Operação Icarus: Quem são os alvos de ação da Polícia Civil contra rede suspeita de abastecer o Comando Vermelho

Um homem apontado como liderança do Comando Vermelho, dois policiais militares acusados de dar apoio armado e uma cadeia de operadores responsáveis pelo transporte, cobrança e distribuição de drogas estão entre os alvos da ação interestadual realizada pela Polícia Civil contra um esquema de abastecimento da facção entre diferentes estados. Até o momento, seis pessoas…

Adicione o Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

Um homem apontado como liderança do Comando Vermelho, dois policiais militares acusados de dar apoio armado e uma cadeia de operadores responsáveis pelo transporte, cobrança e distribuição de drogas estão entre os alvos da ação interestadual realizada pela Polícia Civil contra um esquema de abastecimento da facção entre diferentes estados.

Até o momento, seis pessoas foram presas, incluindo Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, o “Boss”, detido na segunda-feira (21), em Maceió. Também estão na mira os policiais militares Claudio Tavares da Silveira e Diego Portella Batista, que teriam prestado apoio e feito serviços à facção.

Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio, Boss, apontado como principal alvo, atuava como fornecedor de drogas e um dos articuladores do esquema, mantendo contato direto com lideranças do CV para organizar o abastecimento de comunidades no Rio. As investigações apontam que ele negociava as cargas, organizava fretes e pagamentos, coordenava os responsáveis pela logística e utilizava outras pessoas para movimentar o dinheiro do tráfico. 

Boss também teria assumido uma posição anteriormente ocupada por Marcos Antônio Pereira Firmino da Silva, o My Thor, uma das lideranças do Comando Vermelho, atualmente preso.

Boss evitava exposição e mudava de endereço

Segundo o promotor Décio Alonso, do Ministério Público do Rio, Boss conseguiu permanecer durante anos distante das investigações porque evitava exposição e mudava constantemente de endereço.

Mesmo mantendo uma rotina discreta, Laércio teria participação direta nas decisões financeiras e operacionais do grupo. No Rio, segundo o MP, ele fornecia drogas para o CV e mantinha contatos com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) em outros estados, principalmente em São Paulo.

Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, o Boss foi preso em Alagoas | Crédito: Divulgação/ Polícia Civil

A investigação indica que essa relação serviria para facilitar a passagem de cargas por áreas controladas pelo PCC e para movimentações financeiras em São Paulo. De acordo com o Ministério Público, não foram encontrados indícios de que Boss também fornecesse drogas à facção paulista.

Na ação que terminou com a prisão de Boss em Maceió, policiais encontraram tênis da Prada e da Dolce & Gabbana, óculos da Louis Vuitton, relógios e outras peças de grife. Ainda não se sabe, porém, se os produtos são originais.  

Investigação aponta participação de policiais em esquema do CV

Dois policiais militares também aparecem entre os denunciados na rede criminosa. Segundo as investigações, Claudio Tavares da Silveira e Diego Portella Batista prestavam apoio armado ao grupo e participavam da logística do esquema. 

A atuação atribuída aos PMs incluía a escolta de cargas de drogas e de integrantes do grupo, além de segurança armada, distribuição dos entorpecentes e recolhimento de dinheiro. Os dois foram presos. Procurada, a Polícia Militar informou que a Corregedoria Geral da corporação apoia a operação e confirmou a prisão dos dois agentes. A PM não informou a graduação dos policiais, as unidades em que estavam lotados nem se foi aberto procedimento administrativo.

Um policial civil também é investigado por suspeita de participação no esquema. O nome dele não foi divulgado. Segundo o delegado Alexandre Capote, responsável pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil, o agente atuaria no núcleo financeiro e ajudaria a ocultar valores obtidos com o tráfico.

“O policial civil tinha um papel muito importante no núcleo financeiro desse grupo criminoso. Ele era o responsável por ocultar os valores auferidos pela organização criminosa com o comércio ilícito de entorpecentes”, disse em entrevista ao Bom Dia Rio, da TV Globo.

O Ministério Público aponta ainda que o policial fazia contato com fornecedores e participava da articulação para obtenção de drogas, inclusive com pessoas da Região Norte do país.

Quem fazia o transporte e a distribuição

Ao todo, foram expedidos 15 mandados de prisão preventiva por associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Além de Laércio e dos policiais, a investigação também identificou suspeitos com funções específicas na movimentação das cargas.

Petterson Suzuki Marques Trindade, o Pet; Rafael de Menezes Faustino, o Alemão; Renato Ivo de Oliveira; e Felipe Santos de Oliveira são apontados como responsáveis pela logística, pelo transporte e pela cobrança de valores.

Outro grupo receberia as drogas no Rio para redistribuí-las. Segundo os investigadores, faziam parte desse núcleo Pedro Henrique Mesquita da Silva, o Tiquinho; Thiago Claudio Duarte Chagas, o Cabeça; Matheus Eduardo Tentempo Lima, o Dourado; Anderson Santanna da Silva, o Gão; Anderson Adriano de Oliveira, o Dnort; e Bruno de Lemo Garcia, o Bruninho. Já Alsuece Alves de Assis, o Sussu, e Simone Alexandrino são apontados como laranjas usados para movimentar recursos do grupo.

Anotações de My Thor levaram a Boss

A investigação começou a avançar após a apreensão de anotações atribuídas a My Thor, apontado pelas forças de segurança como um dos líderes históricos do CV. Mesmo preso no Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, ele seguiria agindo como um dos chefes da facção.

Nos registros, policiais encontraram dados relacionados à contabilidade do tráfico e pagamentos feitos a uma pessoa identificada como Boss. A partir dessas informações, a Polícia Civil passou a apurar a atuação de Laércio e identificou os diferentes núcleos responsáveis pelo fornecimento, transporte e distribuição das drogas e pela movimentação do dinheiro.

Marcos Antônio Pereira Firmino da Silva, o My Thor, uma das lideranças do Comando Vermelho, atualmente preso | Reprodução

Preso pela primeira vez em maio de 2000, My Thor comandava o tráfico de drogas no Morro Santo Amaro e exercia forte influência sobre outras comunidades da capital fluminense. Ao longo dos anos, acumulou condenações por crimes como tráfico de drogas, homicídios, associação criminosa e roubo, além de dezenas de anotações criminais.

Em agosto deste ano, o traficante foi denunciado pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ) por tentativa de homicídio contra cinco pessoas durante uma festa junina realizada no Morro Santo Amaro, no Catete, Zona Sul do Rio, no ano passado. Ele chegou a cumprir pena em Bangu 3 e, em diferentes momentos, chegou a ser transferido para o Sistema Penitenciário Federal por ser considerado uma liderança de alta periculosidade

Segundo o promotor Décio Alonso, Boss teria assumido parte da posição ocupada anteriormente por My Thor dentro da estrutura da facção. “Na escala de hierarquia, ele está abaixo do My Thor, que está fora de jogo por estar preso, e ele assumiu essa posição de liderança, determinando como funcionava a parte financeira dessa facção quanto a parte operacional”, afirmou.

A investigação aponta que, a partir dessa nova posição, Boss passou a articular o abastecimento de drogas com lideranças da facção e a coordenar etapas que iam da negociação das cargas aos fretes, pagamentos e operadores responsáveis pela logística.

Duas grandes apreensões foram relacionadas pelos investigadores a essa estrutura. Em fevereiro de 2024, foram encontrados 715,7 quilos de cocaína e maconha em Guarulhos, em São Paulo. Três meses depois, outros 73,8 quilos de cocaína foram apreendidos em Seropédica, na Região Metropolitana do Rio.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo