Quando sentiu a barriga estranhamente quieta naquela manhã, Kate dos Santos já estava com mais de 32 semanas de gestação. O primeiro filho. Um enxoval montado com carinho, nome escolhido, o quarto pintado. No hospital, o que seria um ultrassom rotineiro virou uma sentença: o coração do bebê não batia mais. “Fiquei três dias com ele morto na barriga, não faziam uma cesárea por medo de infecção. Eu vi meu filho morto, era um bebê gordinho. Meu mundo desabou“, lembra, com a voz embargada.
Kate faz parte de uma estatística que cresce em silêncio. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, entre 2022 e 2024 foram registrados 6.217 óbitos fetais em gestações com 28 semanas ou mais, em maternidades públicas (estaduais, municipais e federais). Só em 2024, foram 1.923 perdas desse tipo — em média, cinco por dia.
Apesar do impacto emocional devastador, o tema ainda é cercado de tabus. A maioria dessas mulheres não recebe apoio psicológico após a perda. Em muitos casos, o parto acontece em maternidades onde o luto não é reconhecido e o atendimento, segundo relatos, é frio, objetivo, quase indiferente.
“O momento em que eu comecei a ficar mais conectada com gravidez foi quando sentia o bebê mexer, era um turbilhão de alegria. Com oito meses, eu comecei a não sentir mais. Fui na emergência e uma médica disse que era normal a criança parar de mexer no final da gestação, eu era nova e acreditei. Ela me deu alta e, em casa, a bolsa rompeu. Voltei para a emergência e o médico me examinou e disse que não era água de parto, era só um corrimento”, relembra Kate.
Hoje, com 34 anos e mãe de dois filhos, a técnica em enfermagem detalha como foi doloroso aos 19 descobrir, de forma traumática, que perdeu o primogênito perto da data de nascimento, em um hospital de Cabo Frio, na Região dos Lagos.

“Eu já sabia que o Kauan não estava vivo. Falei: ‘Doutor, impossível isso ser corrimento, foi muita água, muito líquido que eu perdi’. E ele só falou: ‘Mãe, você está bem, não aconteceu nada com o seu bebê, amanhã vou te dar alta’. No dia seguinte, quando ele foi aferir os batimentos do neném, já não havia mais batimento”, detalha.
A dor que não tem nome
“Durante o exame, o médico me informou que o coração do bebê havia parado. De alguma forma, recusei aquela fala, perguntei o que significava aquilo e se precisava fazer algo. Ele respondeu que era para eu procurar minha médica e saiu da sala, me deixando sozinha, segundo ele, para que eu pudesse ficar mais à vontade“, relata a assistente social Rafaela Marron, de 43 anos.
Ela perdeu o bebê com 12 semanas após uma complicação gestacional que não foi identificada nas consultas do pré-natal em São Gonçalo, na Região Metropolitana.
Mesmo sem ter tido tempo de descobrir o sexo da criança, Rafaela conta que sembre soube se tratar de um menino: Francisco. A frieza em que foi tratada no consultório, quando o médico anunciou a perda do bebê, fez com que o processo de luto enfrentado pela assistente social, naquele momento, não viesse à tona. Como se fosse algo que não era permitido sentir.
“Voltei pra casa e no caminho recebi a ligação da minha mãe querendo saber do bebê, eu disse o que tinha acontecido e ela manifestou tristeza. Estranhei que ela estivesse triste, afinal, os médicos lidavam com aquilo como se fosse algo muito corriqueiro. A tristeza da minha mãe fez com que eu entrasse em contato com uma ponta de dor, mas de alguma forma eu não me autorizei. Acho que estava em choque pela notícia ainda”, desabafa Rafaela, completando: “Mandei mensagem para minha médica explicando o que tinha acontecido. A resposta: ‘É assim mesmo, isso é algo muito comum, você apenas adiou seu sonho’”.
O psicólogo André Sena destaca que o luto gestacional é pouco reconhecido em meio a sociedade. “Valorizamos mais o luto por perdas visíveis, como a morte de uma criança nascida, enquanto perdas gestacionais são frequentemente minimizadas com frases como: ‘Você pode tentar de novo’ ou ‘não era pra ser’”, explica o profissional.
O que causa essas perdas?
De acordo com especialistas, as causas para perdas gestacionais, tanto avançadas quanto as recentes, são multifatoriais: hipertensão, diabetes gestacional, infecções não diagnosticadas, restrição de crescimento fetal, problemas na placenta, entre outras.
Mas o problema não é só biológico. A enfermeira obstétrica e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aldira Samantha Teixeira, explica que falhas no acompanhamento pré-natal podem ser também um dos fatores-chave.
“Em um sistema de saúde integral e universal deveríamos ter em mente que questões como perfil sócio cultural e ambiental não implicam nos desfechos, contudo, o que se vê é como se dá o acesso aos serviços de saúde, quais as condições de saúde e vulnerabilidade da mulher, que impactam na frequência e adesão ao pré-natal”, explica a especialista.
Ela também destaca a importância da formação e especialização da enfermagem obstétrica, especialmente na atenção básica, onde muitas dessas perdas poderiam ser prevenidas.
“Precisamos abordar mais o assunto, não como um tabu de falar sobre morte em um momento de vida, mas para compreender os riscos e causas. Precisamos trabalhar os dados que temos para mais investimentos em saúde, discutir entre os profissionais de saúde, desde sua formação, a importância da humanização do cuidado bem como intervenção precoce. E precisamos que as políticas públicas possam ser implementadas, garantidos a todos profissionais e usuários do SUS a qualidade assistencial que todos queremos”, afirma.
Quando o parto vira luto
“A pior parte foi o parto. Quando você descobre que vai ser mãe, esse é o momento mais esperado. Eu planejava tudo, todos os dias. Sentia medo, óbvio, muito medo. Mas estava feliz. Quando descobrimos que nossa filha iria nascer morta, o momento do parto foi silencioso como um enterro. E de certo modo era, né?”, desabafa Letícia Costa, de 34 anos.
Aos 26 anos, a vendedora realizou um dos grandes sonhos da vida: ser mãe. Ela estava grávida de 32 semanas quando descobriu que o bebê estava morto, em um hospital em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Até hoje, falar do assunto ainda é algo difícil.
“Você entra para a maternidade com uma barriga e sai com os braços vazios. Ninguém está preparado para isso. Nem você, nem os profissionais”, diz.
A ginecologista-obstetra Alessandra Caputo, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que o principal procedimento que precisa ser adotado nesses momentos é o acolhimento.
“É acolher essa mãe. O luto perinatal é frequentemente subvalorizado”, diz, completando com os métodos técnicos: “Quando há uma perda gestacional no 3º trimestre a proposta é a indução do trabalho de parto com o objetivo de um parto vaginal, que é a via de maior segurança para essa paciente. O repouso se refere à recuperação pós-parto, mas é imprescindível que essa mulher também se recupere emocionalmente e receba todo o apoio para isso. Por lei, inclusive, ela tem direito a licença maternidade”.
Para quem viveu a perda, como Kate, Rafaela e Letícia, o tempo não apaga a dor, mas a escuta pode transformá-la. “Eu gostaria muito que os profissionais de saúde tivessem mais carinho, mais amor com a mãe desde o comecinho da gravidez até o final. É por falta disso que, muitas vezes, a gente sofre tanto”, diz Kate.


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