O trem com a pior fama e o mais incompreendido da América do Sul voltou a circular com passageiros, depois de seis anos parado, e resolveu que a melhor forma de reconquistar a confiança do público era manter o apelido que assusta turistas desde a década de 1950: Trem da Morte. Batizado oficialmente de Expresso Oriental, ele liga a fronteira do Brasil, em Corumbá, Mato Grosso do Sul, à cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, percorrendo cerca de 600 quilômetros em até 17 horas sob a responsabilidade da concessionária Ferroviária Oriental. Você encararia essa?
O turismo na Bolívia, como se vê, é pragmático. Depois desse tempo todo com os carros parados (quem tem vagão é trem de carga), optou pelo caminho oposto: em vez de esconder o esqueleto no armário, colocou o esqueleto na propaganda turística e torceu para que o mistério vendesse mais do que assusta.
O resultado é uma composição de 42 lugares, recém-reformada, tentando equilibrar duas identidades que brigam entre si a cada estação. A de atração cultural genuína, com paisagens da Chiquitania e vilarejos jesuíticos, e a de sobrevivência ferroviária, com bagagens amontoadas, talvez um vizinho com galinhas e um trajeto que ainda anda devagar o suficiente para testar a paciência do mais zen dos passageiros. Mas antes de embarcar, vale entender de onde vem esse nome, por que ele sumiu por tanto tempo e o que, de fato, esperar dos trilhos.

Qual é a origem do Expresso Oriental?
A história da ferrovia remonta a 1938, nascida de um tratado bilateral assinado entre o Brasil e a Bolívia. O acordo previa que o governo brasileiro financiaria a construção da linha férrea em troca do acesso ao petróleo e gás bolivianos, criando uma conexão entre o porto seco de Puerto Quijarro e a a região de Santa Cruz de la Sierra. Mas ela só foi construída na década de 1950, ligando o leste boliviano à fronteira brasileira.
A linha nunca foi pensada apenas para turistas: a operadora, Ferroviária Oriental S.A., é especializada em transporte de cargas e conecta a região leste e sul da Bolívia ao Brasil e à Argentina, escoando produtos até cidades portuárias.
Durante décadas, o trem foi o principal meio de transporte para moradores da região da Chiquitania, comerciantes, trabalhadores e viajantes que cruzavam o país. Com a retomada em 2026, o Expresso Oriental passou a combinar sua função regional com um forte apelo turístico, buscando atrair também visitantes estrangeiros interessados em conhecer uma Bolívia distante dos roteiros tradicionais.

De onde saiu esse nome “Trem da Morte”?
Ao contrário do que a imaginação dos mochileiros mais assustados ou enfumaçados sugere, o apelido macabro não surgiu por causa de descarrilamentos em penhascos colossais. Fontes históricas locais apontam que a alcunha nasceu durante a própria construção e os primeiros anos de operação da ferrovia. Naquela época, a região enfrentou um grave surto de febre amarela e malária, e o trem era o único meio de transporte disponível para escoar os corpos dos trabalhadores falecidos e os doentes graves até os centros médicos.
O transporte constante de enfermos sob condições sanitárias extremamente precárias acabou selando a reputação sombria do trem. Com o passar das décadas, o nome de batismo “Expresso Oriental” foi sendo engolido pelo folclore popular, que preferiu eternizar a rota como o temido Trem da Morte. Na década de 1990, o trem chegou a ser usado por traficantes para transporte de cocaína, o que rendia batidas policiais que nem sempre terminavam em um bate-papo tranquilo entre homens armados.
Como é a viagem?
Bom, como falamos acima são 600 quilômetros percorridos em no mínimo 17 horas. O trem realiza o que viajantes chamam de pinga-pinga, parando em pequenos vilarejos ao longo do caminho, o que significa que, no vagão mais barato, não é incomum dividir o espaço com galinhas ou com um ambulante vendendo nacos de carne de um porco assado, carregado no ombro. E isso é o mais perto da morte que você vai encontrar aqui.
A experiência muda bastante conforme a classe. No Ferrobus, os assentos reclinam até 170 graus, quase uma cama, e os vagões contam com ar-condicionado, televisão, serviço de bordo e música ambiente. Já no Mixto, a categoria mais econômica, o cenário é mais espartano, sem ar-condicionado e com o mínimo de conforto possível, o que faz muitos mochileiros escolherem essa opção mesmo assim, simplesmente pelo preço.

O que tem pelo caminho?
O trajeto atravessa a Chiquitania, região do leste boliviano conhecida por florestas preservadas, vales e áreas de cerrado. Um dos pontos altos é Chochís, pequeno povoado cujo nome significa fúria do vento na língua chiquitana, e que abriga a Torre de Chochís, uma formação rochosa também chamada de Muela del Diablo, dentro de uma área protegida que funciona como santuário mariano. Chochís é o hype do momento. A região virou um badaladérrimo point de ufologia desde 2016, quando foram registrados, segundo a imprensa, os primeiros avistamentos em torno da torre.
Outro destaque é San José de Chiquitos, terceira mais antiga das missões jesuíticas da região, fundada em 1696, com uma igreja de pedra que hoje integra o conjunto de missões declaradas Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1990 A região ainda oferece as águas termais de Águas Calientes, com piscinas naturais de lama quente conhecidas como los hervores, e o mirante de Santiago de Chiquitos, de onde é possível observar bandos de araras coloridas voando ao entardecer sobre o vale de Tucavaca.

Para quem esta aventura é recomendada?
O Trem da Morte não é uma viagem de luxo, mas também não é mais o terror sanitário do passado. É recomendado para mochileiros, aventureiros ou qualquer pessoa que queira cruzar a fronteira de forma diferente, não se importa com um trajeto lento nem com paradas constantes que podem tornar a viagem memorável.
Quem busca conforto 5 estrelas, silêncio absoluto e Wi-Fi a bordo vai se decepcionar. Mas quem quer uma experiência autêntica, com paisagens de cinema e histórias para mitar no churrascão de domingo, vai adorar. O trajeto também é um clássico entre os mochileiros que seguem viagem até Machu Picchu, o Salar de Uyuni ou o Deserto do Atacama.
O que se come a bordo?
O trem dispõe de um vagão-restaurante simples onde são servidos pratos rápidos da culinária boliviana, como o tradicional majadito (arroz com charque e banana frita) e frango com arroz. Também são vendidos lanches industriais, refrigerantes, água mineral e à vezes tem vinho ou cerveja.
Durante as paradas estratégicas ao longo das estações intermediárias, vendedores locais aproximam-se das janelas oferecendo salteñas frescas, empanadas de queijo e refrescos artesanais de pêssego ou limão. Para os estômagos mais sensíveis, os guias locais recomendam sempre priorizar alimentos industrializados ou levar os próprios lanches de casa para evitar desconfortos gastrointestinais durante o longo percurso de até 17 horas.

Por que ele ficou seis anos sem operar passageiros?
Em parte, pela pandemia do Covid-19, embora o transporte de cargas tenha continuado normalmente durante todo esse período, e muito pela baixa demanda. Segundo a Ferroviaria Oriental e o Ministério de Obras Públicas da Bolívia, foi necessário realizar um processo de recuperação dos vagões, manutenção da infraestrutura e reorganização do serviço antes da retomada das operações.
O retorno foi planejado como parte de um esforço para fortalecer a integração regional da Chiquitania e do Pantanal boliviano. Agora, a empresa aposta em uma proposta mais voltada ao turismo, com mais conforto e uma experiência que, segundo as autoridades bolivianas, deve manter uma taxa de ocupação entre 90% e 100% nas viagens semanais.
Como embarcar nessa?
Tecnicamente, o trem não parte do lado brasileiro. Quem vem do Brasil precisa cruzar a fronteira a pé, de táxi ou de ônibus a partir de Corumbá até Puerto Quijarro, já em território boliviano, onde fica a estação de embarque. Essa é a parte mais cara da brincadeira. De avião, com pelo menos uma conexão, as passagens saem em torno dos R$ 1.300. De ônibus, são cerca de R$ 500 em média, para um estirão de 19 horas de viagem.
Depois de cruzar a fronteira, a estação de Puerto Quijarro fica a cerca de dois quilômetros do posto de imigração. A partir dali, sim, é possível seguir de trem direto até Santa Cruz de la Sierra, sem necessidade de trocar de meio de transporte no meio do caminho.
O custo para realizar a travessia completa é surpreendentemente acessível, o que impulsiona a alta procura internacional. O bilhete para o trajeto de 600 quilômetros custa entre 220 e 230 bolivianos ou que dá uns R$ 170,00. Os bilhetes podem ser adquiridos diretamente nas bilheterias das estações de partida ou de forma antecipada pelo site oficial de vendas Tickets Bolivia.

Qual é a melhor época para viajar?
A melhor época para encarar a ferrovia coincide com o período de seca, que vai de maio a setembro. Durante esses meses, as temperaturas na Chiquitania são mais amenas e o risco de interrupções na linha férrea devido a chuvas fortes e lamaçais é consideravelmente menor.
Viajar no auge do verão (dezembro a março) pode se traduzir em tempestades tropicais que atrasam o cronograma do trem, além de expor o passageiro ao calor úmido e intenso característico da região chaco-pantaneira.


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