Cinco tremores de terra registrados em um único dia na costa do estado do Rio voltaram a despertar a curiosidade dos fluminenses sobre um fenômeno que, apesar de pouco percebido, faz parte da dinâmica natural do planeta. Na última sexta-feira (26), a cerca de 75 quilômetros de Saquarema, a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) identificou cinco eventos de baixa magnitude ao longo de poucas horas. O maior deles atingiu 2,5 pontos na escala Richter, que vai até 10. 

Os abalos ocorreram às 8h58 (magnitude 2,5), 12h15 (2,1), 12h18 (1,7), 13h (2,1) e 21h23 (1,5). Nenhum deles provocou danos ou foi amplamente sentido pela população, mas bastaram para levantar uma série de dúvidas: por que o litoral do Rio registra tremores? Eles estão ficando mais frequentes? Existe algum motivo para preocupação? 

Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) identificou cinco eventos de baixa magnitude | Crédito: Reprodução

Não foi a primeira vez neste ano. Entre os dias 21 e 22 de maio, outra sequência de abalos foi registrada próxima ao município de Maricá, na Região Metropolitana. Na ocasião, o maior evento alcançou magnitude 3,3. A proximidade entre os episódios fez surgir a impressão de que a atividade sísmica estaria aumentando na costa fluminense. 

Mas, segundo especialistas ouvidos por Agenda do Poder, essa percepção não corresponde à realidade. Os eventos registrados em Maricá e Saquarema fazem parte de um mesmo contexto geológico conhecido há décadas pelos pesquisadores e, ao contrário do que muitos imaginam, não representam uma novidade para a ciência brasileira.

Mais do que um aumento na ocorrência de terremotos, o que mudou é a capacidade de detectá-los.

Uma mesma sequência de tremores

Para o sismólogo José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), os episódios registrados em Maricá e Saquarema provavelmente fazem parte de uma mesma sequência sísmica.

“Os eventos em Saquarema e Maricá, na costa do Rio de Janeiro, fazem parte de uma mesma sequência de terremotos. Eles acontecem praticamente na mesma região. Como os epicentros ocorrem no limite entre uma área e outra, às vezes o nome aparece como Saquarema e, outras vezes, como Maricá”, explica.

A região onde os tremores ocorrem fica justamente na transição entre a plataforma continental, que é a porção submersa mais rasa do continente, e o talude continental, onde o fundo oceânico passa a apresentar declives mais acentuados.

Segundo José Alexandre, ainda não existe uma resposta definitiva para a origem desses eventos, mas algumas hipóteses já são estudadas.

“Os tremores acontecem na região de transição entre a plataforma continental e o talude continental. As suspeitas são de que estejam relacionados a escorregamentos de rochas inconsólidas ou a falhas mais profundas que fazem parte do embasamento”, diz.

Essa explicação é compatível com o que também vem sendo observado pela Rede Sismográfica Brasileira.

Uma região conhecida pelos sismólogos

De acordo com Gilberto Leite, sismólogo do Observatório Nacional e integrante da Rede Sismográfica Brasileira, a margem sudeste do Brasil já é reconhecida como uma das áreas de maior atividade sísmica do país.

“A ocorrência de sismos na margem sudeste do Brasil já é bem conhecida. Essa região da plataforma continental é considerada uma das zonas sísmicas do país, por isso eventos entre magnitudes 2 e 3 são esperados e não representam algo incomum”, detalha o especialista.

Gilberto Leite, sismólogo do Observatório Nacional e integrante da Rede Sismográfica Brasileira | Foto: Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Embora os recentes episódios tenham ganhado repercussão, eles estão longe de ser inéditos. Segundo José Alexandre, somente próximo ao litoral fluminense já foram confirmados 12 terremotos desde 1970, sem contar os registrados neste ano.

“Terremotos na costa brasileira são comuns. Somente próximo à costa do Rio de Janeiro temos 12 sismos confirmados desde 1970 até hoje. Esses eventos representam uma dinâmica natural do fundo marinho”, conta.

Ou seja, a ciência já conhecia esse comportamento muito antes dos tremores recentes chamarem a atenção do público. Ainda assim, pesquisadores buscam compreender melhor se todos os eventos fazem parte de uma mesma estrutura geológica.

