Em um momento antes do milagre econômico e da hiperinflação, uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil decidiu que seus funcionários mereciam mais do que um peru de Natal. E assim na década de 1940 a Mesbla instalou uma colônia de férias num casarão imperial de 1870 na Ilha de Paquetá, a uma hora de barca do Centro do Rio, com piscinas, quadras esportivas e um terraço de mais de mil metros quadrados de frente para a Baía de Guanabara. O complexo era apenas um de 16 espalhados pelo Brasil, todos bancados pela mesma empresa que, em 1999, decretaria falência sem conseguir pagar os salários em atraso de seus últimos 750 funcionários.
Naturalmente, essa generosidade corporativa não era fruto de um surto de franciscanismo por parte da diretoria. Em um Rio que ainda se pretendia a “Cidade Maravilhosa” sem aspas irônicas, garantir que o funcionário não sucumbisse à exaustão era uma estratégia brilhante de manutenção humana. Afinal, nada como um final de semana cercado por flamboyants para garantir que o balconista voltasse à Rua do Passeio com o sorriso devidamente lubrificado para convencer a Madame a comprar um jogo de jantar novo. #ficaadica
Hoje, ao olharmos para as ruínas desse conceito de “benefício”, somos invadidos por uma nostalgia ácida. Trocamos colônias de férias à beira-mar por sessões de mindfulness de dez minutos no meio do expediente e vales-refeição que mal bancam um almoço decente. A Mesbla, que já foi o sol em torno do qual orbitava o consumo brasileiro, deixou em Paquetá as pegadas de um tempo em que o descanso do trabalhador era levado a sério.
A ascensão e queda de um império
Tudo começou em 1912 na Rua da Assembleia, 83, no Centro quando foi inaugurada uma filial da Mestre & Blatgé, empresa com sede em Paris e especializada no comércio de máquinas e equipamentos. Quatro anos depois de sua instalação, em 1916, sua administração foi entregue ao francês Louis La Saigne, até então subgerente da filial de Buenos Aires. Em 1924, La Saigne decidiu nacionalizar a empresa, que passou a se chamar Sociedade Anônima Brasileira Estabelecimentos Mestre et Blatgé, o que logicamente não soou tão nacional assim. Em 1939 La Saigne decidiu mudar o nome para Mesbla, uma combinação das primeiras sílabas do nome original, curiosamente por sugestão de sua secretária, Izaura. Entenda como quiser.
O auge da Mesbla veio nas décadas de 1970 e 1980. Nesse período, a rede teve 180 lojas, empregava 28 mil pessoas e operava megalojas que ocupavam áreas de até 3.000 metros quadrados. Nas vitrines, expunham-se roupas, utensílios domésticos, eletrônicos, eletrodomésticos, instrumentos musicais e até automóveis.
Os funcionários orgulhavam-se em afirmar que a Mesbla só não vendia caixões funerários, que são para os mortos; para os vivos, tinham todas as mercadorias, de botões até automóveis, lanchas e aviões. Era, em suma, uma Amazon analógica da segunda metade do século XX brasileiro _ com a diferença de que a Amazon não oferece colônia de férias.

Mônaco em chinelos
Segundo o historiador Vivaldo Coaracy, em sua obra clássica sobre a Ilha de Paquetá, na década de 1940 o local era pontuado por residências de veraneio de altíssimo padrão, frequentadas por políticos, intelectuais e empresários que buscavam o isolamento que as águas da baía proporcionavam.
Construções do mesmo nível do casarão da Mesbla eram abundantes na época. Essas casas de veraneio eram verdadeiras fortalezas de conforto, caracterizadas por telhados de telha francesa, varandas circundantes que abraçavam a casa e jardins repletos de árvores frutíferas e palmeiras imperiais.
De acordo com o Inventário de Bens Culturais do INEPAC, a tipologia dessas residências privilegiava a integração com a natureza e a vida social, com grandes salões de recepção e áreas de serviço discretas, mas funcionais. Eram projetadas para serem frescas, amplas e, acima de tudo, cenográficas.
O Palácio Proletário dos Anos 1940
Erguido em 1870, o casarão da Praia da Ribeira que abrigou por décadas a colônia de férias da Mesbla é um sobrevivente de uma época em que o capitalismo ainda se dava ao luxo de ter requinte. Sua arquitetura do século XIX, com arcos no térreo e uma certa imponência que contrasta com a modéstia da ilha, foi preservada como se fosse um santuário da Belle Époque tropical.
Ao redor dele, na década de 1960, a empresa ergueu um anexo funcional e sem grandes firulas. Uma construção de concreto com 24 quartos, cozinha industrial, refeitório e salas de convivência, que servia como a verdadeira área de serviço do paraíso proletário.

