A Guanabara tem uma capacidade fantástica de transformar qualquer coisa em espetáculo. Num ponto discreto do Parque do Flamengo, entre corredores apressados, vendedores de mate e turistas que miram o Pão de Açúcar, ergue-se uma pirâmide de pedra que parece saída de um ritual antigo. O Monumento a Estácio de Sá, inaugurado em 1973, foi projetado pelo arquiteto Lúcio Costa para homenagear o fundador da cidade do Rio de Janeiro, o militar português Estácio de Sá. Mas quem passa por ali muitas vezes não imagina que aquela forma geométrica carrega camadas de história, simbolismo e lenda.
Segundo tradições históricas e religiosas, a pirâmide de quase 20 metros guarda o local onde teria ocorrido um episódio decisivo da luta contra os franceses no século XVI. Um combate no qual, dizem alguns cronistas de época, o próprio São Sebastião teria aparecido no meio das nuvens para lutar ao lado dos portugueses.
Hoje, o local enfrenta os problemas recorrentes típicos de monumentos urbanos, como pichações, o espelho d’água seco e o bronze oxidado. Mas seu maior segredo não está nos alinhamentos geométricos, batalhas, ou lendas seiscentistas. Talvez esteja na pergunta que sua situação atual impõe: que cidade é esta que parece adorar abandonar os marcos de sua própria fundação?

Como tudo começou?
Se por aqui, tudo acaba em samba, às vezes começa também. Durante séculos, o Rio conviveu com um fato curioso: seu fundador não tinha um mísero monumento público na cidade. Isso só veio a mudar na metade do século XX, quando Raul Mascarenhas e Haroldo Barbosa compuseram a canção “Cadê a estátua de Estácio de Sá?”, que fez sucesso na voz de Miltinho: “Procurei em toda a cidade/ por seu fundador/ onde estará? / Cadê a estátua de Estácio de Sá? Cadê a estátua de Estácio de Sá?” A provocação cultural acabou estimulando debates públicos sobre a memória do fundador do Rio.
Em 1955, o então governador da Guanabara, Francisco Negrão de Lima, instituiu uma comissão para organizar as comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro, que ocorreria em 1965. Segundo pesquisas do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, a ideia inicial era um tanto obscura: queria-se um marco que celebrasse a fundação da cidade e seu fundador, mas sem consenso sobre forma ou localização.
E daí tome treta. A localização exata só foi definida finalmente em 1970. O projeto arquitetônico do monumento foi concebido por Lúcio Costa, uma das figuras centrais da arquitetura moderna brasileira e responsável pelo plano urbanístico de Brasília.
Quem foi mesmo Estácio de Sá?
Para quem faltou a essa aula na escola, além de nome de bairro e escola de samba, Estácio de Sá era um fidalgo português, sobrinho de Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil. Sua trajetória está diretamente ligada à expulsão dos franceses que haviam estabelecido a França Antártica na Baía de Guanabara em 1555.
Foi Estácio quem escolheu o local estratégico para estabelecer o primeiro núcleo da cidade. Durante quase dois anos, seus homens resistiram a ataques constantes enquanto aguardavam reforços para o combate final.
O fim e a lenda
Aqui nasce uma das mais persistentes lendas associadas à fundação do Rio. Em 20 de janeiro de 1567, portugueses e franceses travaram, em frente à praia do Flamengo, o embate final pelo controle da Baía de Guanabara. O confronto ganhou o nome de Batalhas das Canoas, porque os franceses, literalmente, atacaram com uma frota de canoas de guerra.
O confronto foi brutal. Até que, segundo registrou o cônego José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo nas “Memórias Históricas do Rio de Janeiro”, durante o auge da Batalha das Canoas, quando os portugueses já davam sinais de esgotamento, uma figura luminosa teria aparecido no céu, brandindo flechas e lutando ao lado dos soldados lusitanos.
A visão foi interpretada como sendo São Sebastião, martirizado no século III por soldados romanos que o crivaram de flechas. A coincidência da data e do instrumento do martírio (as flechas usadas pelos tamoios) consolidaram a associação.
A lenda escalou ao ponto de dizerem que Estácio de Sá, ferido mortalmente por uma flechada no olho, prometeu que seria consagrada a ele a nova cidade que surgia. E se foi assim eu não sei, mas sei que até os padres contam assim.

