Você sabia que Bangu já foi palco de grandes desfiles de moda e teve uma das maiores fábricas têxteis da América Latina? Antes de virar mapa, o Rio de Janeiro era território indígena, chão de engenhos, rota de tropeiros e espaço de resistência. Hoje, bairros como Lapa, Caju, Leblon e Vidigal parecem apenas nomes no GPS, mas carregam por trás de cada sílaba camadas de história, apagamentos e disputas de memória. Esta reportagem de Agenda do Poder convida você a caminhar pelas origens desses nomes, guiado por arquivos e pela voz de quem estuda o passado da cidade.

Leblon: da caça às baleias à especulação imobiliária

Praia do Leblon I Crédito: Riotur

Antes da fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1565, a região onde hoje está o Leblon era habitada por povos originários, sobretudo os Tamoios. Com a chegada dos colonizadores, essa ocupação foi violentamente interrompida. A ação, comandada pelo governador português Antônio Salema, uma figura controversa, exterminou os nativos espalhando varíola. Os sobreviventes, por fim, foram expulsos.

A colonização impôs outra lógica territorial: o território indígena foi loteado em sesmarias — extensão de terras dadas a colonos de Portugal — e ocupado por engenhos de açúcar. Surgiu então a Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas, nome que perdura até hoje e cunhou o bairro conhecido como Lagoa. Mais tarde, em meados do século XIX, um empresário francês envolvido com pesca de baleia comprou um dos lotes e instalou uma fazenda e a empresa “Aliança” dedicada à pesca da baleia. Seu nome? Charles Le Blond. 

”Ele comprou um lote, instalou uma fazenda e fundou uma empresa dedicada à pesca da baleia. A baleia era muito importante, o óleo era usado na construção civil, na iluminação pública e a carne também era consumida. A gente tem ideia disso pelo nome “Arpoador”, que remete à pesca da baleia. Era ali bem perto, no mesmo litoral. E o nome “Campo do Leblon” acabou pegando”, explica a historiadora Luciene Carris, pesquisadora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Antes de ser o Leblon que é hoje, uma das áreas com capital especulativo mais caro da Zona Sul do Rio, a região também foi palco de resistências. Ainda no século XIX, surgiu o Quilombo das Camélias, situado no norte do bairro, próximo à atual Rua Visconde de Albuquerque. O nome fazia referência à flor que simbolizava a campanha abolicionista. “Ali tinha um quilombo. O Guimarães Seixas, dono da propriedade, abrigava muitos escravizados fugidos”, detalha a pesquisadora.

A transformação urbana do bairro se acelerou com a chegada dos bondes e a abertura do Túnel Velho, no início do século XX. “Toda essa região vai sendo ocupada por conta da especulação imobiliária, com participação da prefeitura e das empresas de construção civil, que vão moldando o bairro”, aponta.

Antes do embelezamento, houve remoções, e muitas. A maior comunidade às margens da Lagoa, a favela Praia do Pinto, abrigava mais de 15 mil pessoas até o fim dos anos 1960. Um incêndio, até hoje considerado misterioso, destruiu a favela durante a ditadura militar. As famílias foram removidas à força para bairros periféricos hoje conhecidos como Vila Kennedy. O local da antiga comunidade hoje abriga o luxuoso Shopping Leblon e condomínios de alto padrão.

“A remoção também faz parte da história da cidade não só do Rio, mas da história fluminense como um todo. É importante lembrar da origem. A ocupação dessa área começou com os indígenas, passou pelos engenhos, depois pelas fazendas e comunidades, e terminou sendo moldada pela especulação imobiliária”, explica Luciene. 

Vidigal: da chácara do brigadeiro à favela do Papa

Morro do Vidigal atrai milhares de turistas anualmente I Crédito: Agência Brasil

Se no Leblon a presença francesa foi convertida em grife urbana, o Vidigal, também na Zona Sul, carrega no nome a memória de um militar rígido. Manoel Antônio Nunes Vidigal foi comandante do Corpo da Guarda, uma espécie de chefe de polícia do Rio no início do século XIX. Foi eternizado na literatura como símbolo de autoridade e repressão, ganhando fama de uma figura bastante polêmica. 

