A onda de protestos que atinge algumas das universidades de maior prestígio dos Estados Unidos, como Columbia, Harvard e Yale, já ultrapassa uma semana. Os manifestantes são contra a atuação de Israel na guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza — e pedem para que as instituições de ensino cortem laços com Israel e com empresas que, segundo os alunos, alimentam a guerra.
O centro desse movimento é a Universidade Columbia, em Nova York, onde há um acampamento de ativistas com bandeiras palestinas e mensagens de solidariedade a Gaza.
Parte da comunidade universitária se incomodou com os protestos: alunos e professores judeus afirmam que as manifestações têm se tornado antissemitas, e que eles têm medo de pisar nos campi.
As reitorias de diversas universidades americanas pediram a presença da polícia, o que acarretou cerca de 500 prisões. Segundo o jornal inglês The Guardian, houve protestos em mais de 40 universidades até a sexta-feira (26). A agência de notícias Associated Press, dos EUA, relata prisões em 11.
Em ano de eleições presidenciais, o conflito entre manifestantes, reitorias e opositores já virou tema para o embate entre os dois candidatos: Donald Trump, do Partido Republicano, e o atual presidente Joe Biden, do Partido Democrata.
As manifestações são importantes porque ocorrem em universidades de ponta e com muita visibilidade, afirma Paulo Velasco, professor de política internacional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Casa do Saber.
A questão, para Joe Biden, é que ele depende do voto de pessoas mais jovens, que são mais inclinadas a votar em candidatos mais à esquerda. No entanto, a política externa do atual governo desagrada a esse eleitorado, afirma Velasco.
Isso porque Biden apoia a ofensiva de Israel em Gaza, iniciada após o Hamas invadir o território, em outubro de 2023, matar e sequestrar cidadãos israelenses. Mais de 34 mil palestinos morreram no conflito desde então, de acordo com números do Ministério da Saúde em Gaza, controlado pelo Hamas.
Biden já manifestou ressalvas à atuação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e vem defendendo a desescalada no conflito. Na quarta (24), o presidente americano assinou um auxílio de R$ 133 bilhões para Israel e para ajuda humanitária em zonas de conflito.
Velasco faz um paralelo entre os eleitores jovens americanos e a comunidade árabe. Ambas votaram em peso em Biden na eleição de 2020. Mas, neste ano, ainda que não apoiem Trump, podem não aparecer nas urnas para reeleger o atual presidente — nos EUA, o voto não é obrigatório. Em uma eleição concorrida, isso pode fazer diferença.
Além disso, pode haver protestos em momentos importantes na corrida eleitoral. A convenção do Partido Democrata, quando a candidatura de Biden à presidência será oficializada, será em agosto em Chicago. Por isso, é muito difícil para Biden dar uma resposta a essa onda de protestos.
“A forma de reação do governo a essas manifestações será um fator determinante para medir o alcance do desgaste”, afirma Paulo Abrão, diretor-executivo do Washington Brazil Office, um think tank com sede nos EUA.
Em declaração na segunda (22), quando os protestos ainda não haviam escalado, Biden ficou em cima do muro: “Condeno os protestos antissemitas. Também condenado aqueles que não entendem o que está acontecendo com os palestinos”.
Trump, que está sendo julgado num tribunal de Nova York a acusado de fraude por ocultar pagamentos a uma ex-atriz pornô, disse que Biden não sabe o que fazer.
“Ele quer adotar uma postura conciliadora, e muitas vezes isso não funciona, certamente não está funcionando”, afirmou o candidato republicano.
Trump voltou ao tema em sua rede social, a Truth Social. O ex-presidente afirmou que, nas eleições de 2020, Joe Biden afirmou que decidiu concorrer depois de uma manifestação de supremacistas brancos e extremistas de direita na cidade de Charlottesville, no estado da Virgína, em 2017. Grupos abertamente racistas e antissemitas que apoiavam Trump foram às ruas naquela ocasião.
O ex-presidente disse que “se isso é verdade, então ele [Biden] está fazendo um péssimo trabalho, porque [as manifestações] de Charlottesville são minúsculas se comparadas aos distúrbios anti-Israel que estão acontecendo em todo o país agora mesmo. E é culpa de Joe Biden, que odeia Israel e odeia o povo judeu. O problema é que ele odeia os palestinos ainda mais e não sabe o que fazer”.
A primeira manifestação aconteceu na Universidade Columbia, em Nova York, em 17 de abril. Os alunos organizaram o ato para coincidir com o depoimento da reitora no Congresso dos EUA. A polícia foi chamada e prendeu mais de 100 pessoas. Essas prisões acabaram fortalecendo mais manifestações, que se espalharam pelo país.
Com informações do g1.





