Nenhuma seleção do mundo acumula uma relação tão peculiar com o futebol quanto a dos Estados Unidos. O país que inventou o basquete, consagrou o beisebol, transformou o futebol americano numa religião de domingo e ainda assim não consegue chamar o esporte mais popular do planeta pelo nome correto participou de Copas do Mundo protagonizando episódios que vão do heroico ao absolutamente constrangedor. Da semifinal de 1930, quando o preparador físico desmaiou no gramado, à eliminação de 2017 pelas mãos de uma equipe já fora da disputa, a história da seleção norte-americana no futebol mundial é um cardápio farto de pirotecnia involuntária. 

Há, no entanto, um episódio que sintetiza tudo: a vitória de 1 a 0 sobre a Inglaterra em 1950, em Belo Horizonte, considerada por muitos a maior zebra da história das Copas. O time americano era formado por carteiros, lavadores de prato e um coveiro. Os ingleses, arrogantes como só eles sabem ser, pouparam o melhor jogador do mundo à época por achar que não precisavam dele para bater um bando de amadores. Quando o resultado chegou às redações do outro lado do Atlântico, a maioria dos jornalistas recusou-se a acreditar. E, em vez de noticiar a derrota, a imprensa corrigiu o que chamaram de “erro gráfico” e publicou que a Inglaterra ganhara por 10 a 1. 

A Copa do Mundo de 2026 será disputada, em grande parte, em solo americano, ao lado de Canadá e México. Pela primeira vez na história, os anfitriões têm vagas garantidas. Talvez seja a oportunidade perfeita para a seleção norte-americana escrever um capítulo menos vexatório. Ou, quem sabe, mais um digno de figurar nesta lista. 

Por que os americanos chamam futebol de soccer? 

Por mais estranho que possa parecer a culpa é dos ingleses. Em 1863, para padronizar as regras do esporte, foi fundada a Football Association (FA), que estabeleceu o que hoje conhecemos como futebol. Esse novo esporte passou a ser chamado de “Association Football” para diferenciá-lo de outras modalidades, como o “Rugby Football”. Para encurtar o caminho linguístico, estudantes da Universidade de Oxford criaram reduções nos nomes: o rugby football virou “rugger”, enquanto o association football virou “assoccer”, que logo foi encurtado para “soccer”. 

A palavra, portanto, nasceu britânica e foi para a América do Norte quando o futebol atravessou o Atlântico. Nos Estados Unidos, o “football” já designava outro esporte: o futebol americano, que se desenvolveu a partir do rugby. Para evitar confusão entre as modalidades, a palavra “soccer” foi adotada como a forma oficial para se referir ao futebol praticado com os pés. No Reino Unido, a gíria foi gradualmente abandonada à medida que “football” se consolidava como o único nome para o esporte bretão. Na América, ela ficou. 

Tão arraigada ficou que chegou ao ponto de incomodar o próprio presidente Donald Trump _ que cá entre nós, não precisa de muito para arranjar encrencas. Durante o sorteio da Copa do Mundo de 2026, em Washington, Trump afirmou: “Parece que nunca chamamos o ‘soccer’ por esse nome, porque temos um conflito com outra coisa chamada ‘football’. Mas, quando você pensa bem, isso sim é futebol. Precisamos arrumar outro nome.” Foram necessários 163 anos para o mandatário da superpotência notar o absurdo. 

Oxford, a tradicional universidade britânica onde a palavra soccer foi criada (Crédito: Divulgação)

O nocaute químico na semifinal de 1930 

A Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, já era um ambiente caótico por natureza, mas a semifinal entre Estados Unidos e Argentina conseguiu superar as expectativas em termos de bizarrice. Conforme documentado nos arquivos oficiais da FIFA e nos relatos do jornalista esportivo Brian Glanville em sua obra “The Story of the World Cup”, o clima no estádio Centenário estava fervendo e o jogo era extremamente violento.  

A equipe dos Estados Unidos perdeu o meio-campista Raphael Tracy aos dez minutos, após ele quebrar uma perna durante uma jogada violenta. E a partir daí as coisas foram de mal a pior. O preparador físico da equipe norte-americana, Jack Coll, pegou sua maleta e correu desesperado em direção ao atleta estirado no campo. No meio do caminho, Coll tropeçou nas próprias pernas, perdeu o equilíbrio e caiu de cara no chão. 

O impacto fez com que o frasco de clorofórmio que ele carregava para usar como anestésico local se espatifasse no gramado bem na sua cara. O preparador físico inalou os vapores concentrados da substância química que subiram instantaneamente do vidro quebrado e desmaiou ali mesmo, precisando ser carregado para fora de campo pelos próprios jogadores antes que o atendimento ao atleta lesionado pudesse continuar. A Argentina venceu o jogo por 6 a 1. 

Vale notar que fontes como o site de esportes The Score registram versões ligeiramente diferentes do episódio, com alguns relatos indicando que o frasco se quebrou durante uma discussão com o árbitro e outros sugerindo que sais de amoníaco, e não clorofórmio, atingiram Jack Coll. Mas o caso acabou com uma das maiores fábulas futebolísticas de todos os tempos. 

O estabaco e o desmaio do preparador físico norte-americano é uma das maiores fábulas do futebol (Crédito: Reprodução)

O milagre de Belo Horizonte 

Quando a tabela da Copa do Mundo de 1950 colocou a Inglaterra no caminho dos Estados Unidos, o confronto foi tratado pela imprensa europeia como uma mera formalidade. Os jornais britânicos como o “The Times” apontavam os inventores do futebol como os grandes favoritos ao título mundial, enquanto o time americano era visto como uma piada de mau gosto. A soberba britânica era tamanha que o treinador da Inglaterra, Walter Winterbottom, tomou uma decisão ousada e arriscada: ele decidiu poupar Stanley Matthews, a maior estrela do futebol inglês e um dos melhores jogadores do mundo na época, acreditando que não precisaria dele para golear os rivais. 

Essa arrogância custou caro e pavimentou o caminho para o chamado “Milagre de Belo Horizonte”. O livro “The Game of Their Lives”, escrito por Geoffrey Douglas, reconstrói os bastidores daquela partida e mostra como a autoconfiança excessiva dos ingleses se transformou em pânico à medida que os minutos passavam e o gol de empate se tornava uma miragem na capital mineira. 

A maior zebra da história das Copas (Crédito: Reprodução)

Cozinheiros, soldados e coveiros no escrete 

A grande ironia da vitória americana em 1950 reside na identidade dos homens que vestiam a camisa dos Estados Unidos. Diferente dos atletas profissionais e ricos da Inglaterra, a delegação americana era composta por operários que precisaram pedir dispensa de seus empregos para viajar ao Brasil. Os registros oficiais da Federação de Futebol dos EUA confirmam que a equipe era um amontoado de imigrantes e trabalhadores locais que jogavam em ligas semiprofissionais durante os fins de semana. 

As casas de apostas britânicas pagavam 500 para 1 em apostas a favor dos Estados Unidos e, na véspera do jogo, o jornal Daily Express escreveu que, para ser justa, aquela partida tinha que começar com o placar em 3 a 0 a favor dos americanos. 

O gol que desfez todas as certezas saiu aos 38 minutos do primeiro tempo dos pés de Joe Gaetjens,  um jovem nascido no Haiti que ganhava a vida lavando pratos e cozinhando em um restaurante de Nova York enquanto tentava estudar contabilidade. O capitão do time, Walter Bahr, era professor de educação física em uma escola pública. Entre outros titulares, havia um motorista de carro de entrega de correspondência, um moleiro de fábrica têxtil e um soldado que havia lutado na Segunda Guerra Mundial.  

Mas o grande destaque da partida foi o goleiro Frank Borghi, que não deixou passar nem pensamento. Em sua vida normal, ele trabalhava na empresa funerária da família, onde dirigia o carro fúnebre e ajudava nos enterros. Esse ganhou uma mãozinha do Plano Astral. 

Frank Borghi, o goleiro-coveiro que enterrou a Inglaterra (Crédito: Reprodução)

Erro de digitação? A descrença da imprensa mundial 

A vitória dos Estados Unidos por 1 a 0 foi um resultado tão absurdo para a época que a imprensa internacional simplesmente se recusou a acreditar nas primeiras informações que cruzaram o oceano pelo telégrafo. No livro “Chasing the Game”, o jornalista Filipo Giovagnoli relata que vários editores de jornais em Londres acharam que a mensagem recebida continha um erro de digitação óbvio dos operadores. A lógica dos jornalistas britânicos era simples: os Estados Unidos jamais venceriam a Inglaterra, logo, o placar real deveria ter sido 10 a 1 ou 10 a 0 para os ingleses, e um dos números havia sido omitido por engano na transmissão. 

Diversos jornais europeus publicaram uma primeira edição com o resultado da suposta goleada britânica antes de receberem a confirmação oficial de que o placar humilhante e enxuto era contra os ingleses. Jornais tradicionais como o Daily Mail publicaram depois notas confusas tentando explicar o inexplicável. 

O resultado foi tão improvável que nem a imprensa norte-americana se convenceu. O jornal “The New York Times” publicou apenas uma pequena nota sobre o jogo, pois o editor de esportes considerou que o interesse do público por futebol era irrelevante e que o resultado provavelmente estava incorreto, ilustrando o abismo cultural que separava o país do resto do planeta esportivo. 

O Estádio Independência em 1950: palco da zebraça (Crédito: Reprodução)

A agonia de Couva 

Se 1950 representou o auge da surpresa positiva, a campanha para a Copa de 2018 produziu o extremo oposto. Em 10 de outubro de 2017, os Estados Unidos entraram em campo precisando apenas de um empate para garantir sua classificação ao Mundial da Rússia. O adversário? Trinidad e Tobago, uma seleção que já ocupava a lanterna do hexagonal final das eliminatórias da Concacaf, com apenas 3 pontos conquistados e nenhuma chance matemática de avançar. Um adversário morto, enterrado e, aparentemente, sem qualquer motivação para jogar. 

O que aconteceu entrou para a história como a “Agonia de Couva”. Os Estados Unidos perderam por 2 a 1 para a já eliminada seleção trinitária, com direito a um gol contra do próprio defensor americano Omar González. O jovem Christian Pulisic ainda descontou, mas já era tarde. Com as vitórias de Panamá e Honduras, os norte-americanos ficaram de fora da Copa do Mundo. A derrota foi tão inesperada que os comentaristas da televisão americana se calaram ao vivo, e um deles classificou a data como “a mais surreal e vergonhosa na história do futebol estadunidense”. 

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