O caso envolvendo o estudante de medicina Edcley Teixeira ganhou novos contornos e elevou a tensão em torno da segurança do Enem 2025. Após a divulgação de que ele antecipou, em uma live no YouTube, três questões quase idênticas às que apareceram na prova, outras mensagens reveladas pelo portal g1 mostram que Edcley havia indicado respostas corretas de mais dois itens de matemática — desta vez com oito meses de antecedência.
Essas duas questões continuam válidas no gabarito oficial do Inep, que até o momento só anulou as três expostas diretamente na transmissão ao vivo.
Questões antecipadas meses antes do Enem
Em março de 2025, Edcley enviou a um grupo de WhatsApp com centenas de alunos uma mensagem sobre uma pergunta de probabilidade envolvendo lançamento de dados. Ele afirmou: “Uma coisa eu garanto: se cair no Enem, pode marcar ‘125/216’ sem medo de ser feliz… Nem leia, não”.
Oito meses depois, em 16 de novembro, exatamente essa situação-problema apareceu no Enem 2025, com resposta correta identificada como alternativa E: “Artur, com possibilidade de 125/216”. A questão não foi anulada.
No mesmo mês de março, em outra mensagem, Edcley compartilhou uma situação sobre diluição de uma solução: “Você tem 10 ml de uma solução com concentração de 99,95% de água e o restante de cloro. [De] quantos mililitros de água pura você precisaria adicionar a essa solução para que a concentração de água passe a ser de 99,90%?”. A resposta era 5.
Na prova oficial de novembro, a mesma lógica apareceu: 10 litros de solução, 99,95% de uma substância e necessidade de retirar 5 litros para alterar a concentração. A unidade muda, mas a estrutura é idêntica. A resposta correta também foi 5. O item permaneceu válido no gabarito.
Como o esquema funcionava
De acordo com a reportagem, Edcley percebeu que o Prêmio Capes de Talento Universitário — voltado a calouros de graduação — utilizava questões que serviam como pré-testes para futuras edições do Enem.
Com isso, ele:
– identificou que perguntas da Capes tendiam a aparecer no Enem;
– incentivou universitários a participar do concurso;
– ofereceu pagamentos de no mínimo R$ 10 para quem memorizasse questões;
– reuniu os relatos e criou um banco de itens;
– passou a usar esse material em aulas e mentorias;
– vendeu os conteúdos a estudantes.
Após as provas, quando percebeu que seus “palpites” haviam sido confirmados, Edcley comemorou no grupo. Sobre a questão de probabilidade, escreveu: “Olha isso!!! Sei que todos vocês acertaram kakakaka”.
A respeito da pergunta da solução química, afirmou: “A questão da água, que eu mandei no PV de todos… Mandei no grupo também! E também tem nos nossos pdfs de pré-teste kakakakkaa. Se alguém errou, é porque não fez”.
A reportagem teve acesso às mensagens e verificou que parte delas foi repostada pelo próprio estudante no Instagram, antes de o caso ganhar repercussão nacional.
O que diz o estudante
Em entrevista ao programa Fantástico, Edcley negou ter tido acesso antecipado ao conteúdo oficial. “Eu acho que essas similaridades pontuais foram coincidências”, afirmou.
O portal g1 já havia mostrado que, no total, ao menos seis questões haviam sido expostas por ele antes da prova.
Posicionamento do Inep e do MEC
O ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou na última semana que o processo segue seu cronograma: “O Enem continua, os dois gabaritos já foram divulgados, e o resultado final sairá em janeiro de 2026”.
O presidente do Inep, Manuel Palacios, minimizou os riscos: “Não há qualquer risco técnico” de fraude e nenhum candidato teria sido prejudicado pelo episódio.
Segundo Palacios, “não há a menor chance de que um item memorizado por um estudante afete a segurança do Enem. Não há risco técnico algum nesse episódio”.
Apesar das declarações, o órgão ainda não respondeu sobre as duas questões antecipadas em março e mantidas no gabarito. As investigações da Polícia Federal continuam, incluindo a análise de celular e computador apreendidos.
Pressão cresce por esclarecimentos
A revelação de que Edcley previu questões válidas com oito meses de antecedência levantou novas dúvidas sobre a blindagem do banco de itens do Enem e reacendeu o debate sobre a segurança dos processos de pré-testagem.
Enquanto o MEC insiste que não há risco técnico, parlamentares e especialistas discutem a necessidade de revisão dos protocolos da Capes e do Inep para evitar brechas semelhantes nas próximas edições.






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