A estratégia que durante décadas foi utilizada pelos adversários do PT para tentar impedir a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência agora ganha espaço na campanha do próprio partido. A dez dias do segundo turno, aliados do presidente defendem intensificar o discurso sobre os riscos de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL), apostando no medo como instrumento de mobilização eleitoral.
A mudança de abordagem resgata um expediente conhecido da política brasileira. Desde a primeira disputa presidencial após a redemocratização, em 1989, campanhas adversárias recorreram a advertências sobre o que poderia acontecer caso Lula chegasse ao Palácio do Planalto. Agora, o PT pretende utilizar uma lógica semelhante, mas com os papéis invertidos.
Integrantes da campanha do presidente avaliam que o receio de um retorno da família Bolsonaro ao comando do país pode estimular a participação dos eleitores na votação decisiva, diminuindo o índice de abstenção, que no primeiro turno ficou em 21,08%, quando mais de 33 milhões de votantes deixaram de comparecer às urnas.
Há, inclusive, quem defenda internamente que o medo seria o principal fator capaz de levar parte do eleitorado às urnas para apoiar Lula.
De Collor a FHC, o medo como arma eleitoral
O recurso não é novidade na trajetória do PT. Na eleição presidencial de 1989, Fernando Collor de Mello explorou o temor de setores da sociedade diante da possibilidade de Lula assumir o governo federal.
Entre os boatos associados àquele período estava a alegação de que famílias que morassem em casas ou apartamentos com três quartos seriam obrigadas a ceder um dos cômodos para abrigar militantes petistas. A história, sem fundamento, tornou-se um exemplo das narrativas alarmistas contra a esquerda.
Nas eleições de 1994 e 1998, vencidas por Fernando Henrique Cardoso, a estabilidade econômica passou a ocupar o centro dessa disputa. O discurso de que uma vitória petista poderia ameaçar o Plano Real foi utilizado politicamente para contrastar o projeto de FHC com as propostas defendidas por Lula.
O temor da volta da inflação e da perda do poder de compra tornou-se um elemento importante da disputa eleitoral, especialmente depois dos sucessivos planos econômicos fracassados nas décadas anteriores.
Regina Duarte, PCC e o medo nos anos 2000
Em 2002, a exploração do medo ganhou um de seus episódios mais conhecidos. Na campanha de José Serra (PSDB), a atriz Regina Duarte apareceu no horário eleitoral declarando: “Eu estou com medo”.
A atriz manifestava preocupação com a possibilidade de Lula vencer a eleição e com o risco de perda da estabilidade econômica. A propaganda provocou forte reação do PT, que respondeu com a participação da atriz Paloma Duarte, crítica à utilização do medo na disputa presidencial.
Naquele ano, Lula procurou apresentar uma imagem moderada, marcada pelo discurso de conciliação e pelo slogan “A esperança vai vencer o medo”. O petista acabou derrotando Serra e chegou pela primeira vez à Presidência.
Em 2006, na disputa pela reeleição contra Geraldo Alckmin (PSDB), o PT voltou a enfrentar ataques. Em meio à crise de segurança provocada pelas ações do Primeiro Comando da Capital (PCC), integrantes do campo adversário levantaram suspeitas de vínculos entre o partido e a organização criminosa.
As insinuações foram contestadas pelos petistas e não constituíam comprovação de envolvimento partidário com a facção. O episódio mostrou como o temor da violência também passou a integrar a disputa política.
Bolsonaro explorou comunismo e religião
A estratégia ganhou novas dimensões nas eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro enfrentou Fernando Haddad (PT). A campanha foi marcada pela circulação de informações falsas que associavam uma eventual vitória petista à doutrinação ideológica de crianças e à destruição de valores familiares.
Uma das principais peças de desinformação envolvia o chamado “kit gay”, falsamente apresentado como material destinado a estimular práticas sexuais entre crianças. Também circulou o boato de que governos petistas distribuíam mamadeiras com bicos em formato de pênis nas creches.
As alegações foram desmentidas por agências de checagem. Bolsonaro, no entanto, utilizou publicamente a controvérsia sobre o material educacional para atacar Haddad.
Em 2022, quando tentou a reeleição contra Lula, o então presidente voltou a explorar o anticomunismo e questões religiosas. A campanha e seus apoiadores associaram a volta do PT ao poder a riscos para a liberdade religiosa, à aproximação com regimes autoritários de esquerda e a ameaças aos valores cristãos.
Circularam ainda mensagens falsas sugerindo que igrejas poderiam ser fechadas ou que o Brasil se transformaria em uma ditadura comunista. A exploração desses temores buscava mobilizar principalmente setores conservadores e religiosos do eleitorado.
PT agora explora riscos sociais e institucionais
Na campanha de 2026, o PT pretende direcionar mensagens específicas aos diferentes segmentos do eleitorado, associando uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro a possíveis mudanças nas políticas públicas.
Entre os trabalhadores de menor renda, a intenção é explorar o receio de cortes em benefícios sociais, aposentadorias e serviços públicos, além da possibilidade de interrupção dos aumentos reais do salário mínimo.
Também devem entrar no discurso a preservação de direitos trabalhistas, o fim da escala 6×1, a manutenção do Sistema Único de Saúde (SUS) e o financiamento das universidades públicas.
Para a classe média e os segmentos de maior renda, a estratégia deverá enfatizar possíveis ameaças à democracia e à soberania nacional. A campanha também pretende recorrer a exemplos internacionais, especialmente à situação econômica e social da Argentina. Flávio Bolsonaro tem reagido às acusações e afirmado que não pretende cortar benefícios sociais.







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