A suspensão em massa de alunos do Colégio Santa Cruz nesta semana ocorreu após a instituição descobrir o “drinha”, corruptela de “quadrinha”, um grupo de WhatsApp inicialmente criado por estudantes para organizar partidas de futebol.
Com o tempo, a comunidade se tornou em um espaço onde os mais velhos, os “veteranos” do terceiro ano do Ensino Médio, organizavam festas e trotes com os “novatos” do primeiro ano e praticavam uma série de atos de violência, bullying, humilhação e racismo.
Antes de o caso vir à tona, o grupo reunia mais de 200 usuários, todos ou quase todos meninos, conforme estudantes relataram ao jornal O GLOBO.
Nem o grupo, nem os trotes eram novidade entre os estudantes do Santa Cruz. De acordo com alunos ouvidos pela reportagem, era sabido que ao chegar no primeiro ano eles seriam “convidados” a participar do “drinha”.
Os veteranos organizam festas com dinheiro recolhido via Pix pelos novatos. Uma das histórias que circulava era de que um novato tinha sido agredido após se recusar a contribuir. As festas em si também geravam problemas. Vários relatos dão conta que novatos chegaram a entrar em “coma alcoólico” e, segundo os mais novos, havia até a contratação de prostitutas nos eventos.
Um ex-aluno ouvido pelo GLOBO, que estava acompanhado do irmão mais novo recém-chegado ao primeiro ano, contou que os trotes eram até uma maneira de integrar as turmas, mas que nunca tinha visto nada como os casos “assustadores” deste ano. Outro estudante, que fazia parte do grupo de WhatsApp, mas saiu após as notícias virem à tona, confirmou que mensagem de cunho racista e homofóbico eram comuns, mas diz que os temas eram minimizados.
— Acho que eles não sabiam a proporção que iria tomar, ou não mandariam esse tipo de coisa em um grupo com 200 pessoas — ele diz.
O GLOBO teve acesso a trechos de vídeos que os novatos tinham que produzir. Os “desafios” que tinham de cumprir mudavam, conforme a liderança do grupo. Em alguns casos, os novos alunos eram orientados a falar sua posição sexual favorita. Em outros, a aparecer no vídeo apenas com a roupa de baixo. Em vídeos que circulavam no grupo, um dos veteranos diz o nome de uma garota que seria seu “alvo”, estimulando os colegas a entrarem em uma “disputa” para saber qual “conseguiria” a colega, fazendo referência às partes íntimas dela no palavreado.
Segundo relatos, o grupo era também um ambiente onde mensagens de cunho racista circulavam com normalidade. Um áudio em que uma aluna conta a outra sobre o escândalo, ao qual o GLOBO teve acesso, afirma que em uma mensagem um aluno diz que vai “mandar um anão preto em cima de um porco pra estuprar” um colega.
Outro ponto que agravou o caso foram os relatos de violência dentro da escola. Alunos do terceiro ano teriam reservado espaços para “uso exclusivo” deles, como um banheiro no segundo andar. Desavisado, um aluno do primeiro ano teria feito uso do local e sido confrontado pelos mais velhos.
Reunião de emergência
Nesta sexta-feira, pais e alunos do 2° e do 3° anos foram convocados para uma reunião de emergência com a direção do colégio. Segundo relatos, foram apresentados os problemas aos pais e os alunos receberam orientações, mas, segundo o relato de uma mãe, “não há nenhuma conclusão” sobre as medidas que serão tomadas. Até agora, 34 alunos foram suspensos por tempo indeterminado e seis, por dois dias, mas os próprios alunos esperam que alguns sejam expulsos.
Na conversa com os responsáveis, a escola demonstrou entender a gravidade do teor das conversas. O clima no colégio, diz a mãe, é de consternação, pois trata-se de uma instituição tradicional, conhecida justamente por abrigar gerações de pessoas da mesma família. Não é incomum que estudantes do “Santa” entrem na escola ainda na educação infantil e sigam até o fim do Ensino Médio.
Aos pais, o colégio ainda indicou, na mesma reunião, que deve incluir na rotina de aprendizagem conceitos que se relacionem com as “masculinidades”, uma vez que tratava-se de um grupo apenas de rapazes. A posição da escola aos responsáveis, que lotaram um auditório, é de que vai apurar os envolvidos e suas responsabilidades. A mesma mãe avalia que o movimento “Red Pill” (que exalta a masculinidade e desfere ódio a grupos minorizados, sobretudo na internet) pode ter tido influência no comportamento dos estudantes.
Nesta tarde, o colégio divulgou uma nota na qual citou sua “tristeza e profunda indignação” em relação às agressões entre alunos do ensino médio do colégio “em grupos de WhatsApp que tomamos conhecimento esta semana”. De acordo com a instituição, o caso fere seus “valores estruturais”
“Começamos prontamente a apuração dos fatos, o que nos levou a realizar uma série de ações, entre as quais a de suspender 34 alunos diretamente envolvidos no caso e a de ampliar um trabalho com todos os estudantes do ensino médio no sentido de conscientizá-los sobre a violência das relações entre eles e implicá-los na construção de um ambiente mais respeitoso, também nas redes digitais. Esse trabalho e essa discussão estão sendo estendidos para outros grupos de estudantes”, pontuou.
Com informações de reportagem do jornal O Globo





