O TETRA DE EDUARDO PAES     

O prefeito soube administrar a sua cristalina vantagem, esfriando a campanha e não se expondo, além da conta, ao tiroteio com os adversários.

HUDSON CARVALHO  

Após a vitória de hoje, ao assumir o seu quarto mandato no dia 1º de janeiro de 2025, Eduardo Paes tornar-se-á o prefeito com mais tempo a comandar os destinos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, superando o seu ex-preceptor Cesar Maia, que ficou à frente da prefeitura por 12 anos. Além disso, converter-se-á no burgomestre brasileiro a dirigir, por maior período, uma metrópole com a dimensão e a importância do Rio. E não menos relevante: sempre respaldado pelo voto.

Cada eleição carrega as suas peculiaridades e distinções.  Faz-se erro crasso e recorrente de políticos e da imprensa igualá-las, como costumam tratar os adeptos das elocubrações precoces. Neste exato momento, já pululam emanações estouvadas dos especialistas em relação aos pleitos de 2026, baseando-se nos resultados presentes e em superficiais teorizações premonitórias. Escrutínios municipais e gerais diferem-se absurdamente. E, mesmo entre matrizes e atores comuns, prevalecem as incertezas. Há uma semana, a Folha de S. Paulo celebrou essas diferenças no editorial “É bom que as eleições municipais tenham lógica própria”, amparada na constatação das pesquisas referente à limitação do apoio de líderes nacionais no asselvajado confronto da capital paulistana.  

Os estimados pesos eleitorais de Lula e Bolsonaro planaram sobre as disputas municipais, como ilusórios balões de esperança. E já alertara o saudoso e doce poeta Mario Quintana: “A esperança é um urubu pintado de verde”. Como acontecera em 2020, Lula e Bolsonaro tiveram influência residual, excetuando em um ou outro burgo, e os seus partidos apenas coadjuvaram nacionalmente. Em sufrágios municipais, as ideologias minguam, as premências do cotidiano do eleitor se impõem e o instituto da reeleição predomina em favor dos incumbentes bem avaliados pelos citadinos. Por isso, parece exagerado e injusto danar Lula e Bolsonaro pela insuficiência de suas legendas nas urnas.

Houve, porém, alguns movimentos políticos que ajudaram a sedimentar o triunfo de Eduardo Paes no primeiro turno. Aglutinar os maiores partidos de esquerda provou-se, inicialmente, um imenso acerto estratégico. Rotineiramente, nas eleições à Prefeitura do Rio, as siglas esquerdistas lançavam três ou quatro candidatos e, na reta final do primeiro turno, um deles canibalizava os demais pelo voto útil e se habilitava a perspectiva de uma vaga no segundo turno, com algo entre 16% e 20%. Dessa vez, com a adesão de expressivos segmentos colorados ao prefeito desde a largada, Tarcísio Motta não dispôs de ninguém para canibalizar. Ao contrário; ele é quem foi canibalizado, tendo uma votação abaixo do previsto, com a migração de parcela dos seus eventuais simpatizantes para o prefeito, visto também pelos círculos vanguardistas como anteparo ao bolsonarismo e aos bestializados pablos marçais da vida.

Consolidada a aliança com a esquerda orgânica, o prefeito resistiu às pressões para ceder a vaga de vice ao PT, minimizando a probabilidade de a incivil polarização diluviana encharcar o processo eleitoral carioca. Há de se lembrar que o liberal pragmático Eduardo Paes sempre abrigou as esquerdas no seu secretariado desde o primeiro mandato. No entanto, tendo administração exitosa a mostrar, não interessava ao alcaide trazer para o proscênio o antagonismo que esteriliza o país. As parcerias com o governo Lula foram sublinhadas homeopaticamente, e Bolsonaro não foi hostilizado pessoalmente. Com o PT de fora da chapa e Bolsonaro deixado de lado, abriram-se as portas para a reaproximação do prefeito com lideranças bolsonaristas do universo evangélico, que já o haviam apoiado em outras ocasiões. E essa conexão revelou-se fundamental para travar a esperada evolução de Ramagem, à medida que se fazia conhecido, junto a significativo contingente do eleitorado bolsonarista. Ramagem não conseguiu contar sequer com um pastor influente que vocalizasse, publicamente, a seu favor. E importante: as referências evangélicas que abraçaram Eduardo Paes, por ação ou omissão, não romperam com Bolsonaro e continuam bolsonaristas. O dique construído pelo prefeito com os evangélicos estancou as possibilidades de Ramagem crescer nas pesquisas e de alcançar o patamar compatível com o tamanho da direita hoje na cidade, que é de cerca de 35%. Ou seja, com parte considerável dos seus possíveis afins optando por Eduardo Paes, Ramagem ficou aquém do potencial do próprio bolsonarismo.

