Imagine um lugar que viu, literalmente, toneladas de ouro passarem por suas mãos, mas que hoje mal consegue um “like” nos roteiros turísticos. Essa é a tragicomédia de Magé: a cidade que foi o cofre-forte do Brasil Colônia, onde até o nome vem de um humilde cipó, agora tenta desencavar seu próprio passado de baixo do pó do esquecimento e de uma ou outra lenda duvidosa.
Enquanto o Rio de Janeiro colhia os louros (e o ouro), era no discreto Porto Estrela, a “Babilônia das Laranjeiras” em Magé, que a riqueza mineira realmente embarcava. Por ali, entre 1709 e 1780, passou praticamente todo o metal precioso que financiou Portugal e mais tarde inflamou sonhos de independência. Hoje, as majestosas ruínas do complexo, que tinha até hospital e vila, disputam atenção com capelas do século XIX, poços supostamente milagrosos e um “Palácio Anchieta” que, para desespero dos guias turísticos, não é aquele famoso de Vitória (ES).
O município, que nasceu em 1566 com uma mãozinha do primeiro Santo brasileiro, tenta se reinventar entre a espiritualidade do Poço Bento, a resistência dos quilombos certificados (como o de Maria Conga) e as quedas d’água que tentam rivalizar com a fama da vizinha Serra dos Órgãos. A apenas 45 minutos de carro da capital – ou uma hora e dez de ônibus num valor que beira os R$ 30 –, Magé é um convite irônico: descubra o lugar que esvaziou Minas de ouro, mas que ainda luta para aparecer no mapa.

História
Oficialmente, Magé nasceu nos distantes 1566, com a criação da Aldeia de Magepe-Mirim por padres jesuítas, liderados por São José de Anchieta. O objetivo era catequizar os Tupinambás, que viviam na região.
Sua elevação à categoria de vila, com o nome de Vila de Santana de Magé, ocorreu apenas em 1696, já sob o domínio secular, marcando o início de uma organização administrativa mais estruturada.
O desenvolvimento do núcleo urbano estava intrinsecamente ligado à sua posição geográfica estratégica, às margens da Baía de Guanabara e no caminho para as Minas Gerais, o que logo a tornaria um ponto logístico vital para a Coroa Portuguesa.
O que significa “Magé”?
O nome “Magé” tem origem no tupi antigo, referente a uma espécie de planta nativa. Segundo o tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro, autor do “Dicionário de Tupi Antigo”, “Magé” deriva de “ma’ye”, que significa “a planta Banisteriopsis, um tipo de cipó”.
Essa etimologia reflete a profunda relação dos povos originários com a flora local. A corruptela para “Magepe” ou “Magepe-Mirim” (que significa “Magé pequeno”) surgiu nos registros dos jesuítas, consolidando-se o termo encurtado “Magé” ao longo dos séculos, perpetuando na toponímia uma referência botânica indígena.
Outra hipótese associa o nome a um antigo chefe indígena, mas essa versão carece de documentação. O que se sabe com certeza é que o nome já aparece em registros coloniais do século XVI, consolidando-se mais tarde ao longo do período imperial.

A “Babilônia das Laranjeiras” que embarcou o Brasil
Mais precisamente no bairro de Porto Estrela (antigo Porto das Laranjeiras), estão as ruínas do que foi um dos mais importantes portos do Brasil Colônia durante o auge do ciclo do ouro, no século XVIII.
Entre aproximadamente 1709 e 1780, praticamente todo o ouro e diamantes extraídos em Minas Gerais passaram por ali. A rota evitava a travessia direta da baía até o Rio, então infestada por piratas; o caminho terrestre de Minas desembocava em Magé, de ondeos tesouros seguiam por saveiros fortemente guardados até a capital.
O local foi apelidado de “Babilônia das Laranjeiras” por sua movimentação e riqueza.
Hoje, restam apenas ruínas: pedras do cais, vestígios de construções e o silêncio de um lugar que já foi movimentado por tropeiros, escravizados, comerciantes e viajantes ilustres da Corte Imperial. A decadência começou com a chegada da ferrovia e se acentuou após epidemias e mudanças econômicas.
A imensidão do Porto Estrela
Construído a partir de 1696 e ampliado ao longo do século XVIII, o Porto Estrela não era um simples cais. Era um complexo com trapiche, armazéns reais (onde o tal “quinto dos infernos” era cobrado), quartel para a guarda, hospital, capela e uma vila operária.
Suas dimensões eram consideráveis para a época, com capacidade para atracação de dezenas de saveiros e barcas de médio porte. Estima-se que, em seu auge, movimentava centenas de toneladas de carga por mês, sendo o principal elo logístico entre a região produtora de minérios e o porto de exportação no Rio de Janeiro.
O Porto da Estrela aparece nos mapas do Rio de Janeiro desde 1767, e sua vila chegou a ser município autônomo até 1892. No auge, no século XIX, 16 barcos partiam diariamente para a Guanabara levando mercadorias diversas. Era o principal ponto de ligação entre o interior fluminense e a capital imperial, e um dos principais portos do país até a modernização do porto do Rio.

