HUDSON CARVALHO*
Passados alguns momentos do desmoralizado 8-J – como os espanhóis titulariam a insurreição mambembe em Brasília, no dia 8 de janeiro -, nem tudo ainda se evidencia. Pelo exposto até então, como ressaltou a jornalista Dorrit Harazim, em O Globo, pode-se classificar aquela súcia de várias coisas, menos de terrorista. Embora um senso comum permeie o tema, não há, na comunidade internacional, sequer conceito anuído sobre terrorismo, variando em função de contextos no correr dos tempos. O próprio termo terrorista caracteriza-se por associação a dinâmicas clandestinas, e não a um préstito de beócios narcisistas. Grosso modo, na Praça dos Três Poderes, havia negligência e cumplicidade de autoridades, extremistas de direita, lobotomizados pela fé e por crenças acessórias, e 100% de bolsonaristas golpistas, civis e militares. Com a vitória de Lula, expressiva parcela da sociedade brasileira naturalizou, docilmente, o argumento do golpismo seletivo. Em sua obra “Técnicas de Golpe de Estado”, o afamado intelectual e militar fascista Curzio Malaparte anotava: “Se tudo é um golpe, nada é um golpe”. Malaparte participara da “Marcha sobre Roma” com Benito Mussolini em 1922. Depois, dissentiram, o que levou Malaparte ao xilindró e ao exílio interno na ilha de Lipari.
Em roteiro afinado entre representantes dos poderes constitucionais e a grande mídia, o rótulo de terrorista imediatamente deu um salto carpado e carimbou os participantes da patacoada insurgente. De repente, golpistas, dementados e baderneiros, que levaram as patroas, as crianças e os celulares para catarse do golpe, foram alcançados pela pecha de terroristas. Urge fazer as distinções. Bolsonaristas e golpistas todos eram, inclusive a tal senhora “Fátima de Tubarão”, de 67 anos e condenada por tráfico de drogas, que queria “pegar o Xandão”. Talvez, houvesse até uns minguados terroristas in loco, contudo a maioria não estava ali. Faz-se necessário reputar corretamente cada um, justamente para que os eventuais terroristas não se beneficiem do roldão. Já existem terroristas escancarados e presos, como os que tencionavam explodir um caminhão de combustível no pátio do Aeroporto de Brasília. Para esses, não há atenuantes. E eles não são os únicos.
Desde 2016, vigora, no Brasil, a Lei Antiterrorismo, de nº 13260, com penas previstas de 12 a 30 anos de detenção. Entre os crimes abarcados, está sabotar o funcionamento e a tomada do controle, mesmo provisoriamente, de instalações públicas, como foi o caso das invasões do Palácio do Planalto, do Congresso e do STF. Investir contra os Poderes, democraticamente, constituídos é agravante. Inobstante, os motineiros, classicamente, não se caracterizarem como terroristas, contempla-se legislação para enquadrá-los. E eles precisam ser penalizados, rigorosamente, dentro da lei, conforme a gravidade de suas reais responsabilidades e não em função da comodidade das narrativas midiáticas, cujas mitificações nada contribuem. Com o justiçoso espírito de “Seu Miguel caça gazeteiros”, a imprensa, esporadicamente, alimenta expectativas frustrantes. Qual o interesse jornalístico de se noticiar que, entre as centenas de detidos na arruaça do 8-J, somam-se oito míseras almas financiadoras da campanha de Bolsonaro, com valores de um a 22 reais? Isso mesmo; de um a 22 reais. Às vezes, as circunstâncias produzem transgressões e infratores ocasionais. Por exemplo, um plácido cultivador de orquídeas que mata, alucinado por uma paixão repulsada, não deixa de ser criminoso. De forma igual, proliferam-se os estudos sobre as delinquências gestadas no bojo do comportamento de manada – ressaltado por Nietzsche (“instinto de rebanho”), Kierkegaard (“a multidão”), Freud (“psicologia das massas”), Jung (“inconsciente coletivo”) e Gustave Le Bon (“mente popular”) -, seja nos estádios de futebol, seja nas arenas políticas, seja nas redes sociais. Sumarizando, punam-se, severamente, os devidos, sem a peta semântica, pois terrorismo é outro patamar, como diria o “filósofo” rubro-negro Bruno Henrique.
Se é difícil correlacionar aquela micareta de golpistas ao terrorismo, isso não significa desatenção para essa ameaça. A “minuta do decreto do golpe”, prevendo a anulação do resultado da eleição presidencial e encontrada na casa do ex-ministro e delegado federal Anderson Torres, sintetiza o que muitos dispõem-se a chancelar, inclusive com métodos terroristas. Todas as instituições armadas estão infestadas de golpistas, ávidos para “cupinizar” a democracia. Aí, reside o verdadeiro perigo. Se não fosse o malogro do 8-J, provavelmente teríamos, até hoje, os acampamentos dos golpistas albergados, vergonhosamente, em estabelecimentos militares. Começa melindrosa a relação do atual governo com o estamento fardado. O fiasco do 8-J deu fôlego a Lula. Não é hora de reeditar a “Revolta dos Marinheiros”, excitando as divergências, com bravatas e condutas, como apregoam os novos anselmos. A inescusável lipoaspiração de militares da máquina federal deve ser balizada por firmeza e discrição. Para que dar publicidade ao expurgo? Remove os inconfiáveis e fica quietinho. Nas casernas, a correlação de forças encontra-se totalmente desfavorável ao governo inaugural.
O presidente Lula acerta, ao refutar a implantação de CPI no Congresso para investigar os desatinos do 8-J. O Judiciário já se encarrega dos excessos. Como ensinou o sábio Ulysses Guimarães, “em política, todo movimento inútil não passa disso; é inútil”. No ambiente conflagrado presente, cheio de desmiolados turistas do Vesúvio de ambos os lados, quando menos politização de balcão, melhor. A esta altura, parece concorde que, exceto Lula, nenhum outro candidato teria derrotado Bolsonaro nas urnas. E parece duvidoso se chegaríamos aonde chegamos na garantia da manutenção do nosso processo democrático, sem o ministro Alexandre de Moraes, com a sua santa determinação, no comando do Tribunal Superior Eleitoral. Para os bolsonaristas, “Xandão” tornou-se um inimigo tão execrável quanto Lula. Daí, podemos inferir que as animosidades não devem arrefecer tão cedo, pois Alexandre de Moraes tem bastante trabalho pela frente. O próprio ministro terá de calibrar os seus ímpetos, para não pôr os avanços em risco. Em defesa da democracia, não se presume recuos, mas há de se ter cautela na condução dos estágios, pois os adversários hidrófobos encontram-se à espreita. Desde a redemocratização do país, nunca estivemos tão perto de um rompimento institucional. No geral, o horizonte de Lula traça-se complexo. Enquanto os encontros do presidente Lula com os seus comandantes militares forem revestidos por ares de excepcionalidade e de desconfiança, há o que se preocupar.
*Hudson Carvalho é jornalista e consultor político