“É possível que eles estejam associados a uma mesma zona. Alguma estrutura pré-existente que está sofrendo uma reativação. Então, isso pode estar gerando esses eventos naquele contexto”

Gilberto Leite, sismólogo do Observatório Nacional

As cicatrizes deixadas na formação do continente

A explicação para esses pequenos tremores começa milhões — ou melhor, bilhões — de anos atrás. A professora Renata Schmitt, do Instituto de Geociências (IGEO) da UFRJ, explica que o território brasileiro é formado por grandes blocos geológicos unidos ao longo da história da Terra.

“Os continentes são como um mosaico de terrenos geológicos unidos por estruturas antigas”, pontua.

Na região entre Maricá e Macaé existe uma dessas estruturas. Segundo a pesquisadora, ali está localizada a chamada Sutura Cabo Frio, uma antiga cicatriz geológica formada quando dois terrenos continentais distintos colidiram entre 1,8 e 1,9 bilhão de anos atrás.

“Ela é um exemplo, o continente brasileiro, a crosta continental do Brasil, é cheia de colagens muito antigas. Eventualmente, elas podem ser reativadas, porque a placa tectônica está sempre sob tensão, ela libera essa tensão principalmente nos seus limites, nas bordas, mas se propaga para o centro da placa e pode reativar estruturas antigas”, detalha.

Essa visão é complementada pelo geógrafo marinho Eduardo Bulhões, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo ele, a plataforma sudeste concentra antigas fraturas formadas durante a separação entre América do Sul e África.

“A plataforma sudeste é historicamente a região de maior atividade sísmica em alto-mar no Brasil. Isso está ligado às fraturas formadas durante a separação entre Brasil e África, conhecidas como Zona de Fratura do Rio de Janeiro”, afirma.

Além disso, há estruturas chamadas grabens, que são grandes blocos rebaixados da crosta. Elas também influenciam a dinâmica geológica da região.

O Brasil tem terremotos, e isso não é novidade

Existe um mito bastante difundido de que o Brasil não registra terremotos. Para Eduardo Bulhões, essa ideia está equivocada.

“A Terra é um planeta vivo e atividades sísmicas de baixa intensidade são comuns. O Brasil não é um país livre de terremotos.” 

Eduardo Bulhões, geógrafo marinho da UFF

A diferença está na intensidade. Enquanto países como Chile, Japão, Indonésia e Venezuela estão posicionados sobre limites entre placas tectônicas, onde enormes quantidades de energia são acumuladas, o Brasil ocupa uma posição muito mais estável, no interior da Placa Sul-Americana.

Mesmo assim, a placa continua em movimento. Segundo Eduardo, esse deslocamento lento gera tensões internas que acabam sendo liberadas em antigas fraturas da crosta.

“É mais fácil reativar uma falha existente do que romper uma rocha nova. Esses pequenos tremores representam justamente o estalo dessas antigas fraturas”, detalha.

José Alexandre reforça: “Terremotos também podem ocorrer no interior das placas, por movimentos crustais, movimentação de sedimentos e até mesmo ser induzidos por atividades humanas, como barragens ou grandes minerações.”

Como acontece?

Renata explica que a superfície terrestre é formada por placas tectônicas, grandes blocos de rochas que estão em constante movimento devido ao calor existente no interior do planeta. É justamente o deslocamento dessas placas que libera energia na forma de terremotos.

“É esse calor que funde rochas, que gera magma. Esse líquido, esse magma, se desloca cada vez mais para a superfície e quando ele chega na camada mais superior da Terra, que é a litosfera, ele tende a se colocar nos limites das placas tectônicas, preferencialmente, porque são já estruturas profundas”, detalha, acrescentando: “E esse movimento que faz com que as placas se movam e liberem uma grande energia, que a gente chama de sismo, que é o terremoto”.

Segundo a pesquisadora, o Brasil está localizado aproximadamente no centro da Placa Sul-Americana, distante das bordas onde normalmente acontecem os terremotos mais fortes.

Já a Venezuela está situada no encontro entre a Placa Sul-Americana e a microplaca do Caribe. Nesse tipo de limite tectônico, o atrito entre as placas favorece a ocorrência de terremotos muito mais intensos, como os que aconteceram na semana passada.

Os terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, foram seguidos por réplicas e levaram o governo venezuelano a decretar estado de emergência nacional. O número de mortos relatado pelo governo da Venezuela até quarta-feira (1°) era de 2.295. Os feridos chegam a 11.267.

Como funciona a escala dos terremotos

Quando um terremoto é registrado, um dos primeiros dados divulgados é sua magnitude. Esse valor é medido pela Escala Richter, criada para estimar a quantidade de energia liberada durante um evento sísmico.

