Orlando Orfei, chegou ao Brasil nos anos 60 com a ousadia de um veterano artista de circo. Nascido na Itália, ele trouxe na bagagem não só o sobrenome de uma dinastia circense de mais de 200 anos, mas também uma visão ousada. Para ele, qualquer espaço em branco era uma oportunidade de instalar uma tenda, uma roda-gigante ou um trem fantasma, e assim surgiu o Tivoli Park, um dos maiores ícones do entretenimento da Guanabara.

Com modestas 15 atrações na inauguração, em 1973, o Tivoli Park prometia um entretenimento tropical com um toque europeu. Inspirado pelo famoso Tivoli de Copenhague, Orlando não apenas se arriscou a montar um parque à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas também a criar um espaço onde as pessoas poderiam esquecer dos problemas e apenas se divertir. O problema é que, enquanto o Tivoli dinamarquês se reinventava, o carioca parecia estar preso em um carrossel que nunca parava, sem saber nem como descer.

Nos anos 80, o Tivoli Park estava no auge, recebendo cerca de duas mil pessoas por dia e abrindo as portas para atrações memoráveis como a Montanha-Russa Espacial. Mas, como todo bom espetáculo, a mágica não durou para sempre. A decadência chegou nos anos 90, trazendo consigo um combo de falta de manutenção e concorrência feroz. O que antes era um destino de diversão se transformou em um eco de risadas esquecidas, até que o parque foi finalmente desativado, dando lugar ao Parque dos Patins, como se o tempo tivesse decidido pendurar os brinquedos no armário da história.

Orlando Orfei, o maestro de tantas risadas e sustos, faleceu em 2015, mas seu legado ainda vive nas memórias de quem se aventurou em suas criações. Tentativas de ressuscitar o Tivoli em parceria com o Via Parque Shopping foram interrompidas pela pandemia, mostrando que, às vezes, a vida pode ser mais imprevisível do que um passeio em uma montanha-russa. E assim, o Tivoli Park, com sua mistura de glamour e nostalgia, permanece como uma lembrança de que, em meio ao caos, sempre há espaço para um pouco de diversão.

Entrada do Tivoli Park | Crédito: Carlos Costa / Divulgação

Quem foi Orlando Orfei?

Orlando Orfei nasceu na Itália em 1920 e, como membro da quinta geração de uma família circense, começou cedo: aos sete anos já se apresentava. Veio ao Brasil nos anos 1960 e não demorou a se tornar uma figura lendária do entretenimento nacional.

No Brasil, Orfei não apenas fez sucesso com seu circo, mas também reinventou o conceito de parque de diversões. O Tivoli Park foi seu projeto mais ambicioso, uma mistura de Europa com tropicalismo.

Ele não era apenas um empresário, era um visionário com gosto por adrenalina e que domava leões com a mesma naturalidade com que negociava terrenos e montava circos e parques.

A história de Orfei é marcada por uma mistura de sucesso e fracasso, refletindo a própria natureza volúvel do mundo do entretenimento. 

 Qual a história de sua família e quais investimentos ele fez no Brasil?

A família Orfei é uma dinastia circense na Itália, com tradição que remonta ao século XIX. No Brasil, Orlando trouxe essa herança e a transformou em espetáculo.

Os filhos seguiram seus passos, atuando no circo e na administração dos empreendimentos. Uma família que se equilibrava entre o picadeiro e os balanços.

Além do Tivoli Park, Orlando investiu em circos itinerantes, shows e até em outro parque de diversões, o Luna Park, em Nova Iguaçu.

Seus empreendimentos misturavam o glamour europeu com o improviso brasileiro. Infelizmente, a realidade se mostrou mais complicada do que o esperado, e o sonho de Orfei enfrentou muitos desafios ao longo do caminho.

Quando o Tivoli Park foi inaugurado?

O espaço que abrigou o Tivoli Park, um verdadeiro tesouro à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, foi cedido pelo então prefeito Marcos Tamoyo a Orlando Orfei, com a ideia de revitalizar a área e oferecer um espaço de entretenimento para a população.

Na sua inauguração, o Tivoli Park contava com cerca de 15 atrações, que iam desde carrinhos de bate-bate e carrosséis luminosos até uma roda-gigante. 

Sua inspiração eram os Jardins de Tivoli, em Copenhage inaugurados em 1843. Na época, para ganhar o terreno, o fundador do parque, Georg Carstensen,  justificou ao rei que “quando as pessoas estão se divertindo, elas não estão pensando em política”.

A proposta carioca era criar um espaço onde a diversão fosse garantida, mas logo ficou claro que a manutenção e a inovação das atrações seriam desafios constantes.

O Tivoli de Copenhague é conhecido por sua atenção aos detalhes e pela capacidade de se reinventar constantemente, algo que o Tivoli Park do Rio não conseguiu replicar.

Tivoli Park de Copenhague, na Dinamarca | Crédito: Reprodução

Qual é a história do Tivoli Park de Copenhague?

O Tivoli Park de Copenhague, inaugurado em 1843, é um dos mais antigos parques de diversões do mundo e a grande inspiração para o Tivoli Park no Rio de Janeiro.

Com suas flores, jardins e atrações que vão desde montanhas-russas até shows ao vivo, o parque dinamarquês se tornou um ícone de entretenimento e cultura. A atmosfera mágica de Copenhague e a rica história do Tivoli original influenciaram Orlando Orfei em sua visão para o parque carioca.

A conexão entre os dois vai além do nome. Enquanto o parque dinamarquês prospera, o carioca se tornou um símbolo de um tempo que passou, deixando uma herança cheia de memórias e saudades.

O auge na década de 1980

Nos anos 1980 o Tivoli  recebia cerca de duas mil pessoas por dia e já contava com cerca de 40 atrações. Algumas inesquecíveis para quem viveu a época; como cinema 180 graus; e, principalmente, Konga, a Mulher Gorila, que apavorava a criançada.

Em 1983 o parque inaugurou a moderníssima Montanha Russa Espacial, uma das primeiras com looping na América Latina.

O parque também oferecia uma variedade de brinquedos para crianças, o Mini-Tivoli, como carrossel e uma pequena Roda Gigante, que se tornaram ícones do local. 

Na reabertura em 2020, Tivoli Park mostrou a montanha-russa looping star | Crédito: Carlos Costa / Divulgação

O filhote do Tivoli

Inaugurado na década de 1990, em Nova Iguaçu, o Luna Park prometia ser um novo destino de entretenimento, mas enfrentou desafios semelhantes aos do Tivoli Park. 

O Luna Park nunca conseguiu se estabelecer como um sucesso duradouro. A falta de investimento e a concorrência acabaram por limitar seu potencial.

Não se pode afirmar com certeza que foi essa expansão ousada o começo das dificuldades de Orlando Orfei , mas foi um capítulo triste e marcante em sua história.

Por que o parque entrou em decadência?

A decadência do Tivoli Park nos anos 1990 pode ser atribuída a uma combinação de fatores. A falta de manutenção adequada das atrações, a concorrência crescente de outros parques e mudanças nas preferências dos consumidores.

Enquanto outros parques se adaptavam e inovavam, o Tivoli Park parecia preso no passado, incapaz de acompanhar as novas demandas do público. Em 1998 a cidade viu nascer o efêmero parque temático Terra Encantada, cheio de novidades.

Essa estagnação do Tivoli resultou em um declínio acentuado no número de visitantes, levando o parque a se tornar um espaço cada vez mais vazio e esquecido.

A falta de investimento e planejamento adequado era tamanha que algumas atrações foram transferidas para o Luna Park, buscando atrair um novo público, só que elas jamais foram construídas. E assim começou o sucateamento.

O Parque Mirabilândia, em Olinda, Pernambuco, comprou boa parte das atrações na Bacia das Almas. E assim a icônica Montanha Russa Espacial ganhou mais uns anos de brilho, até o parque fechar em 2024.

Montanha-russa: atração do Tivoli Park foi interditada após casal ficar preso | Crédito: Reprodução

Como tudo terminou?

A estrutura envelhecida, o parque e seus brinquedos sem manutenção adequada tornaram o que antes era um passeio obrigatório, uma opção esquecida, como um brinquedo quebrado no fundo do armário. E os incidentes começaram a acontecer.

O pior deles foi registrado em março de 1994 quando uma menina de 11 anos afirmou ter sido estuprada por quatro rapazes dentro do Castelo das Bruxas. O trágico episódio marcou negativamente a imagem do Tivoli Park em seus últimos anos de funcionamento.

O Rio também vivia novos e ecológicos tempos, pós ECO-92, e havia crescente reclamação do entorno da Lagoa ser ocupado pelo Tivoli. Finalmente em 1995 o prefeito Cesar Maia decidiu não mais renovar a concessão.

O espaço virou o Parque dos Patins, e o Tivoli virou memória. Uma memória que ainda gira na cabeça de quem viveu a infância entre gritos de susto, alegria e algodão-doce.

Orlando Orfei morreu em 2015. Cinco anos depois houve nova tentativa de se retomar a marca Tivoli em parceria com o Via Parque Shopping, na Barra. Mas pandemia de covid-19 jogou uma pá de cal no projeto.

O legado do Tivoli Park, embora marcado por desafios, continua a viver nas histórias e memórias de todos que um dia se divertiram em suas atrações.

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