PF aponta negociação entre PM e Comando Vermelho em nome de Canella para reduzir operações policiais

Investigação revela que retirada de barricadas em Belford Roxo teria sido negociada com chefes do tráfico em troca de menor presença policial e retomada do controle territorial pela facção

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A retirada de barricadas instaladas pelo tráfico em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, teria sido objeto de uma negociação envolvendo a gestão do ex-prefeito Márcio Canella (União Brasil) e lideranças do Comando Vermelho (CV). Segundo a Polícia Federal, um capitão da Polícia Militar atuava como intermediário de um suposto acordo que previa a redução das operações policiais em troca da liberação de vias bloqueadas por criminosos.

As informações fazem parte das investigações que levaram à prisão de Canella nesta quinta-feira (15), durante a oitava fase da Operação Unha e Carne. O deputado estadual, reeleito com a segunda maior votação do Rio de Janeiro, é investigado por suspeitas de envolvimento com uma organização criminosa.

De acordo com a PF, o responsável por estabelecer os contatos com traficantes era o capitão Alessander Ribeiro Estrella Rosa, que já havia sido preso anteriormente por suspeita de negociar com integrantes de facções criminosas.

O policial não foi alvo da operação desta quinta-feira.

Acordo previa retirada de barricadas e redução de operações

Segundo a investigação, Estrella Rosa teria atuado como representante dos interesses da administração municipal comandada por Canella nas conversas com integrantes da cúpula do Comando Vermelho.

Entre os interlocutores apontados pela PF estavam Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, e José Severino da Silva Júnior, o Soró, identificado como uma das lideranças da facção no Complexo do Castelar, em Belford Roxo.

A negociação teria como objetivo permitir a retirada de barricadas e a realização de intervenções em áreas controladas pelo tráfico.

Em contrapartida, segundo os investigadores, haveria redução das operações policiais e posterior retomada do controle territorial pelos criminosos.

A Polícia Federal sustenta que o entendimento permitiria à administração municipal realizar obras e ações em comunidades dominadas pela facção, enquanto os traficantes manteriam sua influência sobre os territórios.

A suspeita é de que o acordo envolvesse interesses políticos e o funcionamento da segurança pública no município.

Capitão da PM já havia sido investigado

Alessander Ribeiro Estrella Rosa já era investigado por suspeitas de manter contatos irregulares com traficantes de Belford Roxo.

Um áudio atribuído ao oficial, divulgado anteriormente, levantou suspeitas sobre negociações para a retirada de barricadas instaladas em comunidades da cidade.

O caso provocou a abertura de procedimentos administrativos na Polícia Militar.

A corporação decidiu pelo desligamento do oficial, após concluir, em processo disciplinar, que sua conduta não atendia aos critérios exigidos para permanência nos quadros da instituição.

O procedimento também envolveu recomendação de perda do posto e da patente, questão encaminhada ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Apesar do processo administrativo, a situação funcional e judicial do oficial ainda dependia das decisões cabíveis, segundo as informações divulgadas pela corporação.

Edgar Alves de Andrade, traficante conhecido como Doca / Redes Sociais

Canella foi preso em operação contra lavagem de dinheiro

A prisão de Márcio Canella ocorreu durante uma investigação mais ampla sobre uma organização criminosa suspeita de movimentar aproximadamente R$ 7,6 bilhões em seis anos.

De acordo com a Polícia Federal, o grupo utilizaria uma rede de postos de combustíveis e empresas registradas em nome de terceiros para ocultar recursos e movimentações financeiras.

Além de Canella, foi preso o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil e ex-presidente do Detran-RJ. Outros quatro policiais civis também foram detidos.

A operação, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu mandados de busca e apreensão em diferentes municípios fluminenses.

Os investigadores apuram possíveis crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e outras irregularidades relacionadas à atuação do grupo.

Defesa afirma não ter acesso à decisão

A defesa de Márcio Canella informou que não se manifestaria sobre as acusações naquele momento porque ainda não havia tido acesso à decisão judicial que determinou sua prisão.

A reportagem original do g1 e da TV Globo também informou que não conseguiu contato com a defesa de Alessander Ribeiro Estrella Rosa.

As suspeitas apresentadas pela Polícia Federal ainda estão sujeitas à análise judicial e ao direito de defesa dos investigados.

Reeleito deputado estadual com quase 200 mil votos, Canella foi o segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) nas eleições de outubro.

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