Ovnis, nazistas e mundos perdidos: conheça as cinco maiores teorias da conspiração do Brasil

Sejam elas fantasiosas, assustadoras ou absurdars, teorias refletem imaginário popular e angústias do país

Mente quem diz que não gosta de uma boa teoria da conspiração. Elas são tão populares porque oferecem explicações simples e atraentes para eventos complexos e incertos, muitas vezes preenchendo lacunas de conhecimento e fornecendo um senso de controle ou compreensão em situações confusas. Além disso, podem fortalecer a identidade de grupo e oferecer conforto em tempos de crise, além de serem frequentemente reforçadas por vieses cognitivos e a disseminação em ambientes digitais.

Até hoje, por exemplo, há quem acredite que Tancredo Neves, presidente eleito em 1985, não morreu por causa de problemas de saúde, mas sim assassinado para impedir sua posse e manter o controle político nas mãos da ditadura militar ou de elites civis — e só a jornalista Gloria Maria saberia a verdadeira verdade!

Essas teorias, sejam elas fantasiosas, assustadoras ou até absurdas, refletem muito sobre o Brasil, suas angústias, seu imaginário popular e sua relação com o poder, o desconhecido e a desconfiança nas instituições. Algumas nasceram de fatos distorcidos, outras de puro medo coletivo, e muitas são combustível para livros, filmes e discussões intermináveis. Selecionamos aqui cinco das mais cabeludas, embora com toda certeza, você já deve ter ouvido alguma que julgue merecer estar nesta lista. “Busquem conhecimento!”, diria o ET Bilu.

A Terra Oca da Amazônia: um portal para outra civilização

A lenda da “Terra Oca da Amazônia” tem raízes em narrativas indígenas, especialmente entre os povos Macuxi, que habitam a região próxima das Guianas. Segundo suas tradições orais, há entradas subterrâneas na Amazônia que levam a um mundo interior, luminoso e fértil, povoado por gigantes de até três a quatro metros de altura, chamado Agaharta, cuja capital seria uma cidade chamada Shambhala. As jornadas, segundo relatos, levam entre 13 e 15 dias de caminhada através de escadarias gigantescas, até que os viajantes encontram “objetos semelhantes ao sol” e alimentos como mangas do tamanho de cabeça humana, além de peixes gigantes e estruturas cavernosas imensas.

Curiosamente a lenda de Agartha tem raízes em diversas tradições pelo mundo, incluindo o budismo tibetano, que menciona Shambhala como um local de refúgio espiritual. De acordo com os defensores dessa teoria, a Amazônia seria protegida por governos e forças militares que impedem que essas entradas sejam descobertas. Mapas antigos e documentos secretos circulam na internet como “provas” de que há uma cidade de cristal sob a floresta, habitada por seres com tecnologias muito superiores às humanas.

Do ponto de vista científico, porém, não há uma única evidência concreta que comprove a existência de cavidades gigantescas ou sociedades avançadas abaixo da crosta terrestre. A geofísica moderna, baseada em estudos sísmicos e medições gravitacionais, confirma que a Terra é composta por crosta, manto e núcleo — sem grandes espaços ocos habitáveis.

Mesmo as aberturas polares reivindicadas por teóricos da Terra Oca foram desacreditadas depois que sondagens e imagens de satélite mostraram camadas sólidas de rocha de até 30 km de espessura abaixo da superfície. Em resumo, trata-se de uma bela mitologia amazônica, rica em simbolismo ancestral, mas sem respaldo científico nem evidências físicas reais.

Lenda tem raízes em diversas tradições pelo mundo | Reprodução

A base nazista na Ilha de Trindade

Durante a Segunda Guerra Mundial, surgiram rumores de que submarinos nazistas usaram a Ilha da Trindade, a cerca de 1.140 km de Vitória (ES), como base de apoio secreto. Fotos da Marinha Brasileira, feitas em 1958, que mostram um objeto voador não identificado próximo à ilha, aumentaram o mistério. Para os criadores de mitos, os nazistas construíram túneis e depósitos na ilha, escondendo tecnologia e riquezas saqueadas. Até hoje, exploradores e caçadores de tesouros visitam a ilha em busca de vestígios dessa base secreta.

Porém, não há qualquer evidência de que nazistas tenham construído ou operado uma base ali. Entre 1941 e 1945, a Marinha do Brasil e os fuzileiros navais estabeleceram ali uma guarnição militar, com instalações como estação de rádio, barracões, baterias de artilharia, usina geradora e patrulhas diurnas e noturnas, justamente com o objetivo principal de impedir que submarinos do Eixo utilizassem a ilha como apoio logístico e base de operações. Mas essa confusão aqui pode ter como base um caso relativamente semelhante.