“Ele era um cara meio exigente demais nas posturas municipais da cidade, conhecido com essa fama. Ele ganha esse terreno dos monges beneditinos, porque a origem da cidade do Rio de Janeiro também tem essa história de ser dividida por ordens religiosas. Ele ganha dos monges esse território, uma região que ele vai chamar de Chácara do Vidigal”, destaca a pesquisadora.

Com o tempo, a antiga chácara foi desmembrada e vendida. A favela do Vidigal começa a se formar, de fato, no século XX, especialmente após as décadas de 1940 e 1950. Como outras comunidades cariocas, cresceu nas encostas e resistiu às tentativas de remoção. 

Grande Prêmio do Brasil e ‘favela do Papa’

O bairro também entrou para a história do automobilismo: nos anos 1930, o Grande Prêmio do Brasil no estilo Grande Prix tinha um circuito que passava pelas ladeiras do Vidigal e da Gávea, com uma corrida de baratinhas, como eram chamados os carros pequenos, conta a historiadora. Com início em 1933, teve que ser interrompido durante a II Guerra Mundial. 

Mas um dos episódios mais marcantes da história recente do Vidigal foi a visita do Papa João Paulo II, em 1980. O gesto simbólico de visitar uma favela em tempos de ditadura ficou registrado em imagens e manchetes. “A imprensa até chamou de ‘favela do Papa’. Ele foi lá e tomou um café com uma moradora da região”, lembra Carris.

Hoje, o Vidigal tem seu Índice de Desenvolvimento Humano ocupando a 38º no estado, de acordo com o Dicionário de Favelas Marielle Franco. O morro é amplamente conhecido por sua vista privilegiada, e atrai turistas de todo o mundo. 

Lapa e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro

Arcos da Lapa foi construído para auxiliar o abastecimento de água no centro da cidade I Divulgação/ Prefeitura do Rio

O nome da Lapa não surgiu dos arcos que norteiam o bairro, mas sim da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro, construída ainda no século XVIII. Era uma região marcada por um lago, o Lago do Boqueirão da Galinha, que foi aterrado com o tempo. A paisagem mudou radicalmente com a construção do aqueduto, os Arcos da Lapa, erguidos para levar água de Santa Teresa ao Centro da cidade.

A falta de água era um problema grave no século XIX. O aqueduto colonial foi uma tentativa de resolver a crise de abastecimento. Ao mesmo tempo, o entorno da Lapa começava a ser transformado por obras de urbanização, alargamento de ruas e demolições.

Com o tempo, a região ganhou outro papel, tornando-se ponto de encontro da vida noturna carioca — virou reduto de bares, casas de música, prostíbulos e intelectuais. Locais como o restaurante Nova Capela, o bar Bar Luiz e o Arnold marcaram época como espaços de convivência artística. Por isso, a Lapa passou a ser chamada de “Montmartre carioca”, alusão ao bairro boêmio de Paris.

Durante o Estado Novo, o governo do presidente Getúlio Vargas ainda tentou apagar esse passado. Vieram políticas de higienização urbana, que visavam combater a prostituição e o que era visto como “decadente”. A tentativa de moralizar o espaço urbano não eliminou o símbolo que a Lapa representava: pelo contrário, até hoje o lugar é marcado pela noite subversiva carioca. 

Na década de 1940, outro personagem entra na história: Zé Carioca. Criado pela Disney durante uma visita diplomática ao Brasil, ele foi inspirado no espírito da Lapa: malandro, boêmio e simpático. Parte de uma política externa, ele representava a figura do brasileiro cordial, em um momento em que os Estados Unidos buscavam se aproximar e exercer influência na América Latina.

Caju: da praia paradisíaca ao complexo da necrópole

Cemitério da Penitência é um dos mais antigos, fundado em 1850 I Crédito: Riotur / Alexandre Macieira

Se a Lapa foi requalificada e projetada como símbolo turístico, o Caju seguiu caminho oposto. Foi puxado da região portuária, abrigando chácaras da aristocracia no início do século XIX. Com a chegada da corte portuguesa, tornou-se uma área nobre. O nome do bairro vem dos cajueiros que dominavam a região e que abrigava a Praia do Caju, hoje desaparecida. Ela era considerada um dos pontos mais belos da cidade e servia como um campo medicinal para o ex-rei de Portugal, D. João VI.

