Pesquisa mostra que metade das famílias brasileiras tem dificuldade de pagar conta de luz

Ao todo, 48% dos lares no país tiveram que sacrificar orçamento para encaixar a conta de energia

Quase metade das famílias brasileiras (48%) tiveram problemas para pagar suas contas de luz nos últimos 12 meses. É o que estima uma pesquisa da consultoria Accenture. Além do custo alto, apenas 39% dos consumidores estão satisfeitos com o desempenho de seus fornecedores de energia no país.

A média de famílias que têm dificuldade para pagar as contas de luz no Brasil é maior que na média de todos os 18 países em que o levantamento foi feito: 37%.

A pesquisa “Guia para o Net Zero” avalia as dificuldades que consumidores do mundo inteiro têm para pagar as suas tarifas de energia e aponta caminhos para a transição energética, que deve encarecer ainda mais o preço da eletricidade no Brasil e no mundo, segundo a consultoria.

No total, 16.800 consumidores residenciais de energia foram entrevistados em 18 países. Destes, 800 moram no Brasil. Segundo os dados da Accenture, 86% dos brasileiros estão interessados na transição energética, mas apenas 34% estão dispostos ou têm condições de pagar mais para apoiar iniciativas de energia limpa.

A empregada doméstica Beatriz Barbosa, 37 anos, divide as contas da casa, onde vive na cidade pernambucana de Garanhuns, com seu marido. O casal tem dois filhos, de 5 e 3 anos. Ela conta que a família tem lidado com dificuldades para manter os pagamentos em dia, e relata que, mês sim, mês não, consegue custear a conta de luz:

— Meu marido perdeu o emprego dele há uns quatro meses, e desde então está fazendo bicos. Agora a gente não consegue pagar tudo. Tem conta de luz que está vencida há três meses já, e não temos muito o que fazer na verdade. É isso ou a conta de água, mercado, aluguel, não tem jeito.

Transição com preço

Questionada se apoia que o país use fontes de energia mais sustentáveis, Beatriz se diz favorável, mas ressalta que não pode pagar tarifas mais altas se isso for exigido pela transição energética:

— Não tenho condições né, a gente já está com dificuldades agora, imagina se aumentar. Acho muito bonita essa história, mas eu não consigo pagar mais de jeito nenhum.

Como ela, 39% dos consumidores brasileiros mencionam que não podem pagar uma conta de energia mais alta agora. O número é ainda maior entre os que tiveram dificuldades de pagamento recentemente: 53%.

Adilson Oliveira, diretor de Estratégia em Utilities da Accenture Brasil, ressalta que grande parte da população brasileira depende de benefícios sociais para arcar com os custos da conta de luz:

— Nesse caso não adianta, para essas famílias de fato é muito difícil que elas tenham condições de arcar com um custo adicional para a transição energética. Então, comparando com a média global, temos um nível de conscientização do desafio ainda maior, mas em termos de capacidade de pagamento é menor. Se a gente pensar na realidade econômica, nos nossos desequilíbrios, é razoável esperar que esse fosse o resultado.

Apesar de ser um país abundante em fontes renováveis de energia, uma série de distorções e impostos encarecem a conta de luz no Brasil.

Neste ano, o baixo nível de chuvas levou o governo a acionar a bandeira vermelha em setembro pela primeira vez em três anos, para compensar o acionamento de termelétricas em apoio às hidrelétricas com reservatórios esvaziados. Com isso, a energia elétrica subiu 5,29% em outubro, segundo o IBGE.

Muito imposto

Segundo Luiz Fernando Leone Vianna, vice-presidente Institucional e Regulatório do Grupo Delta Energia, a matriz energética brasileira, a princípio, deveria ser mais barata que a média de outros países, por utilizar majoritariamente fontes renováveis, como água no caso das hidrelétricas, vento no dos parques eólicos e luz das usinas solares. No entanto, alguns fatores tornam a conta de luz do brasileiro mais cara.

— Nós temos um problema muito grande que encarece a nossa conta de energia, que são encargos setoriais. São diversos, e aí vem toda a questão de subsídios, que está sendo analisada, inclusive, pelo governo, e também a questão da alta incidência de impostos sobre a nossa energia — explica o especialista.

Vianna destaca que o Brasil já está avançado na transição energética, porque tem vocação para uma matriz limpa:

— Em sua maioria, 85%, a nossa matriz é composta de fontes hidráulicas, que é uma fonte renovável limpa, além de biomassa, solar, eólica. São fontes extremamente limpas.

Para Adilson Oliveira, o país precisa buscar meios de baratear a transição energética para que o preço da conta de luz caiba no bolso do brasileiro médio e o país reduza emissões de carbono.

— Pelo fato de termos uma situação de distribuição de renda mais desafiadora aqui, é mais importante ainda a gente buscar oportunidades que ajudem a economia do Brasil a crescer alavancando esse diferencial que podemos ter na transição energética — diz o executivo da Accenture Brasil.

Na semana passada, o governo brasileiro anunciou a Plataforma de Investimentos em Transformação Climática e Ecológica do Brasil (BIP), para facilitar e ampliar a captação de recursos internacionais para financiar programas ambientais e sustentáveis, inclusive na área de energia.

O Brasil está entre os mais de 90 países que se comprometeram com a meta de neutralidade de emissões (net zero) de gases do efeito estufa para ajudar a prevenir os impactos mais prejudiciais das mudanças climáticas.

Com informações de O GLOBO.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading