No final do século XX, o mercado brasileiro de cosméticos testemunhou a ascensão meteórica do “Henê Rená”, um alisante de baixo custo que prometia o “preto absoluto” e o liso perfeito para milhares de mulheres. Fabricado pela Embelleze, o produto se tornou um fenômeno cultural e econômico, especialmente nas periferias, ao oferecer uma alternativa acessível aos salões de luxo. Entretanto, por trás do brilho espelhado dos fios, escondia-se uma química complexa e polêmica que desafiou órgãos reguladores e moldou a estética de gerações.
A história do Henê Rená e do alisamento capilar no Brasil é, em última análise, a história de como a indústria de cosméticos se adaptou, e moldou, desejos e angústias estéticas da população brasileira. O produto nasceu da demanda real por transformação capilar, cresceu num ambiente de pouca regulação e menos informação ainda, e se transformou em um símbolo; assim como xerox para fotocópias ou gillete para lâminas de barbear.
Ele proporcionou beleza a quem não tinha acesso ao luxo, mas também acorrentou gerações a um padrão estético rígido e a uma química implacável. Hoje, com a valorização dos fios naturais e a tecnologia de ponta, o henê sobrevive como uma relíquia de resistência de um nicho fiel, lembrando-nos de uma época em que o brilho do cabelo era dura armadura para enfrentar o cotidiano brasileiro.
Qual a origem do henê?
Bom, ante de começar existe uma confusão histórica que merece esclarecimento. A palavra “henê” tem sim origem no árabe henna, que designa um arbusto chamado Lawsonia inermis cujas folhas são usadas há milênios no Oriente Médio e norte da África para tingir cabelos, pele e tecidos com uma coloração avermelhada.
A henna natural atua depositando pigmento no cabelo, proporcionando coloração avermelhada e condicionamento superficial. Já o henê químico penetrava na fibra capilar para promover uma reação de alisamento que alterava profundamente a estrutura dos fios. A diferença é como a distância entre um chá de camomila e um Clonazepam.

Segundo a pesquisadora e química técnica da área de cosméticos, Sônia Corazza, o henê original era uma preparação artesanal que combinava sais metálicos e corantes naturais. Com o tempo, a receita migrou para a Europa árabe e, posteriormente, para as Américas.
No Brasil, o produto começou a ganhar contornos industriais na primeira metade do século XX, deixando de ser uma mistura de produtos comprados em farmácias de manipulação e feita no fundo de quintal para se tornar uma fórmula estabilizada, pronta para o consumo de massa.
Para quem passava horas usando ferro de passar roupa no cabelo, o henê representava uma promessa de libertação. O problema é que temporária e perigosa.
Como o henê começou a ser usado como alisante capilar?
Aqui precisamos introduzir um personagem importante: o pirogalol, o ingrediente ativo que confere ao henê sua capacidade de alisamento e tingimento. Sua história é curiosa. Antes de chegar aos cabelos, ele era utilizado como revelador em laboratórios fotográficos. Sua capacidade de oxidar rapidamente em contato com o ar e produzir colorações escuras levou a indústria cosmética a estudá-lo como corante.
O problema é que o pirogalol não é exatamente do bem. Estudos toxicológicos indicam que a substância pode ser absorvida pela pele e, em altas concentrações, causar danos ao fígado e aos rins. Além disso, é um sensibilizante cutâneo capaz de desencadear reações alérgicas em pessoas susceptíveis. Resumindo: era química pesada demais para ficar tanto tempo em contato com o couro cabeludo. Voltaremos a ele mais à frente.

Como o henê se popularizou no Brasil?
Diferente de outros tratamentos que exigiam aplicação profissional, o henê era o rei do “faça você mesma”. Ele permitia que a mulher cuidasse de si no ambiente doméstico, transformando o ritual de beleza em algo íntimo e acessível.
A partir dos anos 1970, o mercado de cosméticos populares se expandiu rapidamente. Mas se dá para dizer que o henê se tornou um ícone conhecido até porque não entende bulhufas de visagem, o culpado tem, nome, sobrenome, CNPJ e uma história de filme.
Em 1969, em Nova Iguaçu, Itamar Serpa, primogênito de uma família humilde, fundou a Embelleze. Itamar foi office boy, cobrador de ônibus professor particular de química e física até passar no vestibular para Química na UFRJ, onde ainda teve destacada atuação no Movimento Estudantil. Ele trabalhou alguns anos como químico da Bayer quando resolveu abrir sua própria empresa.
Serpa começou de forma humilde, mas com uma visão aguçada para o que a mulher brasileira real desejava. A empresa focou no público que as multinacionais de luxo ignoravam: a mulher trabalhadora da Baixada Fluminense.
Até que no fim dos anos 1970 ele lançou o Henê Rená.
Porque o Henê Rená fez tanto sucesso?
Essa é fácil: pelo preço, que cabia no bolso da diarista, da operária, da estudante. Em pouco tempo o Henê Rená se tornou uma coqueluche em bairros da Guanabara como Campo Grande, Madureira ou Méier.
Para muitas mulheres, principalmente das periferias, o acesso a salões de beleza era limitado, e muitas não tinham tempo muito menos dinheiro para frequentá-los. O produto caseiro permitia que o alisamento fosse feito em casa, entre uma atividade e outra.
Economicamente, o henê virou o motor de volume para a Embelleze. Enquanto produtos de luxo vendiam pouco com margens altas, o Henê Rená vendia milhões de unidades com margens menores, garantindo um fluxo de caixa constante.
O Henê Rená não era apenas um produto, era um elemento da paisagem doméstica brasileira, presente em lares de todas as classes sociais, embora seu uso fosse muito mais intenso nas periferias e entre a população preta. Ele não só provou que o mercado de massa brasileiro era um gigante adormecido como se tornou sinônimo de alisar o cabelo; assim como xerox para fotocópias ou gillete para lâminas de barbear.
A publicidade da época não fazia rodeios: o alisamento era apresentado como solução para “cabelos rebeldes”, uma expressão que todo mundo entendia como sinônimo de cabelo crespo. E que obviamente ia criar problemas anos depois.
Nos anos 1990 surgiram as primeiras críticas em torno da pressão estética para que mulheres pretas adotassem padrões de cabelo mais próximos do europeu.

