque demonstram a circulação sustentada do vírus”, afirma.
Segundo o médico, muitos diagnósticos sequer chegam a ser feitos no momento certo. “Esses números são mais do que subnotificados: eles são compostos também pelos subdiagnosticados. Há pacientes que podem levar anos, até décadas, para manifestar sintomas após a infecção.”
“Os sintomas da fase aguda do HIV são muito parecidos com os de outras doenças comuns, como uma gripe forte. Podem incluir febre, dor de cabeça, náuseas, cansaço intenso. O que chama mais atenção é o aumento dos gânglios, especialmente no pescoço, nas axilas e na virilha”, explica.
Esse quadro inicial, porém, tende a ser passageiro e, muitas vezes, não leva a pessoa a procurar atendimento médico. Sem tratamento, o vírus segue se multiplicando silenciosamente no corpo.
“Na maioria dos casos, ele tem uma progressão média ou até muito lenta, podendo demorar seis meses, um ano, em alguns casos até mais de um ano, para que alguma manifestação apareça”, reforça o infectologista Junqueira, que acrescenta: “Nesse período, a pessoa pode transmitir o vírus. Essa é a principal questão. É um vírus que tem um início muito silencioso, e, por isso, ele é capaz de estabelecer uma forma de infecção assintomática e permitir que as pessoas possam se contaminar”.
Estigma social
Se, do ponto de vista médico, o tratamento permite qualidade de vida, do ponto de vista social o peso do preconceito ainda é forte. A antropóloga Thalita explica que o estigma se enraizou desde o início da epidemia, nos anos 1980.
“O HIV foi rotulado como uma ‘doença de gays’, usuários de drogas e profissionais do sexo. Essa associação reforçou preconceitos já existentes e ainda hoje há uma tendência de moralizar a sexualidade, tratando o vírus como consequência de comportamentos considerados ‘imorais’”.
Para Thalita, combater esse cenário exige políticas e informação.
“Precisamos ampliar a educação sexual nas escolas, promover campanhas que humanizem as pessoas vivendo com HIV e preparar profissionais de saúde para lidar com o tema sem julgamento. O preconceito só diminui com conhecimento e acolhimento.”
Prevenção
Diante do avanço, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) reforçou a importância da chamada “prevenção combinada” — conjunto de estratégias que reúne diagnóstico precoce, tratamento e redução do risco de novas infecções.
Entre as principais medidas estão a oferta da Profilaxia Pré-exposição (PrEP), disponível em todas as 239 unidades de Atenção Primária do município, e a Profilaxia pós-exposição (PEP), indicada em situações emergenciais como relações desprotegidas, violência sexual ou acidentes com material biológico.
“A gente tem um cenário muito menor do que no ano passado, mas ainda é um cenário preocupante. Principalmente porque é a população jovem que está mais se infectando. Talvez porque eles não têm relatos da história, de quando não existia tratamento e as pessoas morriam, talvez porque há uma inconsequência da juventude em relação à doença sexualmente transmissível. Mas é a situação mais preocupante”, diz Daniel Soranz, secretário de saúde do Rio.
A rede municipal também disponibiliza testes rápidos, preservativos internos e externos, gel lubrificante e acompanhamento contínuo para pessoas em risco.
“Temos uma van que roda frequentemente os eventos da cidade, ela realiza testagem para identificar precocemente, iniciando o tratamento, mas também para proteger que ela transmita para outras pessoas. A melhor forma de você evitar a transmissão é testando! Identificando os casos e ampliando sua capacidade de testagem. Então a gente ampliou muito”, pondera.
Confira os números por bairros:
1° – Centro: 251
2º – Campo Grande : 237
3º – Barra / Jacarepaguá: 225
4º – Madureira / Irajá: 221
5º – Penha / Ramos / Ilha: 192
6º – Bangu: 182
7º – Méier / Inhaúma: 158
8° – Zona Sul: 128
9º – Santa Cruz: 113
10º – Tijuca: 40


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