Operadoras de internet são impedidas de entrar em comunidades de Niterói por ordem do tráfico

Criminosos estariam proibindo trabalho de técnicos no entorno do Parque Orla, em Piratininga

Moradores de comunidades no entorno do Parque Orla, em Piratininga, na Região Oceânica, relatam estar sendo obrigados a utilizar um único serviço de internet na região, após criminosos supostamente estarem impedindo a entrada de técnicos de manutenção e instalação de internet de operadoras de telefonia. O problema estaria atingindo principalmente as comunidades da Barreira e Ciclovia.

O GLOBO-Niterói teve acesso a uma troca de mensagens na qual um profissional explica o motivo de não ser capaz de fazer o religamento da internet na casa de um morador, que teve o fornecimento de internet cortado há cerca de 15 dias.

“Se eu não me engano, o pessoal do tráfico cortou e proibiu nossa entrada aí”, afirma o técnico.

Uma nota do suporte de uma das operadoras que prestavam serviço na região também expõe o mesmo problema.

“Prezado cliente, sua região enfrenta problemas de segurança pública e, por medida preventiva, as equipes técnicas estão impossibilitadas de entrar e prestar qualquer atendimento no local em razão de ameaças físicas aos técnicos. Por isso, informamos que essa situação foge ao controle da empresa e reiteramos que, no momento, não há previsão para normalização. Estamos acionando os órgãos de segurança pública para viabilizar o atendimento na localidade o mais rápido possível”, diz o texto.

— Nós cobramos das operadoras, mas nos sentimos de mãos atadas, pois não podemos nos expor. Toda hora tem olheiros deles. Já os vi na rua do supermercado Rede Economia, na Rua Osíris Pitanga… Todas as ruas de acesso à Lagoa de Piratininga estão sitiadas — conta uma moradora, que preferiu não se identificar.

Ela relata ainda que anúncios de um serviço de internet vêm sendo colados nos muros do bairro, e os moradores ficaram apenas com essa opção. Nos postes da região, a moradora diz que as caixas com pontos de fixação da internet foram removidas ou destruídas, permanecendo apenas o serviço autorizado pelos criminosos.

Quem se viu obrigado a adquirir o serviço de internet lamenta a instabilidade do fornecimento e os altos preços: o plano mais barato custa quase R$ 100. Enquanto isso, devido ao corte do fornecimento, clientes das operadoras vêm cancelando a internet.

— Não podem entrar para fazer manutenção, cortaram as caixas e ameaçam os técnicos. Enquanto isso, o pessoal está cancelando o serviço. Não dá para pagar serviço de internet sem ter — protesta a moradora.

O que diz a polícia

Procurada, a Oi, que presta serviço de internet no local, afirmou que está concluindo a venda da Clientco, empresa do grupo que comercializa a Oi Fibra, para a V.tal, e que futuramente ficará apenas com clientes corporativos.

A Oi e as outras empresas de telefonia que fornecem internet na região informam que demandas relacionadas à segurança pública são respondidos pela Conexis, sindicato que responde pelas operadoras de telecomunicações.

De acordo com a Conexis, o problema do bloqueio de acesso das equipes das prestadoras para a manutenção de seus equipamentos se soma ao roubo e vandalismo de cabos, geradores e baterias, entre outros equipamentos usados para a prestação do serviço.

“As operadoras ficam sem acesso aos equipamentos e impedidas de dar a manutenção necessária à prestação do serviço. O setor de telecomunicações defende uma ação coordenada de segurança pública, envolvendo o Judiciário, o Legislativo e o Executivo, tanto o federal, quanto os estaduais e municipais, e a aprovação de projetos de lei que aumentem a punição para esses crimes e ajudem a combater essas ações criminosas”, defende o sindicato.

De acordo com a Polícia Civil, o fato vem sendo apurado pela 81ª Delegacia de Polícia, em Itaipu, que investiga a ação de grupos criminosos na região.

“Agentes realizam diligências para identificar e responsabilizar criminalmente os envolvidos”, diz o órgão, em nota.

Parque Orla Piratininga

A queixa não é nova. Em 2021, operadoras de internet em bairros como Piratininga, Jacaré e Engenho do Mato já vinham realizando denúncias semelhantes. Na época, a Polícia Civil apresentou a mesma resposta.

A coerção que os moradores vêm sofrendo por criminosos para utilizarem o serviço de internet ocorre na vizinhança do Parque Orla Piratininga, reconhecido internacionalmente com prêmios de sustentabilidade e de melhor projeto ambiental.

O espaço fica entre a praia e a lagoa, e é uma atração turística, com área de exposição, anfiteatro, guarderia de caiaques e pranchas e restaurante. O local ainda dispõe de um berçário de jacarés-de-papo-amarelo, com área para visitação do público. De acordo com uma moradora, nem o local está livre dos criminosos.

— Toda a orla está dominada, até o berçário dos jacarés, e nós, clientes, ficamos sem o serviço. Precisamos de internet para tudo, mas eu não vou instalar a deles — conclui.

Com informações de O GLOBO.

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