O que é o ICE: cristais de maconha viram moda no Rio e preocupam especialistas

Efeitos colaterais da droga incluem surtos psicóticos, crises de pânico e dependência

Enquanto cientistas soam o alarme sobre os riscos das drogas ultraconcentradas, uma nova febre psicoativa conquista adeptos no Rio: o ICE da maconha — uma espécie de “cristal premium” com até 99% de THC, o principal composto psicoativo da cannabis. Esqueça os baseados da velha guarda, feitos em guardanapos ou papéis de Hollywood. Cabrobó agora é só uma cidade do interior pernambucano: a moda agora é vaporizar diamantes que prometem uma “chapação instantânea” e uma viagem direta para o reino da euforia…ou, quem sabe, da emergência psiquiátrica.

Com marketing embalado por vídeos virais nas redes sociais e um ar de sofisticação canábica, a substância virou queridinha entre usuários que buscam mais intensidade e menos moderação. O que preocupa especialistas, no entanto, é que essa “turbinada canábica” vem acompanhada de efeitos colaterais sérios: surtos psicóticos, crises de pânico, lapsos de memória e um risco crescente de dependência, especialmente entre jovens.

Mas, para muitos, os alertas da ciência são só mais um detalhe sem graça em meio à glamorização digital. Afinal, em tempos de experiências extremas e dopaminas instantâneas, quem quer saber de equilíbrio?

O que é o ICE de maconha?

Diferente da metanfetamina conhecida como “ICE”, o “ICE da maconha” é uma forma altamente concentrada de cannabis, geralmente um cristal ou extrato translúcido produzido por meio de processos químicos que isolam o THC (tetra-hidrocanabinol) em altíssimas concentrações — chegando a até 99% de pureza.

Essa substância, também chamada de THC cristalino, diamante ou cristal de THC, é vaporizada ou fumada e provoca efeitos muito mais intensos do que a maconha tradicional. Nas bocas de fumo do Rio a grama custa em torno dos R$ 50.

Variação da cannabis surgiu por volta de 2015, nos Estados Unidos | Reprodução

Origem e disseminação

Essa variação da cannabis surgiu inicialmente nos Estados Unidos, por volta de 2015, como parte da onda de “concentrados” (dabs, wax, shatter) em estados onde a maconha foi legalizada. No Brasil, começou a circular entre 2020 e 2022, inicialmente em nichos de alto poder aquisitivo, mas sua presença vem aumentando no tráfico e em festas, com produção local por meio de extração caseira ou artesanal, o que eleva os riscos.

Por que é considerada a ‘droga do momento’?

A forma cristalina do THC caiu no gosto de usuários por produzir “chapações instantâneas”, com forte impacto psicoativo e maior duração, sendo promovida como “maconha turbinada”. Nas redes sociais, é comum o compartilhamento de vídeos de uso, alimentando uma estética de ostentação.

Por sua potência extrema, bastam pequenas doses para causar efeitos profundos, o que também atrai usuários iniciantes que buscam experiências mais intensas.

Por que preocupa médicos e cientistas?

Pesquisadores têm alertado para o risco de psicoses induzidas por THC em concentrações tão altas. Um estudo da The Lancet Psychiatry (2019) mostrou que o uso de variedades de cannabis com mais de 10% de THC dobra o risco de psicose — no caso do ICE de maconha, o teor pode chegar a 90% ou mais. Além disso, o uso contínuo pode provocar ansiedade crônica, ataques de pânico, surtos paranoides e comprometimento cognitivo, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Capacidade de causar dependência

Embora o THC tenha menor potencial de dependência que drogas como cocaína ou opioides, a versão concentrada presente no ICE aumenta significativamente o risco. Usuários relatam tolerância rápida, necessidade crescente de doses maiores e abstinência com sintomas como irritabilidade, insônia e depressão.

Estudos indicam que cerca de 1 em cada 6 adolescentes que usam cannabis de alta potência podem desenvolver dependência — número muito superior ao da maconha tradicional.

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