HUDSON CARVALHO*
Transcorridas as eleições municipais, especialistas e palpiteiros autopsiaram os resultados. E os peremptórios, futurólogos e cartomantes vaticinaram. Cada eleição possui dinâmicas próprias, tornando árdua a vida dos que especulam, por profissão, ambição ou diletantismo, com horizontes políticos. Para ilustrar a perecibilidade dos exercícios de futuração, lembremos que diversos pré-candidatos à Presidência da República, em 2022, sequer tiveram os nomes levados às urnas, como o, então, todo-poderoso governador de São Paulo, João Doria. Depois de meses no proscênio midiático e nas elucubrações das elites, Doria e outros graúdos, como Eduardo Leite, Sergio Moro, Rodrigo Pacheco e Henrique Mandetta, aposentaram as aspirações presidenciais.
Agora, delibera-se, consensualmente, que Lula e Bolsonaro não protagonizaram os pleitos municipais, que a esquerda e a extrema direita se fragilizaram, que os radicalismos fracassaram, que os partidos do Centrão se sobressaíram e que as suspeitosas emendas parlamentares turbinaram os beneficiários do instituto da reeleição, que, por si só, já assegura grandes vantagens aos incumbentes. Os diagnósticos aparentam retratar o processo eleitoral findo.
Quanto ao porvir, os cacoetes habituais na pluralidade das análises de supostas concatenações entre escrutínios, totalmente, distintos e desconexos. Nas mídias, a ladainha será de que as esquerdas estão mortas, alertas cintilantes sobre o estado de saúde físico e mental de Lula, a direita procurando uma reputação palatável ao centro, Bolsonaro lutando para readquirir elegibilidade e salvaguardar a liderança no seu campo ideológico e o mercado refratário a eventuais avanços econômicos do governo. Aliás, o tal mercado, ao flertar com a candidatura Pablo Marçal em São Paulo, aderiu de vez ao quanto pior, melhor. Que tipo de gente é essa?
Como “idiota da objetividade” – salve, Nelson Rodrigues! -, prefiro prever o passado. O fato é que Bolsonaro encontra-se, por ora, inelegível até 2030. E a sua desconfortável situação deve se complicar com os desdobramentos das ações judiciais que o envolvem, notadamente a dos atos golpistas de 8 janeiro de 2023. Porém, a mera inelegibilidade já o desvitaliza bastante, mesmo sem agravos adicionais. Estar inelegível traduz-se por ausência de expectativa de poder, e isso deprecia qualquer político.
Até as preliminares dos pleitos municipais, havia prudência de setores direitistas em contrariar o líder mor, por incertezas em relação à sua presumida força eleitoral. Com movimentos equivocados e a fraca performance do grosso dos seus apadrinhados ainda no correr do curso eleitoral, Bolsonaro abriu o flanco para que o contestassem no seio da família direitista. Nas adjacências evangélicas, o deputado Otoni de Paula e o pastor Silas Malafaia passaram a criticá-lo ostensivamente. Por disputa paroquial, o governador Ronaldo Caiado e o ex-presidente dissidiaram. Já o governador Tarcísio de Freitas teve que se manter firme no apoio a Ricardo Nunes, quando Bolsonaro começou a costear o alambrado, ao se assustar com o fenômeno Pablo Marçal, cuja candidatura ultrajosa sombreava o capitão em estágios de desatinos. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, não se inibe em esgrimar com Bolsonaro para assegurar o comando da sigla e do milionário fundo partidário em suas mãos. E até o juvenil Nikolas Ferreira assumiu ares de independência em sua conturbação política.
Há razões explícitas e implícitas para essa onda de rebeldias. Nada estaria acontecendo, no entanto, se Bolsonaro mantivesse a possiblidade de empalmar o poder brevemente. No fundo, é disso que se trata. Não existe vácuo na política. Ninguém ficará esperando Bolsonaro até 2030, quando ele completará 75 anos. Como expressa a corruptela da proclama francesa, “rei morto, rei posto”. Para voltar ao jogo, Bolsonaro aposta em constranger o STF e em anistia no Congresso, que, hoje, pouquíssimos vislumbram. Sem a elegibilidade reconquistada, Bolsonaro valerá menos como ativo político. Por outro lado, paira sobre ele ameaças penais, aparentemente, mais concretas, que, se consumadas, corroeria a sua já vulnerável condição política. Cautelosamente, a direita pragmática busca substitutos para Bolsonaro, em 2026, sem afrontá-lo, por considerá-lo ainda um possível bom cabo eleitoral. Ciente da cobiça dos jovens felinos que o espreitam, o ferido velho leão da montanha ruge do alto da colina, tentando preservar o seu lugar. No fim de semana, desconsiderando a inelegibilidade, Bolsonaro disse à Veja que “o candidato sou eu”, buscando reafirmar o controle do seu espaço e da hierarquização na direita.