Em 2018, uma reportagem da TV Bandeirantes alegou que Getúlio Vargas teria permitido que submarinos alemães usassem a Ilha da Rita, na Baía da Babitonga, no litoral norte de Santa Catarina, para abastecimento e reparos. Documentos oficiais da Marinha registram que, em 1937, o governo Vargas autorizou a construção de uma base naval brasileira na Ilha da Rita. A obra incluiu aqueduto submarino para captação de água, tanques para água doce e óleo diesel, alojamentos para fuzileiros e infraestrutura de apoio à navegação — visando à proteção da costa brasileira diante do aumento da presença naval estrangeira na região. O consenso acadêmico atual confirma: não havia base nazista, apenas uma importante fortificação costeira brasileira pré-Segunda Guerra.

Fortificação costeira pré-Segunda Guerra existiu | Reprodução

Brasília e o urbanismo maçônico

Há décadas circula a teoria de que o plano urbanístico de Brasília teria sido influenciado por simbologias, geometria sagrada e princípios associados à maçonaria. Segundo a turma queleva fé nessa história, traçados como o formato do Plano Piloto conteriam símbolos esotéricos como o compasso e o esquadro (símbolos maçônicos clássicos), bem como o uso deliberado de proporções harmônicas que remeteriam à geometria pitagórica e à busca de ordem e equilíbrio típicos do pensamento maçônico.

Supostamente, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, ambos simpatizantes de ideais racionalistas e progressistas, influenciados por sociedades secretas, teriam projetado a capital brasileira para ser um ponto de energia espiritual e dominação simbólica. Embora as análises arquitetônicas desmintam essas interpretações, o misticismo que envolve Brasília segue forte no imaginário popular.

Assim, embora a teoria do “urbanismo maçônico” seja popular em círculos esotéricos e conspiratórios, ela carece de base factual sólida e é considerada infundada pelos estudiosos da história do urbanismo brasileiro. Outra possibilidade é uma tentativa de criar paralelos entre Brasília e Washington, capital dos Estados Unidos, cidade cheia de símbolos esotéricos como obeliscos e pentagramas. Este tema foi explorado pelo escritor Dan Brown no best seller “O símbolo perdido”, publicado em 2009.

Compasso e esquadro são símbolos maçônicos clássicos | Reprodução

Operação Prato: Ovnis na Amazônia

Esse é um dos casos mais documentados e impressionantes da ufologia brasileira. A Operação Prato foi uma missão militar oficial conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) entre setembro e dezembro de 1977, na cidade de Colares e em outras localidades do estado do Pará, com o objetivo de investigar uma série de aparições de objetos voadores não identificados (Ovnis) e fenômenos luminosos reportados por centenas de moradores.

Os relatos incluíam luzes voadoras que supostamente atacavam ou sugavam energia das pessoas, ganhando o apelido de “chupa-chupa”. A comoção foi tamanha que o prefeito de Colares solicitou ajuda às autoridades, levando a FAB a destacar uma equipe comandada pelo então capitão Uyrangê Hollanda, do 1º Comando Aéreo Regional (Comar I), em Belém.

Durante a operação, que durou cerca de quatro meses, os militares realizaram entrevistas, fotografias, gravações em vídeo e até mesmo tentaram filmar os fenômenos. Ao final, a missão produziu um extenso dossiê com mais de 500 páginas, incluindo 300 fotografias e dezenas de depoimentos. Embora o relatório oficial da FAB tenha concluído que os objetos eram de origem desconhecida, muitos detalhes permaneceram confidenciais até os anos 2000, quando parte dos documentos foi liberada pelo Arquivo Nacional.

Pouco antes de morrer, o comandante da operação, coronel Uyrangê Hollanda, confirmou publicamente os fatos e relatou que os militares tiveram contato direto com naves e seres de origem desconhecida. Documentos e fotos foram desclassificados, mas até hoje parte dos arquivos permanece sob sigilo, alimentando especulações sobre acobertamento militar.

Vacinas com chip: a teoria mais moderna e absurda

Durante a pandemia de covid-19, uma teoria viralizou nas redes: as vacinas conteriam nanochips para monitorar e controlar a população. A alegação era que bilionários, como Bill Gates, estariam por trás da suposta conspiração global. A falta de conhecimento científico, aliada ao medo e à desinformação, fez com que milhões de brasileiros acreditassem na história, apesar das inúmeras refutações por parte da ciência e da imprensa.

O Ministério da Saúde do Brasil afirmou categoricamente em uma nota oficial de janeiro de 2024 que “é falso que vacinas sejam magnetizadas, possuam microchips ou até mesmo grafeno”, ressaltando que sua composição é restrita aos componentes necessários para estimular uma resposta imune.

Pesquisadores e professores da UFSC e da Sociedade Brasileira de Imunizações reforçaram que vacinas de RNA mensageiro (Pfizer, Moderna) ou de vírus inativado (Coronavac) não poderiam alterar o DNA humano, nem abrigar nanochips. Mas a teoria, que surgiu fora do Brasil, encontrou terreno fértil em grupos antivacina e conspiratórios brasileiros — sem falar em um certo ex-presidente.

Vacinas com chip: mentira que não se sustenta | Reprodução

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