A Mesbla, ao escolher a ilha para sua colônia de férias, não estava apenas imitando a elite; estava, de certa forma, comprando um pedaço desse status para presentear seus funcionários. Um luxo que a empresa não teria condições de sustentar por muito tempo.

Mas e o tal do farol?
Em 1966, a Mesbla presenteou Paquetá com o Farol-Relógio, uma réplica em estilo art déco do famoso relógio de sua sede na Rua do Passeio. Segundo reportagens de época, certo dia uma barca que levava funcionários da Mesbla à colônia de férias quase encalhou devido à névoa. Os funcionários levaram a reclamação a um diretor da empresa, que descobriu que a ilha não tinha recursos para custear um farol. A Mesbla então fez o que qualquer empresa razoável faria nessa situação: propôs à Marinha a instalação de um farol com sirene. Com o detalhe marqueteiro que ele teria o mesmo formato do seu próprio relógio corporativo.
O Farol-Relógio da Mesbla, localizado na Praça Pintor Pedro Bruno, acabou se tornando um dos marcos mais curiosos da ilha. Ele mede 9,45m de altura, contra os quase 100 de seu “irmão” mais velho. Outra diferença entre os dois é, antes de tudo, de função. O relógio da Rua do Passeio é um ornamento art déco numa fachada comercial no coração do Rio; o de Paquetá é um farol oficial, homologado pela Marinha, com sirene, que orientava a navegação de noite e em dias de nevoeiro. A Mesbla conseguiu, assim, o que poucas marcas do varejo alcançaram: transformar seu logotipo em patrimônio náutico.


Era comum empresas oferecerem colônias de férias para os funcionários?
Essa lembrança é interessante nesses tempos que se discute a redução da jornada 6×1 ou a futura ascensão do “obsoletariado” _ a nova classe social formada por diversas categorias cujos empregos foram ou serão substituídos por IAs. Colônias de férias corporativas foram, durante décadas, um elemento relativamente comum no paisagismo trabalhista brasileiro, especialmente nas grandes empresas. E a Mesbla não estava sozinha nessa época de ouro dos benefícios físicos.
A forte cultura de benefícios da Mesbla era parte de um modelo de gestão que se espelhava nas grandes corporações da época, nas quais plano de saúde, descontos e estruturas de lazer eram formas de reter mão de obra qualificada e construir lealdade institucional. O Sesc nasceu em 1946 exatamente da lógica de que o comércio devia cuidar do bem-estar dos trabalhadores, ainda que por meio de uma entidade externa.
Bancos como o Banco do Brasil e estatais como a Petrobras mantiveram (e em alguns casos ainda mantêm) estruturas de lazer para funcionários. O modelo foi amplamente adotado por empresas de grande porte no Brasil ao longo do século XX, especialmente aquelas com grandes quadros de funcionários e atuação nacional, como a rede Sears ou Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O declínio desse modelo foi gradual e acompanhou a reestruturação do capitalismo brasileiro a partir dos anos 1980/1990.

E que fim levou a colônia de férias da Mesbla em Paquetá?
Depois que a Mesbla faliu em 1999 e encerrou as atividades da colônia, o casarão ficou ocioso por alguns anos até que, em 2010, foi convertido em hotel privado. Batizado em homenagem ao Farol da Mesbla, o Hotel Farol tornou-se um ponto de referência na ilha, mas encerrou suas atividades em 2017. O complexo então ficou vazio e à deriva.
Atualmente, o casarão e seus anexos estão em processo de transformação. Após ser vendido por R$ 3,8 milhões em 2025, o Sesc RJ está restaurando o complexo para transformá-lo em uma unidade hoteleira, com previsão de inauguração ainda este ano.
A transformação em hotel é, de certa forma, o destino mais lógico para esses palacetes. O local deixou de ser um privilégio de “casta funcional” para se tornar artigo no mercado de hospitalidade. O detalhe é que muitos dos futuros hóspedes talvez nunca tenham ouvido falar da Mesbla, tratando a memorabilia com a história da rede como apenas “decoração vintage”. O casarão sobreviveu à empresa que o criou, provando que tijolos e argamassa têm uma resiliência que o capital financeiro finge desconhecer.


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