O denuncismo como forma de vida: linguagem, ressentimento e a lenta corrosão do mundo comum

A cultura da denúncia se transforma em linguagem dominante e impacta relações sociais, políticas e subjetivas

* Paulo Baía

Assisti, no dia 9 de abril de 2026, ao debate transmitido ao vivo pelo YouTube, conduzido pelos jornalistas Mario Vitor e Regina Zappa, com a participação dos juristas Rubens Casara e Allana Marques, autores da obra Denuncismo, ódio, ressentimento na era do linchamento moral. O encontro, organizado no âmbito do espaço público de reflexão crítica que ambos vêm consolidando em suas transmissões digitais, não foi apenas uma conversa. Foi um sintoma exposto. Um espelho incômodo. Um retrato de época.

Saí dali com uma sensação que não se resolve facilmente. Não era indignação. Não era concordância plena. Era algo mais ambíguo. A percepção de que o denuncismo já não é apenas um fenômeno observável. Ele se tornou atmosfera. Ele respira por nós. Ele organiza, silenciosamente, a forma como olhamos uns para os outros.

O que está em jogo não é apenas o ato de denunciar. Denunciar, em si, é gesto civilizatório. É condição de justiça. O problema começa quando a denúncia deixa de ser exceção ética e passa a ser regra de convivência. Quando ela se converte em linguagem dominante. Quando o mundo passa a ser interpretado por meio de suspeitas sucessivas.

E aqui eu preciso ser direto. O denuncismo não nasce do excesso de moral. Ele nasce da erosão do vínculo social.

Trago então Roland Barthes para a mesa, não como referência ornamental, mas como ferramenta de leitura. Barthes ensinou que o mito não mente. Ele simplifica. Ele esvazia o real de sua densidade histórica e o entrega pronto para consumo. O denuncismo opera com essa mesma economia simbólica. Ele transforma vidas complexas em narrativas rápidas. Ele retira as camadas, elimina as ambiguidades e oferece ao público um enredo limpo. Alguém errou. Alguém deve ser exposto. Alguém deve ser punido.

O outro deixa de ser alguém. Torna-se um signo. Um signo negativo, carregado de culpa, disponível para circulação.

Esse processo não é inocente. Ele altera a própria estrutura da percepção social. Quando o outro é reduzido a signo, ele deixa de ser reconhecido como sujeito. E quando não há reconhecimento, não há relação. Há apenas julgamento.

É nesse ponto que a leitura de Norbert Elias se torna incontornável. Elias mostrou que a civilização não elimina a violência. Ela a reorganiza. Ela a desloca para formas mais sutis, mais reguladas, mais internalizadas. O denuncismo pode ser entendido como uma inflexão desse processo. Uma espécie de retorno da agressividade sob forma legitimada.
Não mais o golpe físico. Não mais a agressão direta. Mas a exposição. A desqualificação pública. A destruição simbólica.

E o mais inquietante é que tudo isso ocorre sob a aparência de justiça.
O que Casara e Marques apontam com precisão é que o denuncismo não é apenas prática jurídica ou política. Ele atravessa a vida cotidiana. Ele está nas redes, no trabalho, nas relações íntimas. Ele cria um ambiente de vigilância difusa, onde todos observam todos. Onde todos são, simultaneamente, juízes e réus em potencial.

Isso altera o modo como nos comportamos. Como falamos. Como pensamos.
A confiança, que é o elemento invisível que sustenta qualquer sociedade, vai sendo lentamente corroída. Em seu lugar surge a cautela. Depois a desconfiança. Depois o medo. E, por fim, a antecipação do conflito. O outro já não é alguém a ser conhecido. É alguém a ser avaliado.

Essa transformação não pode ser compreendida fora da racionalidade neoliberal. E aqui não se trata de um jargão vazio. Trata-se de uma chave interpretativa concreta. O neoliberalismo não organiza apenas a economia. Ele organiza subjetividades. Ele ensina que a vida é competição. Que o sucesso é individual. Que o fracasso é culpa.

Em um mundo assim, o outro não é parceiro. É obstáculo.

O denuncismo traduz essa lógica em linguagem moral. Ele transforma a competição em acusação. Ele dá forma simbólica ao ressentimento.
E é preciso falar de ressentimento com franqueza. Não como insulto, mas como categoria sociológica. O ressentimento nasce quando há promessa de reconhecimento e ausência de realização. Quando o sujeito é chamado a ser protagonista de sua própria trajetória, mas encontra limites estruturais que não consegue nomear.

Nesse vazio de explicação, surge a necessidade de atribuir responsabilidade. Alguém precisa ser culpado. Alguém precisa encarnar a frustração.
O denuncismo oferece esse alguém.

As redes sociais não criam esse processo, mas o aceleram. Elas funcionam como amplificadores. O que antes era murmúrio, torna-se grito coletivo. O tempo da reflexão é substituído pelo tempo da reação. A dúvida é vista como fraqueza. A nuance como cumplicidade.

O que circula é a certeza indignada.

Mas há algo mais. E talvez aqui esteja o ponto mais delicado. O denuncismo produz pertencimento. Ele cria comunidades instantâneas, formadas em torno da rejeição de alguém. Há uma espécie de laço negativo. Uma união que não se constrói pelo reconhecimento mútuo, mas pela exclusão compartilhada.
Eu denuncio, logo existo entre os que denunciam.

Esse pertencimento é instável. Ele não cria vínculos duradouros. Ele não sustenta solidariedade. Ele apenas reorganiza, de forma contínua, as posições de acusador e acusado. Hoje se aponta, amanhã se é apontado.
Não há repouso.

Voltar a Barthes, mais uma vez, ajuda a iluminar esse mecanismo. O mito transforma o histórico em natural. O denuncismo transforma a acusação em evidência. Ele elimina a necessidade de interpretação. Ele substitui o pensamento por reação.

E isso tem consequências políticas graves. Porque uma sociedade que perde a capacidade de interpretar, perde também a capacidade de deliberar. A política se esvazia e é substituída por moralização permanente.

Não há mais conflito de projetos. Há disputa de purezas.

Ao final do debate, fiquei com a sensação de que estamos diante de um deslocamento silencioso, mas decisivo. Não se trata apenas de um excesso de denúncias. Trata-se de uma mudança na forma de estar no mundo. Uma forma marcada pela vigilância, pela suspeita e pela pressa em julgar.

Escrevo isso não como quem observa de fora. Seria confortável demais. Escrevo como quem também está imerso nesse ambiente. Como quem percebe, em si mesmo, a tentação da simplificação. A facilidade de reduzir o outro a um gesto, a uma frase, a um erro.

Resistir a isso exige esforço. Exige recuperar a lentidão. Reintroduzir a dúvida. Aceitar que o outro não cabe em narrativas rápidas.

Talvez o gesto mais radical hoje não seja denunciar. Seja escutar.

E isso, em tempos de denuncismo, é quase um ato de dissidência.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading