Em junho de 1986, no estádio Nou Camp de León, México, onze jogadores iraquianos pisaram num gramado de Copa do Mundo pela primeira vez na história. Nenhum deles havia dormido direito na noite anterior. Não necessariamente por ansiedade esportiva. Eles haviam descoberto que agentes do serviço de inteligência de Saddam Hussein haviam instalado microfones nos seus quartos de hotel, na academia e até na sala de preleção do treinador, o brasileiro Evaristo de Macedo. Os Leões da Mesopotâmia, como orgulhosamente se autodenomina o escrete iraquiano, estavam em pânico.
Naquele ano, além de estrear na Copa do Mundo, o Iraque sangrava na guerra contra o Irã, e Saddam Hussein, como todo ditador de meia tigela, viu na participação no torneio uma vitrine perfeita para sua propaganda política. Na estreia, o time perdeu para o México por 1 a 0, e tudo ficou bem. Pelo menos por uns tempos.
A história da seleção iraquiana de futebol é, em essência, a história do Iraque comprimida em 90 minutos. Um país que sobreviveu a guerras, ditaduras, sanções internacionais, invasões estrangeiras, guerra civil, e ainda assim encontrou no futebol o único espaço onde sunitas, xiitas e curdos puderam, ao menos provisoriamente, ficar do mesmo lado.
Três brasileiros passaram por esse laboratório do absurdo como técnicos. Um deles sequer conseguiu receber seu salário. Nesta Copa do Mundo de 2026, para onde os Leões da Mesopotâmia retornam após quarenta anos, é a oportunidade de contar a história mais estranha, mais trágica e mais improvável do futebol internacional.

Bobeada em campo era CPF cancelado
Quando o Iraque estreou no Mundial, o país já acumulava seis anos da sangrenta Guerra Irã-Iraque, iniciada em 1980 com a invasão iraquiana do território persa, e que duraria até 1988. Os Leões da Mesopotâmia sequer puderam jogar as s eliminatórias em casa. Tiveram de buscar um campo neutro da Arábia Saudita.
Para o regime de Saddam Hussein, a classificação não era simplesmente esportiva. Era uma operação de relações públicas de Estado. Sua ideia era demonstrar ao mundo que o país funcionava com normalidade enquanto enviava jovens para morrer nas trincheiras de Basra. O jogador Ahmed-Rahim Hamed, que integrou o elenco de 1986 e testemunhou contra o regime no exílio anos depois, resumiu o clima da época: “Você sabia que se não jogasse bem, alguma coisa de muito ruim iria te acontecer”.
Agentes da Mukhabarat, o serviço secreto de Saddam Hussein, integraram a delegação no México disfarçados de diretores e membros da comissão técnica, com a função de monitorar a lealdade dos jogadores e da equipe ao regime. Quase houve um escândalo quando jornalistas e funcionários dos hotéis onde a delegação se hospedou descobriram a instalação dos aparelhos de escuta. Mas a FIFA, sendo a FIFA, cuidou de abafar o caso.

O que era a Mukhabarat?
Uma agência de aproximadamente 8.000 homens, que funcionava como uma espécie de CIA e FBI fundidos num único aparato repressivo, respondendo diretamente ao presidente. O nome significa, em árabe, “inteligência”. Seus agentes operavam dentro de estruturas estatais, partidos, sindicatos, embaixadas e organizações no exterior, sendo inclusive responsável por eliminações de opositores em solo estrangeiro.
A inserção de agentes da Mukhabarat em delegações iraquianas no exterior se insere nesse padrão de vigilância sistemática. A agência mantinha redes de informantes até em delegações culturais e esportivas, para monitorar a lealdade dos membros ao regime.
E no caso da Copa essa história toda começara dois anos antes.

O filho do Ditador…
Em 1984, Saddam Hussein nomeou seu filho mais velho, Uday Hussein, para presidir simultaneamente o Comitê Olímpico do Iraque e a Federação Iraquiana de Futebol. O nepobaby mal havia completado 20 anos. O que se seguiu foi um dos capítulos mais sombrios da história do esporte mundial.
Jogadores que fracassavam em partidas eram presos, espancados com barras de ferro, arrastados em pavimento quente até que suas costas ficassem em carne viva, e depois mergulhados em tanques de esgoto para que os ferimentos infectassem. Atletas que falhavam em cobranças de pênalti eram obrigados a chutar bolas pesadíssimas em calor extremo. Faltar a um treino resultava em pena de prisão.

