Mais de uma década após o temporal de 2011 que deixou mais de 900 mortos na região serrana do Rio, as obras prometidas de prevenção a tragédias devem ser retomadas. O Novo PAC, do governo federal, pretende concluir as centenas de promessas feitas pelo país e no Rio de Janeiro na terceira etapa do programa, lançada no último dia 11 pelo presidente Lula. Só no Rio, a princípio o estado com maior volume de investimentos previstos (R$ 342,6 bilhões), das 330 ações já anunciadas, 123, 37% do total, são classificadas em modalidades de retomada e conclusão de obras.
Recuperam fôlego projetos de impacto social, como um novo campus do Instituto Nacional do Câncer (Inca), na cidade do Rio, paralisado desde 2015. Surgem perspectivas para a entrega de intervenções emblemáticas, a exemplo da restauração do tombado Palácio Gustavo Capanema, com jardins de Burle Marx e murais de Candido Portinari, no centro da capital. E voltam aos planos metas de fases anteriores do PAC, moradias do Minha Casa Minha Vida e unidades básicas de saúde e educação que nunca tinham saído do papel. Isso se os compromissos forem cumpridos, num país, segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) de novembro passado, com ao menos 14,4 mil obras federais paradas.
Em Petrópolis, a drenagem nas bacias dos rios Cuiabá, Santo Antonio e Carvão, incluída no Novo PAC, começou em 2013. Mas, segundo o painel de acompanhamento de obras do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, ficou à deriva, com 70% da execução física e última movimentação financeira em 2021. “Problemas técnicos” levaram à interrupção, segundo a planilha do governo.
O programa também promete finalizar obras que haviam ficado para trás em Teresópolis e Nova Friburgo, outros dos municípios mais atingidos em 2011. A drenagem do Rio Bengalas, que corta populosos bairros friburguenses, por exemplo, foi emperrada com 57% da execução física, e entrou para a lista do Novo PAC, assim como a do Córrego D’Antas, numa das regiões com mais mortos na tragédia.
No Vale do Cuiabá, a vendedora Ana Lucia de Paula Machado, de 57 anos, continua vivendo a tristeza da morte da irmã e de vizinhos, afogados ou levados pelas correntezas de trombas d’água que, segundo ela, desciam de todos os lados, derrubando casas e arrancando árvores pela raiz.
– Eu me lembro do resgate dos corpos. Depois de tudo, alguns moradores receberam apartamentos fora da área ameaçada. Outros continuam no perigo. Fizeram uma dragagem no rio, mas pouca coisa mudou. De três pontes prometidas, só refizeram duas. Por isso, é grande a expectativa da volta das obras – diz ela.
Ainda no subeixo de prevenção a desastres, o Novo PAC enumera a retomada, na capital, do controle de cheias na Bacia do Canal do Mangue, no Maracanã e na Praça da Bandeira, e da contenção de encostas nos complexos do Alemão e da Penha.
Na cidade, o vazio num terreno de 14 mil metros quadrados deixado pela inércia das obras do Inca é mais um passivo que se promete acabar. Ali, ao lado da principal unidade do instituto, havia um hospital do Iaserj, demolido em 2012 para dar lugar ao projeto que ampliaria o atendimento a pacientes com câncer. Zelador de um prédio em frente ao espaço, Marcos Antônio do Couto lamenta o que veio em seguida:
– A obra parou ainda na época da ex-presidente Dilma (Rousseff). A população ficou sem o antigo hospital e com o Inca lotado de pacientes. Já o entorno só piorou. A rua ao lado virou banheiro público e área de uso de drogas.
Com a inclusão no PAC, o Ministério da Saúde espera que a oferta de leitos de CTI e semi-intensivos no Inca cresça 68% e haja acréscimo de 40% de equipamentos de radioterapia, entre outros avanços. Em nota, o ministério diz que, só no novo campus, são estimados investimentos de R$ 994 milhões, para ampliar áreas do instituto e concentrar “em um único complexo os serviços de assistência, pesquisa, ensino, prevenção e gestão hoje distribuídos em diversos endereços” no Rio.
Aportes no Hospital Federal do Andaraí e um novo Complexo Hospitalar da UFRJ também devem ser tirados do ostracismo se os planos se concretizarem. Economista da universidade, Mauro Osorio ressalta outro complexo, o Econômico-Industrial da Saúde, que deverá ampliar a capacidade produtiva nacional de vacinas, medicamentos e equipamentos para o setor.
A proposta é que, apenas para dar prosseguimento à construção e viabilizar a pré-operação das fábricas do campus Santa Cruz da Fiocruz, sejam desembolsados R$ 2 bilhões. Na Zona Oeste da capital, este será o maior centro de produção de produtos biológicos da América Latina.
– Vai aumentar em cinco vezes a capacidade de produção de vacinas da Fiocruz – ressalta o economista. – Mas um desafio é como a gente atrai fornecedores para se instalarem no Rio. Aqui, muitas vezes, as grandes empresas são enclaves, porque não há fornecedores no estado. Desde o ano 2000, por exemplo, não vem uma indústria farmacêutica nova para cá.
Com informações de O Globo.





