O histórico campo ao lado da Fábrica Bangu (Crédito: Reprodução)

Parte dessa história todo mundo acredita que conhece. O jovem paulistano Charles Miller desembarcou no Porto de Santos em 1894, trazendo consigo duas bolas de couro, um par de chuteiras e o livro de regras da Football Association, sendo, portanto, tradicionalmente reconhecido pela historiografia oficial como o introdutor do esporte no Brasil. Em um país que respira futebol, era orgulho nacional a narrativa do herói único que “inventou” a paixão pelo rude esporte bretão no sofisticado São Paulo Athletic Club. Que, aliás, importante dizer, por que meio mundo confunde, não é o famoso tricolor paulista, de Kaká ou Rivaldo, mas um típico clube inglês no bairro central da Consolação, com pubs e imensos gramados de bowls, uma modalidade esportiva britânica que parece uma espécie de boliche na grama. Mas além desses detalhes, a questão é que nem sempre as coisas são como parecem ser. 

Enquanto Miller desfazia malas e mostrava suas novidades para a elite paulistana, operários suados em Bangu já bicavam esferas de couro, sem saber que estavam desafiando o futuro protagonismo do “pai oficial”. Se a história fosse um campeonato de pontos corridos, o troféu de pioneiro estaria sendo disputado nos tribunais da memória, com evidências que sugerem que o primeiro “chute inicial” pode ter tido sotaque escocês bem antes de Charles Miller. E enquanto isso, um ex-jogador de futebol europeu de verdade, vindo da Alemanha, armava seu time, consolidando o esporte de vez. 

Assim, entre escoceses, alemães, ingleses e operários brasileiros, diferentes personagens reivindicam, com maior ou menor respaldo documental, o título de pioneiros. A disputa, mais do que uma curiosidade histórica, revela como o futebol nasceu no Brasil: fragmentado, elitista e, sem dúvida, um retrato fabuloso da divisão de classes. 

O escocês que virou lenda no subúrbio do Rio 

Thomas Donohoe nasceu em Busby, Escócia, em 25 de janeiro de 1863, filho de Patrick Donohoe e Mary Ann Sloan, imigrantes irlandeses. Era mestre tintureiro na indústria têxtil, ofício que o levaria, décadas depois, a cruzar o Oceano Atlântico rumo a um bairro operário da Zona Oeste carioca chamado Bangu. 

Contratado para dirigir a seção de tinturaria da Companhia Progresso Industrial do Brasil (depois só Fábrica Bangu), Thomas logo viraria vice-presidente da fábrica onde chamado pelos operários de “Seu Danau”. E aqui o alerta de treta entra no nível máximo. 

Numa manhã ensolarada de domingo, exatamente 9 de setembro de 1894, Seu Danau organizou a primeira pelada do Brasil em um terreno baldio ao lado da no pátio da fábrica. Para a partida foram improvisadas duas traves sem travessão. Não havia uniforme, e os times foram compostos por seis jogadores de cada lado. A bola teria sido trazida pela esposa de Donohoe, Elizabeth, que chegara da Escócia com os dois filhos do casal. 

E mesmo com citações nos registros da fábrica, livros, tradição oral, e até filme (o ótimo Bola para Seu Danau, de Eduardo Souza Lima), a turma que mora naquela cidade cinza ao sul do Brasil persevera na militância pela paternidade de Charles Miller.  

A historiadora Gracilda Alves de Azevedo Silva, professora de História da UFRJ, é uma das pesquisadoras que sustentam a tese de Bangu, conforme documentado na obra de Carlos Molinari “Nós é que somos banguenses”. A jornalista escocesa Storm Huntley, que investigou a história in loco, argumentou que Miller ganhou o título de “pai do futebol” apenas por pertencer à elite brasileira da época, mas que foi Thomas Donohoe quem, meses antes, introduziu a paixão pelo futebol no Brasil.  

Herói que é herói merece estátua, e Seu Danau ganhou a dele na entrada da antiga Fábrica Bangu(Crédito: Reprodução)

O “Pai” Diplomático 

A consagração de Charles Miller como introdutor do futebol no Brasil sempre teve base documental mais sólida, por uma série de fatores. Filho de britânicos, ele estudou na Inglaterra e retornou ao Brasil em 1894 trazendo bolas, uniformes e, principalmente, o conhecimento formal das regras da Football Association. E até aqui tudo bem. 

Também não há dúvida sobre ter partido dele a iniciativa de organizar o primeiro jogo considerado “oficial” pela crônica da época, em 14 de abril de 1895, no campo do Várzea do Carmo, entre o São Paulo Athletic Club e a Companhia de Gás.  

Meses depois da pelada de Seu Danau naquele terreno baldio em Bangu.  

Só que Charles Miller era um “faria limer” 65 anos antes da rua hoje conhecida como importante centro financeiro ter sido inaugurada. Tinha contatos, conexões, organizava peladas entre membros da elite paulistana e, claro, seus feitos esportivos eram muito mais invejados, badalados do que sabe-se lá o que acontecia naquele bairro distante da Zona Norte carioca que ainda dava rima ruim. 

E justiça seja feita, Miller não foi necessariamente o primeiro a chutar uma bola no Brasil, mas foi ele quem transformou o futebol em uma prática organizada, com regras, clubes e competições. Fundou a primeira Liga de Futebol do Brasil e como atacante do SPAC, conquistou os três primeiros títulos do campeonato, em 1902, 1903 e 1904.

Charles Miller e toda a classe do pioneiro do futebol no Brasil (Crédito: Reprodução)

O alemão que embolou a história toda 

Hans Nobiling nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 10 de setembro de 1877. Antes de emigrar para o Brasil em 1897, ele já era um boleiro experiente, tendo jogado no SC Germania 1887 Hamburg, um dos precursores do atual Hamburg SV, onde inclusive conquistou um campeonato. 

Ao desembarcar em Santos, Nobiling trouxe consigo não apenas a saudade das peladas, mas também uma bola de futebol e os estatutos do SC Germania, determinando que a prática do esporte seguiria regras organizadas. 

Primeiro, ele tentou influenciar a colônia alemã, mas a ginástica era a moda entre a comunidade. Voltou então sua atenção para jovens brasileiros, estudantes ou trabalhadores, treinando sua rapaziada na Chácara Dulley, no Bom Retiro, em um antigo campo de críquete. Às vezes não havia tempo para treinar à tarde, e os ensaios aconteciam à noite, à luz da lua. 

Inicialmente, ele montou o “Nobiling Team” e desafiou os ingleses do SPAC de Charles Miller que esnobaram o desafio. O Nobiling  enfrentou então alunos do Mackenzie College, no que é considerado um dos primeiros jogos entre times diferentes no Brasil, em 5 de março de 1899. A partida terminou em 0 a 0. 

Curiosamente Hans Nobiling é um personagem que os paulistas menos costumam mencionar em sua crônica. Talvez porque sua história complica a narrativa consagrada de Charles Miller. Mas Nobiling foi um gigante. Em 7 de setembro de 1899, fundou o SC Germânia, que se tornaria o hoje tradicionalíssimo Esporte Clube Pinheiros. Ele promoveu os primeiros jogos entre equipes de diferentes estados brasileiros e foi fundamental para a trajetória do jovem Arthur Friedenreich, que apesar desse nome frankfurtiano, era preto e se tornou o primeiro grande astro do futebol brasileiro. 

Hans Nobiling, o primeiro jogador europeu no Brasil (Crédito: Reprodução)

Mas o que se fazia lá pelos lados de Bangu? 
 
Diferente dos clubes de elite da zona sul da Guanabara, o futebol em Bangu nasceu proletário, dentro do pátio fabril, onde a hierarquia entre mestres ingleses e operários brasileiros era temporariamente suspensa durante as peladas. A fábrica fornecia não apenas o espaço físico, mas a infraestrutura para o desenvolvimento do esporte entre as classes populares. Isso desempenhou um papel sociológico crucial na história do futebol carioca, sendo o berço do Bangu Atlético Clube, fundado oficialmente em 1904. 

A importância de Bangu vai além das datas; ela representa a democratização precoce do futebol. Enquanto em outros clubes a entrada de negros e operários era claramente proibida, o ambiente da fábrica facilitou a fabulosa capacidade de integração brasileira. O Bangu é frequentemente citado por historiadores do esporte, como Marcos Alvito, como o clube que mais cedo desafiou o elitismo do futebol brasileiro, permitindo que a “raiz” operária do jogo florescesse antes de ser cooptada pelos grandes clubes. 

Um filho de muitos pais 

Se no fim das contas você quiser encerrar essa discussão com uma saída diplomática, pode dizer que o futebol brasileiro não teve um único pai, mas sim uma “comissão técnica” de imigrantes que, em diferentes classes sociais, plantaram a semente do que viria a ser a maior identidade cultural deste país. 

Operários escoceses em Bangu improvisaram um gol com traves sem travessão num domingo de setembro de 1894, sem uniforme e sem cronômetro. Um alemão apaixonado ensaiou seus rapazes à luz da lua numa chácara paulistana. E um jovem paulistano de passaporte duplo desceu do navio em Santos com duas bolas, um livro de regras e uma determinação que nenhum dos outros parecia ter: a de tentar organizar a bagunça. 

E assim o futebol chegou ao Brasil da maneira mais brasileira possível: por muitas mãos, em muitos lugares, sem acordo prévio, sem planejamento central e com muita discórdia sobre os créditos. Que tudo tenha dado origem ao país mais vitorioso da história das Copas do Mundo é, sem dúvida, o resultado mais fantásticos. Vai, Brasa!

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