Há registros de que Dom João VI frequentava o local para banhos de mar. Segundo a tradição oral, ele teria sido picado por um carrapato e, como tratamento, foi recomendado o banho de mar. Para isso, foi construída a Casa de Banho do rei, que também foi usada por Dom Pedro I em outras ocasiões.

“Ele era muito medroso, diziam. Há uma mitologia em torno disso, que ele foi picado por um carrapato, ficou doente, e receitaram como tratamento médico os banhos de mar. A casa de banho dele ficava lá no Caju. Depois, Dom Pedro também usou, e outras figuras importantes. Mas o que ficou no imaginário foi essa figura do rei gordinho, com medo, tomando banho protegido, tentando se curar das picadas de carrapato”, conta a especialista. 

Nos anos 1960, o bairro começou a ser transformado. A construção de grandes cemitérios consolidou a imagem de um lugar associado à morte. Atualmente, o Caju abriga quatro cemitérios de grande porte que formam um complexo da necrópole:  o Cemitério São Francisco Xavier, o Cemitério Comunal Israelita do Caju, o Cemitério da Ordem Terceira do Carmo e o Cemitério da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. 

A antiga Casa de Banho abriga hoje o Museu da Limpeza Urbana, da Comlurb. Oficialmente, é o Museu da História da Limpeza, mas poucos moradores do Rio conhecem ou já visitaram o espaço. Para a historiadora e pesquisadora do Arquivo Nacional, essa exclusão é sintomática. “O Caju é um exemplo claro de como certas áreas são descartadas da memória oficial. Tudo ali foi desvalorizado: a paisagem, a história e as pessoas”, afirma Luciene.

Del Castilho: a cidade que cresceu ao redor dos trilhos

Construção da Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil, inaugurada em 1898 I Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Del Castilho não nasceu de um centro planejado ou de um movimento orgânico de ocupação. Surgiu, como tantos bairros da Zona Norte carioca, junto com a construção de Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil. Parte da antiga Fazenda Capão do Bispo, a região começou a se transformar no século XIX com a chegada da linha férrea em 1898, que ligava o Centro do Rio a regiões mais distantes. 

Há ao menos duas hipóteses documentadas sobre a origem do topônimo: a primeira associa o nome a um militar espanhol chamado Henrique Del Castilho, figura sem muitos registros. A outra versão atribui o batismo do bairro a Paulo de Frontin, engenheiro da Central do Brasil, que teria homenageado o amigo Manoel Maria Del Castilho, ao nomear a estação ferroviária. 

“Ele vai receber esse nome de Del Castilho, por conta desse engenheiro da estrada ferroviária. O bairro está ligado justamente à história das fazendas, ao caminho jesuítico, à rota do ouro, às conexões com Minas. Tem todo um histórico apagado, de caminhos antigos, de busca pelo ouro, que passava por várias partes do Rio de Janeiro”, lembra.

O desenvolvimento industrial veio décadas depois, com a instalação da Companhia Nova América, em 1925. A empresa ergueu ali um grande complexo têxtil que empregaria milhares de trabalhadores ao longo do século XX. A planta da fábrica foi inspirada nos modelos ingleses de Manchester e tornou-se referência na arquitetura industrial da cidade. No entorno, formaram-se vilas operárias que abrigavam imigrantes e nordestinos, atraídos pela promessa de trabalho e estabilidade.

Del Castilho tornou-se, por décadas, um bairro operário. A vida girava em torno da fábrica: o apito marcava os horários, e o comércio local se organizava de acordo com a rotina dos turnos. Com o encerramento das atividades industriais, a paisagem urbana passou por uma transformação radical. A antiga fábrica foi convertida no Shopping Nova América, inaugurado nos anos 1990. Hoje, o local abriga lojas, cinema, estação de metrô e salas comerciais.

