O espelho estilhaçado: a rejeição como sintoma político, psicológico e social no terceiro mandato de Lula

Paulo Baía analisa pesquisa Quaest

* Paulo Baía

A política, como espelho das emoções coletivas, vive de afetos. E um deles, talvez o mais avassalador dos nossos tempos, é a rejeição. Não se trata apenas de um juízo racional sobre um governo ou um presidente. A rejeição, como fenômeno psicológico e social, é um campo de forças invisível, mas devastador, que atravessa o corpo coletivo da sociedade como uma febre que não se explica somente pela temperatura externa. Ela condensa frustrações acumuladas, desilusões difusas, sentimentos de traição, desencanto e medo. Ela não apenas se mede nas porcentagens de uma pesquisa, mas se imprime nos silêncios, nas ausências, nas palavras não ditas e nas indignações gritadas. É este sentimento, e tudo o que ele carrega em sua complexidade afetiva, que começa a definir o clima político do Brasil neste 2025.

A mais recente pesquisa Genial/Quaest, publicada em 4 de junho de 2025, escancara o abismo que se abre entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e uma parcela significativa da população brasileira. Com 57% de desaprovação, o índice mais elevado desde o início do atual mandato, contra uma aprovação de apenas 40%, o governo parece afundar num pântano de ceticismo que vai além da política institucional. O que os números revelam, com o rigor de quem coleta dados e a frieza de quem os interpreta, é um país emocionalmente fatigado, dividido e cada vez mais desconectado do pacto simbólico que elegeu o líder petista pela terceira vez.

O Brasil de hoje se vê diante de um espelho estilhaçado, onde os fragmentos de aprovação que ainda resistem são ofuscados por múltiplas faces da rejeição. O sentimento que se espalha pelo corpo social é o de que algo se perdeu no meio do caminho, algo entre a esperança e a realidade, entre a promessa e a entrega, entre a memória e o presente. Para 56% dos brasileiros, o governo atual está pior do que os dois primeiros mandatos de Lula. O número, que em janeiro era de 45%, aponta não apenas para uma avaliação histórica negativa, mas para uma sensação coletiva de decepção. É como se o mito fundacional do lulismo tivesse sido confrontado com uma realidade que não suporta mais nostalgia.

A desconexão se aprofunda nas bases sociais onde antes havia uma fidelidade quase inabalável. No Nordeste, região que simbolicamente foi a pátria afetiva de Lula, a aprovação caiu para 54%, enquanto a desaprovação subiu para 44%. Pela primeira vez, os números mostram um empate técnico. Já não há território onde o lulismo possa caminhar descalço e ser saudado com festa. Em outras regiões, a rejeição se impõe com ainda mais força: no Sudeste, apenas 36% aprovam o governo, enquanto 61% o desaprovam; no Sul, a aprovação é de 33% e a desaprovação de 65%; no Norte e Centro-Oeste, os índices são de 45% e 52%, respectivamente.

A rejeição também tem cor de gênero e idade. Ela atravessa o corpo das mulheres, que agora desaprovam o governo em maior número, 55%, do que o aprovam, 42%. Entre os homens, o quadro é ainda mais drástico: 59% de desaprovação, contra apenas 39% de aprovação. A juventude, esse terreno sempre ambíguo, onde o futuro ainda respira, também se afasta: entre os que têm entre 16 e 34 anos, apenas 33% aprovam o governo, enquanto 64% o desaprovam. A desaprovação é maioria também entre os adultos de 35 a 59 anos, 54%, e só entre os idosos com mais de 60 anos há algum respiro: 50% aprovam, contra 46% que desaprovam, talvez mais por memória do que por convicção.

As religiões, que tantas vezes funcionaram como âncoras políticas, também dão sinais de ruptura. Pela primeira vez, os católicos estão divididos ao meio: 49% aprovam e 49% desaprovam. Já entre os evangélicos, a rejeição é um campo consolidado: 67% desaprovam, enquanto apenas 29% ainda sustentam algum apoio. A fé, neste caso, parece ter se tornado menos uma promessa de salvação política e mais um terreno de rejeição moral.

Mas talvez o dado mais simbólico seja aquele que compara Lula a Jair Bolsonaro, o adversário histórico, o antagonista ideológico, o espantalho que a esquerda agitou com vigor. Pela primeira vez na série histórica da Quaest, há mais brasileiros que consideram o governo Lula pior que o de Bolsonaro, 44%, do que os que o consideram melhor, 39%. A inversão é brutal. É como se a rejeição atual tivesse se alimentado da decepção com o presente e da idealização ressentida do passado, um fenômeno comum em sociedades instáveis, onde a política se tornou uma fábrica de frustrações.

O caso do INSS, com suas denúncias de fraudes e desvios de recursos, aparece como catalisador dessa erosão de confiança. Para 82% dos brasileiros, a crise foi sentida. E 31% responsabilizam diretamente o governo federal, não as instituições, não os agentes, mas o símbolo maior da autoridade: o presidente. A rejeição, aqui, se estrutura não apenas como resposta a um evento, mas como resultado de uma cadeia de sinais mal interpretados, de silêncios estrondosos e de ausências nos momentos em que a presença era crucial.

Mesmo com uma ligeira melhora na percepção da economia, a avaliação negativa caiu de 56% para 48%, a confiança no governo segue ladeira abaixo. Isso revela que a economia, embora fundamental, não é mais suficiente para sustentar uma popularidade combalida. Há algo de mais profundo em jogo: o vínculo simbólico, a relação afetiva, o contrato moral entre o líder e o povo. E esse vínculo, quando rompido, não se refaz com boas intenções ou estatísticas.

No subterrâneo da política, onde os números da pesquisa encontram os sentimentos latentes da população, a rejeição pulsa como uma força que desloca estruturas. Não se trata apenas de desagrado. É um não querer. É um basta. É um grito mudo. É um movimento de afastamento emocional que pode, em contextos extremos, converter-se em fúria ou apatia. A rejeição não se desfaz com propaganda, nem se cura com diagnósticos técnicos. Ela exige escuta, humildade, revisão de rumos e, sobretudo, a capacidade de reencantar corações descrentes.

A pesquisa Genial/Quaest, portanto, é mais do que uma radiografia quantitativa. É um poema triste sobre o esgarçamento de uma relação política outrora profunda. O que ela nos oferece é um mapa do desencanto, onde cada dado é uma palavra não dita, cada gráfico é um silêncio incômodo, e cada curva descendente é uma lembrança do que poderia ter sido, mas não foi. Lula, o homem que um dia simbolizou a reconciliação entre as dores e os sonhos do povo brasileiro, se vê agora diante de um espelho estilhaçado, onde cada fragmento lhe devolve não a imagem do passado glorioso, mas o reflexo doloroso de um presente desconectado.

E neste presente fragmentado, a rejeição se torna a linguagem política dominante. Não apenas contra Lula, mas contra o próprio sistema, contra as instituições, contra as promessas nunca cumpridas. É a linguagem dos que já não acreditam, dos que já não esperam, dos que já não suportam. E quando essa linguagem se torna hegemônica, o risco não é apenas eleitoral. O risco é civilizacional.

O desafio, portanto, não é apenas reconquistar votos. É reconstruir vínculos, reinventar sentidos, reencantar o ato de governar. É isso, ou o espelho continuará se estilhaçando, até não restar mais nada para refletir.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

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