Mas voltando ao assunto porque uma pirâmide?
Se existe uma coisa que todo carioca e simpatizante concorda é a pergunta: porque, afinal, o monumento tem essa forma? Em um país habituado a monumentos como estátuas equestres ou obeliscos, a opção pela pirâmide tronca (uma pirâmide com o topo cortado) de 17 metros de altura causa estranhamento até hoje.
De acordo com o parecer técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que tombou o conjunto em 1992, a escolha formal remete à tradição dos monumentos funerários da antiguidade. “A pirâmide é a forma arquitetônica que melhor expressa a perpetuação da memória”, escreveu o arquiteto Lucio Costa em sua justificativa para o projeto, citado no processo de tombamento.
Mas há uma camada adicional de significado.
Uma posição privilegiada
Estudos de orientação astronômica realizados pelo Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, confirmam que o monumento foi deliberadamente alinhado com pontos geográficos e históricos significativos.
O vértice noroeste da pirâmide aponta diretamente para o Morro Cara de Cão, local onde Estácio de Sá instalou seu primeiro acampamento em 1565 e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
O geógrafo Maurício de Almeida Abreu, em sua obra “A Evolução Urbana do Rio de Janeiro”, documenta que o alinhamento foi verificado em campo pela comissão de obras, que utilizou instrumentos topográficos para garantir a precisão da orientação.

Além de Lúcio Costa quem mais participou do projeto?
A participação de Lucio Costa foi determinante. Embora o monumento seja frequentemente creditado apenas ao escultor Alexandre Chan, o projeto arquitetônico levou a assinatura do criador de Brasília. Além deles, houve a participação de dois nomes fundamentais da arte brasileira moderna.
O paisagismo do entorno imediato foi concebido por Roberto Burle Marx, que criou um espelho d’água circundando a base da pirâmide (hoje infelizmente desativado e seco) e um tratamento vegetal com espécies nativas que estabeleciam uma transição suave entre o monumento e o gramado do Aterro.
Já Anísio Medeiros, escultor pernambucano radicado no Rio, foi o responsável pelos relevos em bronze que decoram a face frontal do monumento. As placas retratam cenas da Batalha das Canoas e da fundação da cidade, em um estilo que mescla figuras geométricas abstratas e representações simbólicas dos combatentes.
O que tem lá dentro?
O acesso se dá por uma rampa a céu aberto, que conduz o visitante a uma porta de bronze acrescentada seis anos após a inauguração por Alfredo Ceschiatti, mesmo autor das famosas asas dos Anjos da Guarda, na Catedral do Rio, e das figuras do Palácio da Alvorada, em Brasília. O governador Negrão de Lima considerava a face frontal da pirâmide “muito nua” e desejava um elemento que atraísse o olhar do público.
Lá embaixo há um salão amplo e arejado, de cerca de 400 metros, que já abrigou até exposições fotográficas. Originalmente, no centro deste salão deveria ficar a lápide original de Estácio de Sá, com os restos mortais do saudoso e uma caixa contendo areia do local exato do desembarque português no Rio.
Este conjunto ficava antes na Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, e hoje encontra-se na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca. No interior da pirâmide do Flamengo existe uma réplica, que durante muito tempo fez muita gente inocente achar que o Estácio tinha agora vista para o mar.

Qual a situação atual do monumento?
Preocupante. Há pichações na base de granito, acúmulo de sujeira nos relevos de bronze e oxidação avançada em diversos elementos metálicos. O espelho d’água projetado por Burle Marx está seco e abandonado há mais de uma década.
No ano passado um homem em situação de rua quebrou a clarabóia e tentou se instalar lá dentro. De acordo com o levantamento mais recente do programa “Adote um Monumento”, da Prefeitura do Rio, o conjunto apresenta problemas estruturais que vão além da sujeira. Há fissuras em algumas placas de revestimento, infiltrações na base e perda de material em trechos dos relevos escultóricos. Um diagnóstico completo, realizado em 2022, estimou em cerca de R$ 1,2 milhão o custo das intervenções necessárias.


Deixe um comentário