A comunhão pragmática e crucial de Eduardo Paes com a esquerda orgânica e a direita popular só se estabeleceu, contudo, em função do profícuo e reconhecido governo do prefeito, que lastreava o seu indubitável favoritismo. Prussiana dedicação à labuta e excepcional vocação gerencial alicerçam a trajetória do prefeito. O resto é consequência. Goste-se ou não de Eduardo Paes, ele trabalha muito, tem uma capacidade de gestão incomum, possui espírito público e espelha o imaginário da alma carioca. E, atualmente, até o exagerado estilo brodista do prefeito harmonizou-se com a linguagem hegemônica das redes sociais, que se firmaram como primordiais difusoras dos impulsos motivadores e determinantes nos cursos eleitorais. Aos olhos do calejado presidente Lula, “Eduardo Paes é o maior gerente de prefeitura que o país já teve”. As suas administrações proporcionaram reais avanços para a população, sobretudo para os mais pobres. E a cidade melhorou consideravelmente, embora continue permeada de problemas. Ideologicamente flexível, o prefeito acomoda-se tanto à direita quanto à esquerda. Na sua távola de conselheiros próximos, sentam-se uma base política, majoritariamente, conservadora e um núcleo de comunicação, prevalentemente, progressista, mas não doutrinário.

Registre-se também que o elenco de candidatos e a distribuição das forças políticas foram moldados pelo espectro do favoritismo do prefeito na pré-campanha, que inibiu algumas pretensões e enxugou o quadro de postulantes. Com a decisão da família Bolsonaro de ficar fora do páreo diretamente, o PL custou a definir o seu representante, depois de conjecturar com vários nomes de baixo teor eleitoral. A escolha acabou recaindo sobre o desconhecido e insosso Alexandre Ramagem, que carece de carisma e de identidade com a cidade. A favor do delegado Ramagem apresentava-se a sua familiaridade com a questão que mais atormenta o carioca no momento – a segurança. Para o grosso dos votantes, todavia, prevaleceu a correta impressão de que segurança é um tema, predominantemente, da alçada estadual. Com o desgaste acentuado de Claúdio Castro gritando nas pesquisas, ao invés da sonhada corrida eleitoral nacionalizada e centrada na segurança, Ramagem viveu o pesadelo de um processo estadualizado e infeccionado, o que o moveu, em exercício de ingratidão, a timbrar de “medíocre” o trabalho do governador e correligionário. Sem votos próprios e enlaçado com agenda postiça e contaminada, é crível supor que a votação de Ramagem se deu quase que integralmente por apadrinhamento de Bolsonaro.

Os demais concorrentes suportaram os limites de suas circunstâncias. Tiveram poucos recursos financeiros e espaços para propagarem as suas mensagens. Mirando jornadas pretéritas, Tarcísio Motta fiou-se em amalgamar os consanguíneos, cuja maioria apegara-se ao prefeito antes da maratona eleitoral. Saiu menor, mas manteve a coerência de não negociar as suas convicções para atenuar o seu discurso perante a afluência retrógrada que prepondera na cidade, no estado e no país. Por mais fofos e amados que sejam os pets, eles ainda não são prioridades para o eleitorado do município. Infantilizando a campanha, Marcelo Queiroz desperdiçou a oportunidade de avivar as faces de competência técnica e de moderação que construiu. Deixou o pleito em déficit. Depois de cismas internos, o Novo rompeu com a sua modelagem inicial de uma direita modernizante e caducou precocemente, transformando-se em pastiche do bolsonarismo. E Carol Sponza não se criou. Já o caricatural brucutu Rodrigo Amorim – o “Padre Kelmon carioca”, nos dizeres de Tarcísio Motta – entrou no jogo, nitidamente, para subsidiar Ramagem. Nem esse papel inescrupuloso o anão moral cumpriu com eficácia, e acabou tendo a candidatura indeferida pela Justiça Eleitoral.

No mais, o prefeito soube administrar a sua cristalina vantagem, esfriando a campanha e não se expondo, além da conta, ao tiroteio com os adversários. Conceitualmente, fez a não campanha. Resta, agora, a Eduardo Paes, que driblara tão bem a “maldição do terceiro mandado” – no qual a maioria sucumbe -, se esforçar para que seja apoteótico o seu quarto – e provavelmente derradeiro – quadriênio na gerência do carnaval carioca.

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