Porque se diz que o Henê Rená criou um visual único da mulher carioca?
Quem viveu na Guanabara dos anos 1980 sabe do que se trata. O henê ajudou a consolidar um visual específico: cabelos muito lisos, extremamente escuros e brilhantes. Em muitas mulheres, o produto criava um tom preto intenso quase azulado.
No Rio, especialmente nas zonas Norte e Oeste, esse estilo se tornou comum. O cabelo liso e preto contrastava com tons de pele diversos e combinava com penteados populares da época, como franjas retas e cortes longos.
Esse visual específico se consolidou na Guanabara por uma combinação de fatores: o clima úmido que exigia alisamentos mais fortes para controlar o volume, a cultura de praia que demandava cabelos “comportados” mesmo depois do banho de mar, e a forte presença de comunidades pretas nos subúrbios.
A crise dos anos 1990
A década de 1990 foi um período de transformações profundas no mercado brasileiro. Multinacionais ampliaram presença e novos tipos de alisamento surgiram. A Embelleze, que até então estava nadando de braçada, viu-se confrontada por novos concorrentes disputando o mesmo consumidor.
E lembra do pirogalol, sobre quem falamos acima? Em 14 de julho de 2000, a Anvisa publicou a Portaria nº 348, que proibia em todo território nacional a fabricação, distribuição e comercialização de produtos para alisamento capilar que contivessem o tal pirogalol em sua composição. A decisão foi baseada em evidências técnicas sobre os riscos à saúde dos consumidores.
Estudos demonstraram que o pirogalol podia causar desde dermatites de contato até problemas mais graves como metahemoglobinemia (condição em que o sangue perde a capacidade de transportar oxigênio) e danos hepáticos. A absorção cutânea do produto, especialmente em couros cabeludos sensíveis ou com ferimentos, representava um risco real para as usuárias.
Foi uma bomba. Com a proibição, a empresa precisou correr atrás de novas formulações que mantivessem a eficácia sem o ingrediente banido.
Uma virada marota
Com a proibição, a Embelleze bambeou, mas não tombou. No meio da crise alguém teve uma brilhante sacada: “Se o henê alisa, o que o cabelo precisa depois?” A resposta veio com o lançamento da linha Novex. A marca focava em cremes de tratamento e hidratação capilar, voltados para diferentes tipos de cabelo.
E se os alisantes sempre foram o forte da Embelleze, os hidratantes da Novex conquistaram um espaço próprio no mercado ao oferecer tratamento acessível para cabelos ressecados. Ou seja, exatamente o público que mais usava químicas agressivas como por exemplo, um certo Henê Rená.
Os hidratantes Novex se popularizaram pelo custo-benefício. Enquanto máscaras de hidratação importadas custavam pequenas fortunas, os potes da Novex cabiam no orçamento e entregavam resultados satisfatórios. A marca acertou ao investir em texturas agradáveis, fragrâncias que remetiam a doces e frutas, e embalagens chamativas.

O “Henê Rená” ainda existe?
Com a proibição e a mudança nos hábitos de consumo, a indústria se adaptou. A Embelleze, por exemplo, reformulou seus produtos. Hoje, a empresa vende alisantes e relaxantes com outras composições químicas permitidas pela Anvisa, que agem de forma diferente do henê antigo. O “Henê Rená” ainda existe, mas o produto vendido atualmente com esse nome não contém mais pirogalol.
Hoje, com a popularização das discussões sobre identidade preta, o henê ocupa um lugar complexo na memória nacional. Para muitas mulheres, ele representa um passado de negação que precisa ser superado. Para outras, é lembrado com a nostalgia de quem fez o que podia com o que tinha. E para a indústria, um caso de estudo sobre como atender (ou explorar) as necessidades de um mercado ávido por inclusão.


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