A Polícia Civil de São Paulo realizou nesta quarta-feira, 17, uma nova ofensiva para esclarecer o assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, morto a tiros na última segunda-feira em Praia Grande, no litoral paulista. Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em endereços da capital e da região metropolitana, com o objetivo de coletar provas e avançar na identificação dos autores da execução.
Segundo o secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, dois suspeitos já foram identificados. A mãe de um deles chegou a prestar depoimento, mas o conteúdo do testemunho e a identidade da família não foram revelados para não comprometer as investigações.
Identificação de suspeitos e cautela da polícia
Durante a manhã, uma pessoa foi levada ao Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) para averiguação. A corporação, no entanto, descartou sua participação direta no ataque. A Polícia Civil e a Secretaria de Segurança evitam fornecer detalhes adicionais sobre a apuração para preservar o andamento do inquérito.
Fontes foi morto em uma emboscada enquanto dirigia seu carro pela avenida Doutor Roberto de Almeida Vinhas, na Vila Caiçara. O veículo foi perseguido, colidiu com um ônibus e, em seguida, homens armados desceram de outro automóvel e dispararam várias vezes contra a vítima. Uma mulher e um homem que passavam pelo local foram atingidos, mas sobreviveram após atendimento médico.
PCC e a suspeita de vingança
As investigações trabalham com a hipótese de que o Primeiro Comando da Capital (PCC) tenha ordenado o assassinato como retaliação pela decisão de Fontes, ainda em 2019, de transferir 15 lideranças da cúpula da facção para presídios federais. O Ministério Público de São Paulo já havia revelado que o delegado fora jurado de morte pela organização criminosa na época.
A Secretaria de Segurança também não descarta que a execução esteja relacionada à atuação do ex-delegado em Praia Grande, onde ele ocupava um cargo na administração municipal desde 2023.
Força-tarefa e reforço policial
O governador Tarcísio de Freitas determinou a criação de uma força-tarefa para localizar os responsáveis. Policiais da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e do DHPP foram deslocados para o litoral, tanto para reforçar o policiamento ostensivo quanto para evitar a fuga dos criminosos da região.
Trajetória na Polícia Civil
Ruy Ferraz Fontes foi nomeado delegado-geral em 2019 pelo então governador João Doria, permanecendo até 2022 no comando da Polícia Civil. Em sua carreira, foi responsável por investigações que mapearam a estrutura hierárquica e a dimensão do PCC logo após a fundação da facção. Conduziu inquéritos que resultaram em condenações de figuras centrais do crime organizado, entre eles Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola.
As transferências de Marcola e de outros líderes da facção de Presidente Venceslau para o sistema federal, em 2019, geraram forte reação da organização criminosa. Na ocasião, o Ministério Público de São Paulo apontou que o delegado havia se tornado alvo direto da facção.
Avisos e temores recentes
Três semanas antes de ser assassinado, Fontes reconheceu publicamente que temia pela própria vida. Em entrevista gravada para um podcast da rádio CBN e do jornal O Globo, ainda em produção, ele relatou viver sozinho na Baixada Santista sem qualquer proteção do Estado.
— Eu tenho proteção de quem? Eu moro sozinho, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é no meio deles. Para mim é muito difícil. Se eu fosse um policial da ativa, eu estava pouco me importando, teria estrutura para me defender; hoje não tenho estrutura nenhuma.
A reportagem do Globo apurou que Fontes chegou a ser mencionado em conversas interceptadas do PCC que também citavam Sérgio Moro, então senador, e o promotor Lincoln Gakiya, ambos igualmente jurados de morte. A informação, entretanto, nunca foi tornada pública e permaneceu restrita à inteligência do Ministério Público e da Polícia Federal, que em março de 2023 deflagrou operação para tentar desmobilizar o plano criminoso.






Deixe um comentário