Faça um teste e pergunte para qualquer carioca ou simpatizante o que é a Pedra da Gávea. Muito provavelmente você ouvirá uma história, com ou sem ironia, sobre fenícios que um dia brotaram aqui e deixaram até inscrições na lateral do rochedo. Dependendo de quem os olha, são ou a obra erosiva e impessoal do tempo geológico, ou uma mensagem deixada por um rei fenício morto há quase três milênios. Que esta última hipótese tenha sobrevivido à demolição sistemática da ciência, atravessado impávida dois séculos de ceticismo acadêmico e chegado intacta à era do YouTube é, em si mesma, um dos maiores mistérios da cultura do Rio e do Brasil. 

A narrativa dos fenícios não é invenção de blogueiro entusiasmado. Ela tem raízes no século XIX, foi tratada com alguma seriedade por instituições respeitáveis e culminou num livro monumental publicado pela Imprensa Nacional, o braço editorial do próprio Estado brasileiro. Mistura arqueologia amadora com epígrafe, nacionalismo com esoterismo e, mais recentemente, (afinal é o hype do momento) com ufologia, numa combinação que diz mais sobre quem conta do que sobre quem supostamente veio por aqui. 

O resultado é uma das histórias mais fascinantes e instrutivas que o Brasil produz sobre si mesmo: a de um país que, insatisfeito com a humildade de sua história oficial, saiu à procura de uma Antiguidade à altura do cenário. Quem não gostaria de descobrir que o Rio de Janeiro foi fundado por fenícios? Que a face esculpida ali naquele morro de granito é o rosto de um rei mediterrâneo enterrado com pompa e circunstância no coração da Mata Atlântica? É uma ideia belíssima. Pena que a geologia, a arqueologia e o bom senso insistam em estragar a festa. 

Quem eram os fenícios? 

Os fenícios foram um povo semítico que habitou, em torno de 1200 a.C., uma faixa estreita da costa do Mediterrâneo oriental correspondente ao atual Líbano e ao norte de Israel. Eram exímios comerciantes e navegadores, conhecidos por terem desenvolvido um dos primeiros alfabetos fonéticos da história, que influenciou diretamente o grego e, consequentemente, o latino e todos os alfabetos ocidentais. Suas cidades-estado, como Tiro e Sidom, no atual Líbano, prosperaram com o comércio de púrpura (um corante extraído de moluscos), vidro e artesanato. 

A reputação marítima dos fenícios era tão extraordinária que autores antigos os descreviam navegando por imensas distâncias. Eles foram responsáveis pela expansão de rotas comerciais por todo o Mediterrâneo e pela fundação de portos de especial relevância, como Cartago. Essa fama de navegadores ajudou a alimentar especulações segundo as quais eles teriam atravessado o Atlântico e alcançado o Brasil. Entretanto, até hoje não existe consenso acadêmico nem evidência arqueológica reconhecida que demonstre uma chegada fenícia algum dia em nossas praias. 

Os fenícios criaram rotas comerciais por todo o Mediterrâneo

Então como surgiu essa história? 
 
Parece anedota, mas os primeiros a notar “marcas estranhas” na face da Pedra da Gávea foram missionários cristãos que reportaram a descoberta a Dom João VI, que não deu a menor bola. Anos mais tarde, Dom Pedro I manifestou curiosidade sobre o assunto, mas tudo não passou de tema para resenhas entre gente que queria parecer letrada. 

Somente em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro organizou uma comissão oficial para ir à Pedra da Gávea e, como registrou o documento publicado no Tomo I, Número 2, da Revista do IHGB, “analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no Morro da Gávea”.  O resultado foi um relatório de 23 de maio daquele ano que, na melhor tradição burocrática, não chegou a nenhuma conclusão.  

Os pesquisadores argumentaram que os sulcos “não se assemelham aos dos povos do velho continente que empreenderam as primeiras navegações” e que o que se via “mais parece sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito”. A comissão prometeu outra expedição com melhores instrumentos, mas a promessa jamais foi cumprida.  

E como no Rio nada é tão simples assim, também em 1839, o bibliotecário Rochus Schuch, funcionário do gabinete imperial, chegou a sugerir que as marcas eram runas vikings (!), influenciado pelo escandinavista Carl Rafn e seu livro Antiquitates Americanae (1837).  