Bangu: o bairro que nasceu da fábrica e virou passarela

Casas de operários da fábrica Bangu (RJ), em 1958. Imagem de autoria de Pedro Pinchas e Tomas Somlo I Biblioteca/IBGE

A história de Bangu também começa no campo, como um antigo engenho de cana-de-açúcar localizado na região conhecida como “Saco do Bangu”. Mas a virada definitiva aconteceu em 1889, quando o terreno foi adquirido para a instalação da Companhia Progresso Industrial do Brasil. Anos depois, essa empresa se tornaria a Fábrica Bangu, um dos maiores complexos industriais da América Latina e um símbolo da modernização do Brasil no século XX.

A origem do nome do bairro carrega múltiplas camadas, explica a historiadora: “O nome tem três possíveis origens. Uma é indígena, associada à ideia de ‘barreira negra’. A segunda é africana, da palavra ‘banguê’, usada por pessoas escravizadas para se referirem ao local do engenho onde se guardava o bagaço da cana. E tem uma terceira versão, que ficou consagrada como uma espécie de padiola, um recipiente feito com fibras, improvisado, para transportar cana-de-açúcar. Então, o ‘fazer a bangu’ seria o fazer de forma improvisada, com o que se tem“, explica. 

Mas foi a fábrica que deu identidade definitiva ao bairro. A Companhia Bangu não apenas empregava milhares de trabalhadores, como também criava toda a infraestrutura urbana que os rodeava: ruas, iluminação elétrica, abastecimento de água, clubes sociais, escolas, creches e vilas operárias. Era uma cidade dentro da cidade. “É um exemplo típico de cidade-fábrica. A empresa organizava a vida das pessoas, do nascimento ao lazer”, resume a pesquisadora.

Era dourada de Bangu 

Esse modelo paternalista se refletia em todos os aspectos da vida local. O clube Bangu Atlético Clube foi fundado por funcionários da fábrica e se tornou, mais tarde, um time de destaque nacional. A cultura do bairro também floresceu sob influência da indústria. Um dos eventos mais famosos da era dourada da Fábrica Bangu era o desfile de moda realizado no Copacabana Palace, nos anos 1950, quando as chamadas “Miss Elegante Bangu” apresentavam os tecidos fabricados no subúrbio com projeção nacional. 

“Os desfiles de moda aconteciam justamente para valorizar os tecidos produzidos pela Fábrica Bangu. Eles vão criar uma competição chamada Miss Elegante Bangu, que vai ter desfile até no Copacabana Palace. E o evento teve uma forte repercussão na imprensa. As pessoas participavam, e a mulher que era considerada mais bonita e mais elegante era eleita e ganhava uma passagem para Paris. Até então, Paris ainda era considerada a capital cultural da moda”, lembra Luciena. 

O declínio veio aos poucos, com a crise do setor têxtil nas décadas de 1980 e 1990. A fábrica encerrou suas atividades no início dos anos 2000. Parte do terreno foi transformado em shopping, outra em área de serviços e cultura. 

Méier e origem aristocrática

Jardim do Méier I Arquivo Biblioteca Nacional

O Méier carrega uma história marcada pela presença da família Meyer, de origem alemã, que deu nome ao bairro, embora a pronúncia local tenha aportuguesado para “Méier”. Augusto Meyer, que trabalhou como ‘”camarista” — um acompanhante do Dom Pedro II — recebeu as terras da região, onde construiu e deu nome às primeiras ruas, homenageando familiares. Essa origem aristocrática foi o ponto de partida para o crescimento do bairro.

Além dessa herança rural e alemã, o Méier também se destaca por sua ligação cultural com o samba. É ali que viveu Diogo Nogueira, um dos grandes nomes do gênero. O bairro se transformou num polo de efervescência cultural, graças a figuras locais como o sambista João Nogueira, que atuou para preservar espaços importantes como o Imperator, tradicional centro de eventos artísticos. 

Recreio dos Bandeirantes: o quintal dos paulistas

Canal do Rio Morto no Recreio dos Bandeirantes nos anos 70 I Reprodução/ Barra da Tijuca Memórias

O Recreio dos Bandeirantes tem origem recente se comparado a outros bairros do Rio. Até meados do século XX, a região era dominada por extensos areais, praticamente intocados. A ocupação começou com o corretor Sérgio Castro, que adquiriu grandes lotes e passou a vender terrenos para amigos, em especial paulistas que buscavam um refúgio de veraneio. O nome do bairro remete aos bandeirantes paulistas, sertanistas que desbravaram o interior do Brasil. 