Diferentemente de uma escala comum, ela é logarítmica. Na prática, isso significa que a diferença entre um grau e outro é muito maior do que parece. Um terremoto de magnitude 6, por exemplo, não é apenas duas vezes mais intenso que um de magnitude 3: ele libera cerca de 1.000 vezes mais energia.

Foi justamente por isso que os tremores registrados recentemente na costa do Rio de Janeiro, com magnitudes entre 1,5 e 3,3, são classificados como eventos de baixa intensidade, sem potencial para causar danos à população.

Esse valor é medido pela Escala Richter, criada para estimar a quantidade de energia liberada | Reprodução / @profgeoonline

Veja como os terremotos são classificados:

  • Magnitude entre 1,0 e 2,9 — Micro: geralmente imperceptíveis para as pessoas e detectados apenas por sismógrafos.
  • Magnitude entre 3,0 e 4,9 — Pequena: podem ser sentidos por parte da população, provocando leves vibrações, mas raramente causam danos.
  • Magnitude entre 5,0 e 5,9 — Moderada: podem provocar rachaduras e pequenos danos em construções mais vulneráveis.
  • Magnitude entre 6,0 e 6,9 — Forte: têm potencial para causar danos significativos em edificações, principalmente aquelas que não possuem estrutura resistente a terremotos.
  • Magnitude entre 7,0 e 7,9 — Muito forte: podem provocar destruição em áreas urbanas, colapso de edificações e impactos generalizados.
  • Magnitude igual ou superior a 8,0 — Excepcional: são eventos raros e extremamente destrutivos, capazes de atingir grandes regiões e provocar mudanças na paisagem.

Por que parece que está tremendo mais?

Se esses fenômenos sempre existiram, por que agora eles aparecem com tanta frequência no noticiário? A resposta está na tecnologia. Segundo Gilberto Leite, a Rede Sismográfica Brasileira possui atualmente mais de 90 estações distribuídas pelo país. No estado do Rio de Janeiro, quatro delas monitoram continuamente a atividade sísmica da margem sudeste.

A Rede Sismográfica Brasileira possui atualmente mais de 90 estações distribuídas pelo país | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“Os sensores são extremamente sensíveis e detectam tremores que normalmente não são percebidos pela população”

Quando um abalo ocorre, um sistema automatizado identifica o sinal e fornece uma localização preliminar. Depois, especialistas revisam manualmente os dados antes da divulgação oficial. Além disso, o monitoramento ficou muito mais rápido.

“As estações do Rio passaram a transmitir dados praticamente em tempo real. Antes, era preciso ir até a estação buscar as informações, o que podia levar meses”, relembra o sismólogo. 

Eduardo Bulhões destaca que a impressão de aumento na atividade sísmica é resultado justamente desse avanço tecnológico.

“Não houve nenhuma mudança na dinâmica da Terra ou da geologia do Rio. O que mudou foi a qualidade do monitoramento. Tremores pequenos sempre aconteceram, mas antes passavam despercebidos”, avalia.

Há motivo para preocupação?

A resposta dos especialistas é unânime: não. Os tremores registrados recentemente apresentam magnitudes muito baixas e ocorreram a mais de 70 quilômetros da costa.

“A população do litoral fluminense pode ficar bem tranquila. Esses registros têm relevância praticamente nula para o risco civil e não oferecem perigo. Também não existe risco de tsunami associado a esses eventos”, garante Bulhões.

José Alexandre faz uma avaliação semelhante: “Os sismos no litoral do Rio estão muito distantes da costa, portanto as chances de causarem algum dano à população são praticamente nulas.”

Gilberto Leite lembra que sequer é possível sentir a maioria desses tremores.

“Não há motivo para preocupação. Eles estão dentro da faixa esperada para a região e raramente são sentidos. O que podemos fazer é monitorar continuamente essa atividade”, conclui.

Mesmo assim, as pesquisas continuam. A Rede Sismográfica Brasileira instalou recentemente sismógrafos no fundo do mar para ampliar o conhecimento sobre a atividade sísmica da margem sudeste.

Quando esses equipamentos forem recolhidos, entre setembro e outubro, os pesquisadores esperam compreender melhor como esses tremores se originam e por que a costa fluminense continua sendo uma das regiões mais interessantes para o estudo da sismicidade no Brasil.

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