Caetano Veloso tinha razão nos versos da canção “O estrangeiro”. Quando o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss desembarcou no Rio de Janeiro em 1935, não encontrou exatamente o cenário idílico vendido em cartões-postais ou sambas-exaltação.
Em vez de uma cidade solar, encontrou uma capital tropical com cara de obra abandonada, onde ruas terminavam abruptamente em morros, bondes chiavam entre casarões decadentes e bairros inteiros pareciam esboços mal copiados de cidades europeias.
Era o caos urbano antes do ar-condicionado, sem planejamento urbano, mas com muita ambição estética. Praticamente uma Paris de chinelos.
A recepção do Rio ao francês foi calorosa como se esperava, mas apenas no sentido térmico mesmo. Entre o suor e o espanto, Lévi-Strauss viu na paisagem carioca não um paraíso, mas uma espécie de “civilização interrompida”, como ele escreveria anos depois com notável frieza em Tristes trópicos.
Não poupou metáforas: comparou a Baía de Guanabara a uma boca desdentada e a cidade, a uma maquete que alguém largou no meio do caminho para ir beber um chope. Para um pensador estruturalista, encontrar tamanha ausência de estrutura logo na porta de entrada do país era quase uma provocação filosófica.
O Rio, claro, sobreviveu ao diagnóstico. Mas o retrato traçado por Lévi-Strauss permanece como uma das mais mordazes descrições já feitas da cidade. Escrita não por um detrator colonial, mas por alguém que, de fato, acreditava que o Brasil tinha muito a ensinar ao mundo. Só não esperava que sua primeira lição fosse dada por uma capital onde a arquitetura parecia improviso e o horizonte, uma arcada banguela sorrindo para o Atlântico.

Quem foi Lévi-Strauss?
Claude Lévi-Strauss (1908–2009) foi um dos mais influentes antropólogos do século XX e o pai do estruturalismo na antropologia. Nascido em Bruxelas e formado em Direito e Filosofia na Sorbonne, trocou os salões parisienses pelas trilhas da floresta brasileira ao aceitar, em 1935, um convite para lecionar sociologia na recém-criada Universidade de São Paulo (USP). As aulas eram dadas em francês e um dos alunos mais dedicados se chamava Fernando Henrique Cardoso.
Entre 1935 e 1939, ele realizou expedições etnográficas por diversas regiões do Brasil, principalmente no Mato Grosso e na Amazônia, onde estudou povos indígenas como os Bororo, Nambikwara, Tupi-Kawahib e Caduveo. Mas antes de mergulhar no sertão, Lévi-Strauss parou no Rio de Janeiro, ainda capital federal, onde estabeleceu contatos acadêmicos e administrativos e teve seu primeiro contato com a realidade brasileira. Uma realidade que ele não romantizou nem um pouco.
O que ele registrou sobre o Rio de Janeiro em Tristes trópicos?
No livro Tristes Trópicos (1955), uma espécie de autobiografia antropológica melancólica, Lévi-Strauss reserva ao Rio de Janeiro algumas das passagens mais cortantes de sua pena irônica. A cidade aparece como símbolo da “civilização em desordem”: “O Rio de Janeiro se assemelha a uma cidade que não foi terminada. […] Cada bairro parece ter sido começado por um arquiteto diferente, que morreu ou foi demitido antes de terminar o trabalho.”
Para ele, o Rio não era nem selvagem como os territórios indígenas que viria a explorar, nem civilizado como as capitais europeias. Era algo entre o improviso barroco e a ruína precoce. Ele se espantava com o amontoado de estilos arquitetônicos, os bairros que pareciam ter sido abandonados no meio da obra, e a ausência de coesão urbana — o que, para um estruturalista, é praticamente um crime.
Quando foi sua passagem pela cidade?
Lévi-Strauss chegou ao Brasil em 21 de março de 1935, a bordo do navio Massilia, acompanhado de sua primeira esposa, a etnóloga Dina Dreyfus. O Rio de Janeiro foi sua porta de entrada. Ele permaneceu na cidade por algumas semanas, tratando de trâmites burocráticos, visitando o Museu Nacional e estabelecendo contato com o Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Também aproveitou para reunir informações sobre os povos indígenas que viria a estudar.
Ao longo dos quatro anos em que viveu no Brasil, Lévi-Strauss voltava ao Rio com alguma frequência, seja para expedições que partiam da capital, ou para interlocuções com a comunidade científica brasileira. Mas ele nunca escondeu que a cidade lhe causava mais perplexidade estética do que prazer tropical.
Ele falou mesmo que a Baía de Guanabara parecia uma boca de banguela?
Com todas as letras. Em Tristes trópicos, Lévi-Strauss crava o que talvez seja sua metáfora mais maldosa sobre o Rio de Janeiro. Ao comentar a vista da cidade ao entardecer, escreveu: “A Baía de Guanabara, com suas enseadas e promontórios, me fazia pensar numa boca desdentada — uma arcada dentária de colinas irregulares, cujos dentes cariados ameaçavam desabar sobre o mar.”
Ou seja, enquanto o carioca se orgulhava de sua paisagem “abençoada por Deus e bonita por natureza”, Lévi-Strauss via uma arcada decadente. Um sorriso triste. Um cartão-postal com bruxismo.
Entre a banguela e o barroco
A ironia é que, ao tentar escapar do “caos” europeu entreguerras, Lévi-Strauss topou com um caos ainda mais desconcertante: tropical, fragmentado e inclassificável. O Rio não era um laboratório etnográfico como as aldeias Bororo, mas lhe ensinou algo essencial: que até a desordem tem sua estrutura. E que, às vezes, a selva está na cidade, e o índio, no civilizado.
Se a Guanabara parecia uma boca banguela, talvez fosse porque sorria demais sem ter por quê. Ou porque já antevia o que Lévi-Strauss veria depois: que o Brasil, inclusive seu cartão-postal mais famoso, é uma eterna narrativa em disputa entre o inacabado e o eterno improviso. Mas, pelo menos, o pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara e o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela.


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