A urbanização mais organizada do Recreio só aconteceu a partir da segunda metade do século XX, quando o bairro começou a ser pensado como um local planejado, com ruas arborizadas e casas de tamanho moderado, numa concepção que lembra os bairros-jardim franceses. O processo, porém, foi lento: a falta de infraestrutura básica, como saneamento e pavimentação, se estendeu até os anos 1990 e 2000, quando a região passou por um boom populacional e de construções.

A história do Recreio dos Bandeirantes é, em boa parte, ligada a essa figura de Sérgio Castro, cujo nome ficou conhecido em todo o Rio de Janeiro pela sua imobiliária. Ele foi um dos pioneiros a promover a venda de terrenos e a pensar na ocupação do bairro. 

Nova Iguaçu

O Reservatório de Rio D’Ouro em Nova Iguaçu-RJ foi tombado como patrimônio material cultural do município I Reprodução/ Inepac

Nova Iguaçu cresceu a partir da Vila de Iguaçu, que surgiu junto à construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. A vila evoluiu e conquistou o status de município em 1833, mas só em 1916 passou a se chamar “Nova Iguaçu”, para se diferenciar de outros Iguaçus espalhados pelo país, como Foz do Iguaçu e Iguaçu do Rio Grande. 

Historicamente, Nova Iguaçu esteve na rota dos caminhos para Minas Gerais, ainda nos tempos da corrida do ouro. Caminhos conhecidos como o Velho e o Novo cruzavam o município, que se tornou uma rota estratégica de fuga para evitar ataques dos corsários e invasores durante o século XVII. Os viajantes partiam do Porto da Praça XV, no Rio, e utilizavam embarcações para driblar os riscos na travessia. Essas rotas fazem parte da chamada Estrada Real, construída com pedras e marcada por diversos ramais que ligavam o Rio a Minas e outras regiões.

Um destaque curioso da região é o Reservatório João d’Ouro, cuja água, segundo relatos, chegou a ser importada da França para abastecer o Rio de Janeiro, em tempos em que a falta d’água era um problema constante. “Lá tem uma bica, que se chama Bica da Mulata. É uma fonte de onde saía água extraída da França! Esse reservatório ainda existe”, acrescenta Luciene. 

Belford Roxo: a cidade perfumada 

Belford Roxo guarda uma história ligada à expansão agrícola e à urbanização da Baixada Fluminense. O bairro, que até 1993 foi distrito de Nova Iguaçu, teve seu nome dado em homenagem ao engenheiro Raimundo Teixeira Belford Roxo, colaborador próximo de Paulo de Frontin. Juntos, eles protagonizaram um episódio crucial no final do século XIX: a solução para a crise de abastecimento de água do Rio, que foi resolvida em apenas seis dias, uma façanha anunciada nos jornais da época.

Vista de Belford Roxo | Reprodução

Formado pela Escola Politécnica, Belford Roxo estudou na Inglaterra e trabalhou também na França, participando de importantes reformas urbanas e de infraestrutura. 

No passado, a região era marcada por fazendas e laranjais, o que rendeu o apelido de “cidade perfumada”. A agricultura sustentou a economia local até a Segunda Guerra Mundial, quando as dificuldades para exportação derrubaram a produção. A crise abriu espaço para os primeiros loteamentos e iniciou uma ocupação crescente e desordenada que transformaria a área.

“Vai acontecer uma crise no setor agrícola, por causa da Segunda Guerra Mundial, por conta da dificuldade de comércio entre países, do risco de ataques. A produção cai, a exportação também, e aí vem uma crise econômica. Com isso, começam os loteamentos. O loteamento, não só de Belford Roxo, mas de toda a região adjacente”, explica a historiadora. 

Na década de 1960, a instalação de uma grande empresa alemã voltada para a produção de fertilizantes e medicamentos consolidou Belford Roxo como um polo industrial importante na América Latina. Esse desenvolvimento atraiu grande fluxo migratório, especialmente do Nordeste. Em contrapartida, ampliou a população e desafiou o planejamento urbano. 

Foi só em 1993 que Belford Roxo conquistou a emancipação municipal de Nova Iguaçu. 

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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