Para as esquerdas nativas, o panorama mostra-se dramático. Há tempos, elas definham, por perda de identidade, por mudanças drásticas nos ecossistemas de trabalho, pelos novos caminhos de ascensão social, pela descrença na efetividade do estado, pela benevolência com governos estrangeiros autocráticos, pela carência de lideranças renovadas, pela falta de discursos sedutores, pela chancela à gramática identitária que afronta a maioria conservadora dos brasileiros, pela forma obsoleta de comunicação, pela crescente evangelização do país etc. Em imaginário exame de prontuários médicos, no momento, a esquerda exibiria menos vitalidade do que a direita para os confrontos de 2026.
Ainda prevendo o passado, dois vetores costumam se impor nas eleições majoritárias brasileiras: a reeleição e a fulanização. Nas escolhas municipais recentes, acima de 80% dos prefeitos que se habilitaram à reeleição se reelegeram. Desde que a reeleição foi regulamentada em 1997, somente Bolsonaro conseguiu a façanha de não se reeleger presidente. Até Dilma Rousseff logrou êxito.
No mais, os brasileiros votam, prioritariamente, em pessoas, e, não, em partidos. Com vistas ao próximo cotejo presidencial, a história ensina que a atual concentração de prefeituras sob o comando dos partidos de centro e de direita significa pouco, ao contrário do que projetam alguns pressurosos. De modo geral, esses partidos sempre predominaram nos sufrágios municipais, e, comumente, nem chegam a lançar pretendentes à Presidência da República. Da leva presente, apenas o MDB (Ulysses Guimarães, em 1989, Orestes Quércia, em 1994, e Henrique Meirelles, em 2018), o União Brasil (Soraya Thronicke, em 2018) e o PL (Jair Bolsonaro, em 2022) já tiveram postulantes a presidente. Com exceção de Bolsonaro, todos com votações acanhadas. PSD, PP e Republicanos nunca ousaram.
A despeito da evidente inanição das esquerdas, a associação reeleição com fulanização pode lhes assegurar uma sobrevida em 2026, se – ênfase na conjunção subordinativa – Lula tiver condições políticas favoráveis e vigor para se candidatar. Não à toa, o mago Gilberto Kassab adverte que “desprezar Lula é para quem não conhece política”. Seguramente, não é o caso dele. Continuando a prever o passado, as eleições dos Estados Unidos nunca condicionaram as de outros países, e vice-versa. Durante o auge da social-democracia na Europa, nas décadas de 70 e 80, com os alemães Willy Brandt e Helmut Schmidt, o sueco Olof Palme, o inglês Harold Wilson, o francês François Mitterrand, o espanhol Felipe González, o austríaco Bruno Kreisky e o português Mario Soares, todos os presidentes americanos eram republicanos – Richard Nixon, Gerald Ford, Ronald Reagan e George W. Bush (pai) -, excetuando o democrata Jimmy Carter, que não se reelegeu. À época, na própria vizinhança dos EUA, quem dava as cartas era o social-democrata canadense Pierre Trudeau. É natural que a consagradora e pedagógica vitória de Trump injete otimismo nas direitas periféricas. Ela, em si, entretanto, não afiança certificados de reprodução no universo da direita. E um detalhe importante: embora tenha incorporado novos segmentos eleitorais – homens negros, hispânicos, latinos, jovens etc. – e faltando poucos votos a serem apurados, Trump, provavelmente, não alcançará a sua própria votação (74.223.744) em 2020, quando perdeu para Biden. Ou seja, terá menos votos absolutos agora do que há quatro anos. Com isso, sem desmerecer a estupenda conquista de Trump, na verdade, o que houve, sobretudo, foi uma categórica condenação do governo Biden e do Partido Democrata. Indubitavelmente, contudo, o excepcional triunfo de Trump sinaliza que esse tipo de personagem caricatural antidemocrático permanece vivíssimo nas democracias. De qualquer maneira, se a direita vier a ganhar a eleição presidencial no Brasil em 2026, será por conjuntura tupiniquim, e não por transfusão exógena
HUDSON CARVALHO é jornalista e consultor político