A cena seria incrível se tivesse um mínimo lastro com a realidade (recriação de IA)

Então quem fez e o que dizem as inscrições? 
 
A “decodificação” canônica das inscrições foi proposta pelo amazonense Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (guarde esse nome) e publicada em sua obra principal, Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica. Ramos transliterou os sulcos como “LAABHTEJ BAR RIZDAB NAISINEOF RUZT” e, como a língua fenícia é escrita da direita para a esquerda, a sequência invertida ficaria “TZUR FOENISIAN BADZIR RAB JETHBAAL”. A tradução para o português, segundo Ramos, seria: Tiro, Fenícia, Badezir, primogênito de Jethbaal. 

O método empregado envolveu identificar letra por letra, traduzir ao hebraico, transliterar ao português, um duplo twist carpado linguístico de vários passos que, como qualquer processo com muitas variáveis e poucos controles, permite chegar praticamente aonde se quer. Adeptos da teoria acreditam que a Pedra da Gávea seria, portanto, uma tumba do rei fenício Badezir, com o “rosto” na pedra representando sua efígie. 

Isso tudo tem alguma base real? 

A ciência oficial tem uma explicação mais prosaica: geólogos como Marco André Malmann Medeiros, da UERJ, afirmam que os sulcos são simplesmente falhas geológicas resultantes do desgaste diferencial dos minerais ao longo do tempo, e que o “rosto” é um produto de pareidolia, o fenômeno psicológico pelo qual o cérebro humano reconhece faces em padrões aleatórios. 

Só que aqui reside um detalhe fantástico e anedótico. O tal Badezir existiu mesmo. Ele foi um monarca real citado nas listas dinásticas da cidade de Tiro, que chegaram até nós por meio dos escritos do historiador judeu Flávio Josefo. Ele governou a Fenícia por volta do século nove antes de Cristo, sucedendo o seu pai, o rei Jethbaal ou Ethbaal, que também é mencionado nos textos do Antigo Testamento. Só que mesmo razoavelmente documentado, não há nenhum documento arqueológico ou textual sugerindo que esse governante tenha embarcado em uma odisseia transatlântica rumo ao hemisfério sul. 

A Pedra da Gávea é um caso clássico de  pareidolia, o fenômeno psicológico pelo qual o cérebro humano reconhece faces em padrões aleatórios. 

O Indiana Jones Tupiniquim 

Lembra do amazonense Bernardo de Azevedo da Silva Ramos? Ele era um intelectual amazonense nascido em 1858 que atuou como comerciante, numismata e pesquisador autodidata. Apesar de sua formação não acadêmica tradicional, Ramos foi considerado por alguns como um grande sábio da época, embora suas teorias arqueológicas sejam hoje amplamente rejeitadas pela comunidade científica. 

Bernardo ficou órfão cedo e mais cedo ainda começou a trabalhar. Com 21 anos foi eleito intendente municipal (o equivalente a vereador). Viajou pela Europa e pelo Oriente Médio, passando pela Palestina e pelo Egito, onde adquiriu conhecimentos de línguas como hebraico, fenício e sânscrito, que lhe permitiram ler moedas antigas, uma paixão que deixou como legado o Museu de Numismática Bernardo Ramos, em Manaus. 

Em 1932, com financiamento governamental, ele publicou em dois volumes pela Imprensa Nacional o monumental Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, Especialmente do Brasil, que é a Bíblia do rolê dos fenícios. A obra defende a tese radical de que o continente americano foi intensamente visitado e colonizado por povos do Velho Mundo milhares de anos antes da chegada dos espanhóis e portugueses. 

Que visão era essa? 

Bernardo Ramos de fato catalogou e analisou milhares de inscrições e caracteres ao longo de suas viagens pelo Brasil, ultrapassando a marca de quase três mil registros gráficos textuais reproduzidos em seus livros. No entanto, é importante destacar que esses registros não eram artefatos físicos móveis, como cerâmicas ou ferramentas desenterradas, mas sim cópias de petróglifos, que são gravuras feitas em superfícies rochosas por populações nativas pré-colombianas. 

Cada um desses desenhos foi pacientemente comparado pelo autor com alfabetos antigos do Mediterrâneo, em um esforço hercúleo para encontrar semelhanças visuais entre os traços. Para Ramos, a quantidade massiva de gravuras semelhantes a letras fenícias, gregas ou chinesas espalhadas pelo Brasil era uma evidência estatística inquestionável de que navegadores do passado haviam mapeado o país de ponta a ponta. 

A comunidade científica e os arqueólogos contemporâneos, entretanto, classificam as teorias de Ramos como pseudociência, porque elas carecem de metodologia rigorosa e ignoram o contexto arqueológico dos locais pesquisados. O autor utilizava o método comparativo puramente visual, isolando traços rupestres de seu contexto cultural original para forçar uma semelhança com o alfabeto fenício. 

Além disso, escavações arqueológicas modernas conduzidas com métodos científicos na Pedra da Gávea nunca encontraram um único objeto material de origem fenícia, como fragmentos de ânforas, moedas, restos de navios ou ossadas com DNA compatível. Sem provas materiais tangíveis que sobrevivam ao escrutínio dos laboratórios, a comunidade acadêmica trata as traduções de Ramos como meras coincidências visuais interpretadas por uma mente fantasiosa. 

Peraí, gregos e mongóis também estiveram por aqui? 

Nem no Rio nem em nenhum outro point brasileiro. Mas o folclore sobre visitas pré-cabralinas ao Brasil não se limita aos marinheiros de Tiro, englobando também lendas sobre a vinda de frotas gregas e até chineses. 

Uma das narrativas mais famosas foi defendida pelo historiador austríaco Ludwig Schwennhagen, que em seu livro Antiga História do Brasil: de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado em Teresina em 1928, argumentou que o litoral nordestino, entre o Maranhão e a Bahia, foi ocupado por fenícios que fundaram diversas cidades, sendo a mais importante delas Tutóia, no delta do Parnaíba. Tutóia, brow

Como se não bastasse, o arqueólogo francês autodeclarado um “esotérico-nazista” Jacques de Mahieu, dedicou anos ao estudo da presença viking na América do Sul, citando tribos indígenas de olhos azuis e cabelos louros na Amazônia como evidência da mistura racial com nórdicos. Ele afirmou que as tribos Aché eram descendentes dos vikings e até que os templários haviam se estabelecido no México muto antes dos europeus. Teoria maluca sem incluir os templários nunca é a mesma coisa. 

E existem até correntes alternativas que sugerem que navegadores chineses liderados pelo almirante Zheng He teriam mapeado a costa da América do Sul no início do século quinze. E, de novo, o Zheng também existiu. Mas o ponto mais distante que ele chegou foi ao Estreito de Ormuz. 

Como essa história dos fenícios foi apropriada ao longo dos anos? 

A narrativa fenícia é um organismo adaptável. No campo do esoterismo, a Sociedade Brasileira de Eubiose transformou a Pedra da Gávea em local sagrado, associando-a não apenas aos fenícios, mas à Atlântida: adeptos da Eubiose afirmam que a reentrância retangular próxima ao cume seria uma passagem para Agharta, o reino subterrâneo construído após o afundamento do continente perdido. 

No campo do nacionalismo, a teoria funcionou historicamente como um projeto de valorização do passado brasileiro por vinculação com civilizações do Mediterrâneo que o mundo ocidental já reconhecia como grandiosa. Afinal, ter sido visitado pelos fenícios elevaria o Brasil a parceiro, ainda que involuntário, das origens da civilização ocidental. 

A ufologia entrou pela porta da suspeita geológica. A tal cavidade rochosa no interior da Pedra da Gávea, que a Eubiose interpreta como a tumba do Badezir, passou a ser apontada também como evidência de uma câmara artificial de origem não humana.  

A International Fortean Organization chegou a especular em seu INFO Journal se a montanha continha um túmulo fenício, e outros ainda acreditavam que a Pedra da Gávea fazia parte de uma rota de OVNIs. Uma expedição de cientistas da UFRJ e da UERJ, noticiada pelo jornal O Globo, subiu os 842 metros com equipamento GPR (radar de penetração no solo) para verificar a hipótese de câmaras internas. O resultado, nas palavras da geofísica Paula Ferrúcio da Costa, professora líder da equipe: “Os dados obtidos não mostraram nada além de rocha maciça na Pedra da Gávea.” 

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