…e a Fábrica do Terror
E o palco desse medo todo chamava-se Al-Radwaniya, uma prisão localizada nos arredores de Bagdá, que se tornara tão onipresente no cotidiano dos jogadores que, conforme documentado pelo site Iraq Football, muitos deles tinham o hábito de levar travesseiros no ônibus do time, caso fossem encaminhados diretamente do estádio para a cela sem passar em casa.
Al-Radwaniya era, segundo descrições de ex-detentos, uma instalação com “salas vermelhas”, grilhões nas paredes, caixas de aço com pregos voltados para dentro, choques elétricos e espancamentos diários. Era a cadeia particular de Uday. O ex-árbitro Ahmed Kadoim relatou ao portal These Football Times que certa vez foi preso ali durante dias simplesmente por se recusar a manipular o resultado de uma partida entre dois clubes locais a mando de Uday.
Quando a FIFA enviou investigadores ao Iraque para apurar as denúncias, nada foi concluído. Os atletas com marcas recentes de ferimentos eram escondidos antes das visitas, e ninguém ousava falar. “Depois de cada partida, o treinador assistente contava os erros de cada atleta e cada erro significava uma chibatada”, relatou o atacante Samir Kazin, que jogou pelo Iraque entre 1988 e 1999, em depoimento a um especial da ESPN em 2016. O goleiro Sharar Haydar contou no mesmo programa que seus companheiros brincavam uns com os outros sobre a impossibilidade de dizer a verdade durante a visita de inspetores da FIFA: “Ninguém jamais ia falar nada”, disse.
Copa da Ásia e um país em guerra civil
Em 2007, o Iraque vivia o auge de uma sangrenta guerra civil sectária, devido a conflitos internos entre diferentes vertentes religiosas e políticas. O país estava fragmentado e a população, aterrorizada. Uma série de atentados a bomba deixavam o país em estado de alerta permanente. A violência entre sunitas e xiitas estava no auge. Foi nesse contexto que o brasileiro Jorvan Vieira, pouco conhecido no Brasil, mas que treinou 23 clubes e seleções no mundo árabe, assumiu o comando dos Leões da Mesopotâmia.
“Todos nós temos um destino em nossas vidas, seja para nascer, seja para ficar doente, seja para morrer. Eu tinha a missão de dar alegria a um povo. O país vivia em guerra, havia divisões entre os curdos, xiitas e sunitas. Peguei uma seleção que era como um quebra-cabeça e conseguimos formar uma peça única que poderia dar frutos, vitórias, alegrias, felicidades”, disse ele, anos depois à Folha de S Paulo. “Não foi fácil porque 90% do meu grupo de trabalho já tinha perdido entes queridos no conflito. Eram pessoas que tinham cicatrizes muito profundas que nenhuma cirurgia poderia corrigir. Foi muito difícil convencê-los que estávamos ali para jogar futebol”.

Um milagre operado em campo
Antes da viagem para o torneio, o fisioterapeuta da seleção foi morto por um ataque suicida a bomba quando ia buscar as passagens de avião numa agência de viagens em Bagdá. Com a bola rolando, o Iraque derrotou a Austrália, empatou com Omã e a anfitriã Tailândia, venceu o Vietnã nas quartas de final e eliminou a Coreia do Sul nos pênaltis. Cada vitória foi seguida de comemorações monstruosas em Bagdá, que terminavam em carnificinas. Quando o Iraque se classificou para a semifinal, a aglomeração de torcedores nas ruas foi o pretexto para atentados que deixaram 50 mortos e 135 feridos.
A delegação considerou abandonar a final! Mas, segundo o relato de Jorvan Vieira, o que os fez continuar foi o apelo televisionado de uma mãe iraquiana que havia perdido o filho num atentado: ela disse que não o enterraria até que a seleção fosse campeã. E aí o milagre aconteceu. Em 29 de julho de 2007, o Iraque venceu a Arábia Saudita por 1 a 0, com gol de cabeça do capitão Younis Mahmoud, e se tornou campeão asiático pela primeira vez na história. O apito final funcionou como uma espécie de suspensão temporária da realidade.
Segundo a Al-Jazeera, sunitas, xiitas e curdos saíram juntos às ruas de Bagdá. Policiais e soldados que faziam patrulha entraram na festa. Em bairros que estavam em guerra entre si havia dias, bandeiras iraquianas foram hasteadas por alegria, não por protesto ou morte. O título tornou-se um dos maiores símbolos de identidade nacional da história recente do país, um dos poucos momentos em que o Iraque se reconheceu como uma nação, e não como um campo de batalha fracionado.

Brasileiros no banco: Evaristo, Jorvan e Zico
Três técnicos brasileiros dirigiram a seleção iraquiana em momentos históricos distintos. Evaristo de Macedo, lenda do Flamengo, Barcelona e Real Madrid, foi o responsável pela única classificação ao Mundial do Iraque antes de 2026. Evaristo assumiu o cargo apenas 28 dias antes da estreia e ainda lidou com a lesão do líbero Adnan Derjal num jogo-treino em Toluca. O Iraque perdeu todas as três partidas no México.
Jorvan Vieira, como visto acima, ganhou a Copa da Ásia de 2007 em condições que fariam qualquer diretor técnico de futebol europeu passar dias rolando no chão do quarto da concentração em posição fetal.
Zico chegou em agosto de 2011 com contrato até 2014. E no Iraque viveu uma das mais bizarras situações de sua carreira. Numa tarde do início de 2012, ao chegar para o treino, encontrou dois jogadores devidamente uniformizados que ele não reconheceu. Ao pedir informações, disseram-lhe que o presidente da federação havia mandado incluir a dupla no time. Zico mandou os dois trocar de roupa e correrem dali. No embalo, aproveitou a deixa de que ainda não havia recebido nem um mês de seus salários e deixou a seleção.


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