Ofensiva digital de Lula assusta campanha de Flávio Bolsonaro e provoca reação

Crescimento da mobilização petista no WhatsApp preocupa aliados do senador, que reforçam estratégias nas redes e recorrem à Justiça Eleitoral

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A intensificação da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, acendeu um sinal de alerta entre os aliados de Flávio Bolsonaro (PL). Apesar de ter encerrado o primeiro turno à frente do petista, o senador enfrenta uma ofensiva digital de adversários que buscam ampliar a circulação de conteúdos políticos, conquistar eleitores indecisos e atrair votos de candidatos derrotados.

A principal preocupação da equipe de Flávio está na dificuldade de acompanhar a disseminação de mensagens pelo WhatsApp. Diferentemente de plataformas como Instagram e X, onde publicações podem ser identificadas e contestadas publicamente, grande parte das conversas no aplicativo ocorre em grupos privados, o que limita o monitoramento das campanhas.

Diante desse cenário, o PL passou a organizar uma reação nas plataformas digitais, reforçando seus próprios canais de comunicação e recorrendo à Justiça Eleitoral para contestar conteúdos que considera falsos ou descontextualizados.

Janones mobiliza apoiadores

Um dos principais responsáveis pela mobilização digital favorável a Lula é o deputado federal André Janones (Rede-MG), que criou no WhatsApp um canal chamado “Exército do Lula”.

A iniciativa reúne conteúdos favoráveis ao presidente e busca estimular a participação de apoiadores na campanha do segundo turno. Segundo os números apresentados, o canal passou de 50 mil para 3 milhões de seguidores desde a primeira etapa da eleição.

O crescimento chamou a atenção de integrantes da campanha bolsonarista, que consideram o aplicativo um dos principais espaços de disputa política neste momento.

Dois integrantes da equipe de Flávio, ouvidos reservadamente, reconheceram que a preocupação com o WhatsApp supera a existente em relação a outras plataformas. Um deles classificou o canal de Janones como apenas a “ponta do iceberg” da mobilização petista.

A distribuição de mensagens em grupos e canais também faz parte das estratégias utilizadas por apoiadores da direita, que procuram ampliar o alcance de conteúdos favoráveis ao candidato do PL.

Flávio convoca reação

Na quinta-feira (8), Flávio Bolsonaro dedicou parte de uma transmissão ao vivo nas redes sociais a denúncias de que estaria sendo alvo de montagens e informações falsas. Durante a transmissão, o candidato incentivou seus apoiadores a ingressarem no canal “Tropa do Flávio”, criado no WhatsApp para reunir a militância e divulgar conteúdos de campanha.

A reação também envolveu parlamentares aliados. O deputado federal e senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO) classificou a mobilização organizada por Janones como “milícia digital”, acusou o PT de disseminar notícias falsas e defendeu uma resposta mais intensa dos bolsonaristas.

O tema já havia sido discutido na quarta-feira (7), durante uma reunião promovida pelo PL com governadores e parlamentares eleitos. No encontro, o responsável pelo marketing da campanha, Duda Lima, e o coordenador político Rogério Marinho (PL-RN) afirmaram que os adversários estariam operando uma “fábrica de fake news”.

Duda Lima criticou especialmente mensagens que associam uma eventual vitória de Flávio ao fim de programas sociais. “Vocês sabem por que eles estão fazendo isso, gente? É uma estratégia que se usa para implementar medo. ‘Ah, mas se o Flávio for eleito vai tirar o Bolsa Família.’ Que bobagem, é lógico que não vai tirar”, afirmou.

Corte de gastos entra no debate

Uma das principais controvérsias da disputa digital envolve as propostas econômicas de Flávio Bolsonaro. A equipe responsável pela elaboração do programa do candidato estuda medidas fiscais que poderiam representar uma redução de despesas equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB), estimada em aproximadamente R$ 250 bilhões.

Entre as possibilidades em discussão estão mudanças em regras relacionadas à Previdência e aos gastos com saúde e educação. O candidato, entretanto, afirma que não pretende promover cortes que prejudiquem a população de menor renda ou os aposentados.

A ausência de detalhes sobre quais despesas seriam efetivamente reduzidas abriu espaço para questionamentos de integrantes do governo e da campanha petista. A ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, cobrou esclarecimentos sobre os impactos das medidas.

“Anunciar o tamanho da tesoura é fácil. O que precisa ser explicado é onde a tesoura vai passar e o que vai mudar na vida das brasileiras e dos brasileiros, na vida de quem depende de serviços públicos. Cadê a lista da tesoura?”, questionou.

Como parte da reação, a campanha de Flávio decidiu disponibilizar um site com esclarecimentos sobre suas propostas e posicionamentos em relação a programas como Bolsa Família, Farmácia Popular e Pé-de-Meia.

A iniciativa busca responder a conteúdos que circulam nas redes sociais sobre uma eventual extinção desses benefícios.

Disputa chega ao TSE

A ofensiva nas redes também passou a mobilizar as equipes jurídicas dos candidatos. Advogados de Flávio Bolsonaro acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alegando que o senador estaria sendo alvo de 16 grupos organizados para divulgar conteúdos falsos ou apresentados fora de contexto.

Na ação, a defesa mencionou um suposto “desespero pós-primeiro turno” e denunciou um “derrame de desinformação nas redes”. Os representantes do candidato também defenderam a aplicação de punições e medidas para impedir a continuidade das publicações questionadas.

Na quinta-feira (8), o ministro André Mendonça determinou a retirada de postagens feitas por André Janones e pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ).

As publicações afirmavam que Flávio preparava três medidas prejudiciais aos trabalhadores: elevar a idade mínima para aposentadoria, aumentar a jornada de trabalho e implementar uma escala de trabalho de sete dias consecutivos, chamada de “7×0”.

As alegações foram contestadas pela campanha do PL, que recorreu à Justiça Eleitoral. Em outras decisões, Mendonça e o ministro Kassio Nunes Marques também determinaram a remoção de publicações feitas pelo próprio Lula e pela primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.

As determinações mostram como a disputa eleitoral passou a envolver não apenas a divulgação de propostas, mas também questionamentos judiciais sobre o conteúdo publicado pelos dois campos políticos.

Petistas também denunciam ataques

A campanha de Lula, por sua vez, afirma que também enfrenta a disseminação de informações falsas por parte de adversários. A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) anunciou que pretende recorrer à Justiça contra o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG), a quem acusa de divulgar uma informação falsa sobre um suposto fechamento de igrejas.

Em vídeo publicado nas redes sociais, Ana Elisa associou os ataques ao crescimento da mobilização digital em defesa da reeleição do presidente. “E o garotão de Brasília já começou a se incomodar com o fato do crescimento da campanha do presidente Lula. Já pensou se nós não estivéssemos trabalhando?”, declarou.

O confronto digital ocorre em um momento em que as duas campanhas procuram ampliar sua comunicação com o eleitorado para além dos meios tradicionais de propaganda eleitoral.

Com a aproximação da votação do segundo turno, o WhatsApp se tornou um dos principais focos de atenção das equipes políticas. A dificuldade de acompanhar a circulação de mensagens privadas, somada ao aumento das denúncias de desinformação, coloca a atuação das plataformas e da Justiça Eleitoral no centro da disputa presidencial.

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