A Polícia Federal suspeita que informações sigilosas sobre a sexta fase da Operação Unha e Carne tenham sido repassadas antecipadamente a investigados. A conclusão consta no relatório que embasou o pedido de prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (União) e do ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim.
Deflagrada em julho, a sexta fase investigou suspeitas de formação de cartel e lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis. Durante a operação, Canella foi preso em flagrante depois que os agentes encontraram um fuzil em seu carro.
Denúncia apontou retirada de documentos e provas
No dia da operação, a PF recebeu uma denúncia anônima de um morador de um condomínio em Niterói onde um dos investigados residia. Segundo o relato, o alvo já teria conhecimento antecipado da ação policial.
A denúncia informou que, na semana anterior, o investigado teria utilizado alguns carros, com a ajuda de outras pessoas, para retirar do imóvel tudo o que pudesse incriminá-lo.
Os investigadores também identificaram movimentações consideradas suspeitas envolvendo o escrivão da Polícia Federal Fábio Henrique Ferreira, que estava lotado na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários, e o policial civil Pablo Jukiá.
Encontro na véspera da operação levantou suspeitas
De acordo com o relatório, na véspera da deflagração da sexta fase, Fábio Henrique perguntou a Pablo Jukiá se ele estava em casa. Após receber uma resposta afirmativa, o agente federal foi até o endereço do policial civil.
Os delegados também apontaram comunicações com mensagens orientadas à autodestruição, chamadas de voz sem registro documental e o encontro presencial na véspera da operação.
No documento, os investigadores afirmaram que o conjunto desses elementos sustenta a suspeita de repasse antecipado e não autorizado de informações sigilosas a Pablo Jukiá e a pessoas ligadas a ele, possivelmente mediante contrapartida indevida. A suspeita integra a investigação e não representa, por si só, comprovação de responsabilidade criminal.
As oito fases da Operação Unha e Carne
A investigação avançou por diferentes etapas, com apurações envolvendo suspeitas de vazamento de informações policiais, relações entre agentes públicos e organizações criminosas, fraudes e lavagem de dinheiro.
– 1ª fase: Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), foi preso em 3 de dezembro. Segundo a PF, ele teria repassado ao ex-deputado estadual TH Jóias informações sobre a Operação Zargun, que levou à prisão do ex-parlamentar, investigado por ligações com o Comando Vermelho.
– 2ª fase: Em 16 de dezembro, o desembargador Macário Júdice Neto, relator do caso TH Jóias no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, foi preso. A PF encontrou no celular de Bacellar mensagens trocadas entre os dois.
– 3ª fase: Em 27 de março, Rodrigo Bacellar foi preso pela segunda vez, em Teresópolis. Ao autorizar a medida, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes mencionou a perda do mandato do parlamentar e indícios de atuação para dificultar uma ação da PF contra o Comando Vermelho.
– 4ª fase: Em 6 de maio, o deputado estadual Thiago Rangel foi preso. Ele e outras seis pessoas foram acusados de integrar uma organização criminosa envolvida em fraudes na compra de materiais e na contratação de serviços para a Secretaria estadual de Educação.
– 5ª fase: Deflagrada em 2 de julho, a etapa teve como ponto de partida uma lista de propinas atribuídas ao bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, que incluía nomes de políticos. O pastor Márcio Poncio foi preso, e o ex-deputado federal Marco Antônio Cabral foi alvo de busca e apreensão.
– 6ª fase: Em 7 de julho, a PF investigou a utilização de postos de combustíveis para lavagem de dinheiro, em um esquema que, segundo os investigadores, teria movimentado R$ 7,6 bilhões e contado com a participação de agentes públicos. Márcio Canella foi preso em flagrante após a localização de um fuzil em seu carro.
– 7ª fase: No dia 22, o vereador Jorge Eduardo Barreto de Andrade Filho, que adotou o nome Jorge Canella em referência à proximidade com Márcio Canella, foi preso em flagrante. Na casa dele, os agentes encontraram dois fuzis e uma submetralhadora, armas de uso restrito.
– 8ª fase: Na operação mais recente descrita no relatório, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão em sete municípios do Rio de Janeiro. Entre os presos estão o deputado estadual eleito Márcio Canella, o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim e outros quatro policiais.
A suspeita de vazamento relacionada à sexta fase passou a integrar o conjunto de elementos analisados pela PF na investigação sobre a atuação de agentes públicos e possíveis irregularidades associadas ao esquema de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis.






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