O poço das águas milagrosas
O Poço Bento é um dos pontos mais emblemáticos da fé e da história religiosa de Magé. Segundo relatos históricos, em 1566 São José de Anchieta teria purificado as águas salobras de um poço na região de Piedade, transformando-os em água potável. Um episódio que rapidamente se tornou objeto de peregrinações e devoção local.
A lenda diz que Anchieta teria batido seu cajado numa pedra da fonte, e em seguida benzido a água, tornando-a pura e milagrosa. Desde então o Poço Bento passou a ser associado a curas e milagres, atraindo fiéis de diversas partes do estado. Até hoje, muitos visitantes recolhem água do poço, mantendo viva a tradição iniciada no século XVI.
O local integra o circuito de turismo religioso da cidade e fica localizado na Estrada da Piedade, 1º Distrito de Magé, sendo um símbolo da presença jesuítica e da tradição católica profundamente enraizada no município.
O Palácio Anchieta
Esse aqui dá muita dor de cabeça em muito viajante desavisado. O Palácio Anchieta é um sobrado do século XVIII, localizado no Centro de Magé. Erguido para ser a residência dos padres jesuítas, serviu posteriormente como Casa de Câmara e Cadeia.
Sua construção sólida, em estilo colonial, resistiu ao tempo e ao famoso vendaval que varreu Magé em 10 de janeiro de 1947 derrubando casas, o Mercado de Peixe e danificando o velho sobrado.
E ainda tem uma confusão. Apesar da tradição oral, o casarão não tem nenhum registro confirmando que seu nome é uma homenagem ao primeiro Santo brasileiro (que por acaso nasceu na Espanha). E para complicar ainda mais existe um belíssimo e imponente Palácio Anchieta bem no meio de Vitória (ES), que volta e meia aparece em reportagens de turismo como se fosse seu homônimo de Magé.

A Capela de Nosso Senhor do Bonfim e a lenda de Mirindiba
Erguida em 8 de setembro de 1876, a capela observa a cidade aos seus pés do cume da maior elevação do centro de Magé, e de lá é possível visualizar, não só os pontos da cidade, como a Baía de Guanabara, a Serra dos Órgãos e a Baixada Fluminense.
No local também se encontra a famosa Mirindiba, uma árvore centenária relacionada à uma lenda que conta a história trágica de uma jovem indígena de rara beleza que vivia em Magé. Prometida a um guerreiro de outra tribo, ela se apaixonou por um jovem português, iniciando um romance proibido que logo foi descoberto.
A partir daí, as versões divergem, mas todas terminam em tragédia: Mirindiba teria sido morta pelo noivo rejeitado, vítima de um confronto entre indígenas e colonizadores, se jogado do alto do mirante para evitar uma guerra, ou, na versão mais aceita, transformada na famosa árvore pelo pajé de sua tribo.

O que mais tem para fazer por lá?
A cidade tem pelo menos três quilombos oficialmente reconhecidos pela Fundação Palmares: os quilombos de do Feital, o de Bongaba e o de Maria Conga, uma liderança quilombola que comandou um movimento de resistência à escravidão ainda no século XVIII. A visitação a estes locais faz parte de uma rota turística criada pela Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj).
Para os amantes da natureza, as cachoeiras são paradas obrigatórias. A Cachoeira do Monjolo é um dos destaques, com três quedas d’água de alturas variadas e piscinas naturais que convidam ao banho.
Já a Cachoeira Grande, localizada no Rio do Ouro, em Pau Grande, também é uma opção imperdível, com seus impressionantes 120 metros de queda. Outra cachoeira encantadora é a Cachoeira Véu da Noiva (parece que toda cidade do Rio de Janeiro tem uma cachoeira com esse nome), com uma queda d’água de aproximadamente 110 metros e piscinas naturais de águas cristalinas.

Como chegar?
Partindo da Guanabara, a distância até Magé é de cerca de 61,5 km, com tempo médio de 45 minutos de carro em condições normais de temperatura e pressão. De ônibus as tarifas começam a partir de R$ 27, com uma viagem de aproximadamente 1h10.


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