Bem antes daquela estranha cidade cinza ao Sul do Brasil aprender o que é uma Bolsa de Valores, um pedaço de chão batido à beira da Guanabara já concentrava a nata das decisões financeiras e políticas do Brasil. Era uma espécie de Wall Street do Atlântico Sul, que começou como praia da Piaçaba, passou por Largo do Carmo, Terreiro do Paço e outros nomes pomposos, até virar o endereço onde o poder, literalmente, desembarcava.
Porque na Praça XV não se negociavam ações, mas sim açúcar, ouro, café, escravizados, favores políticos e o futuro de um império inteiro. O porto não era exatamente uma Disneylândia. Como lembra Milton Teixeira, D. João VI pisou num cais de madeira feito às pressas, mas que funcionava como porta de entrada nobre da cidade. E enquanto outros pontos da Guanabara absorviam o grosso e o pesado do comércio, a área em frente ao atual Paço Imperial virou uma espécie de sala VIP à beira-mar, com chegada e partida de autoridades mercadorias valiosas e decisões importantes que atravessavam oceanos.
E assim, entre aterros, trapiches e improvisos tupiniquins, que a Praça XV se tornou o coração financeiro e político do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Num raio de cem metros, você tinha o Paço Imperial (o escritório do chefe), a Casa da Câmara e Cadeia (prefeitura, tribunal e cadeia, num prédio só, onde se “subia” para julgar e “descia” para ser preso), a Igreja do Carmo (capela real, para garantir um apoio celestial) e a Casa dos Contos (a Receita Federal da época).
Era o pacote completo: poder político, judicial, religioso e econômico, tudo lado a lado, decidindo rumos entre um embarque e outro. Uma eficiência brutal que, por ironia, não conseguiu evitar que um grande incêndio, em 1790, queimasse todos os documentos dos primeiros séculos da cidade, criando um “buraco negro” na nossa história, como aponta o pesquisador Milton Teixeira.

Origem
Tudo começou onde era a praia da Piaçaba, ocupada por tupinambás e depois por frades carmelitas que em 1619, fundaram o convento do Carmo, iniciando a consolidação do espaço como núcleo religioso e comercial.
Com o passar do tempo, o espaço foi sendo sucessivamente remodelado por aterros, obras públicas e pela instalação de edifícios oficiais, como a Casa dos Governadores, em 1743, embrião do hoje conhecido Paço Imperial.
O local já teve diversas denominações: Largo do Terreiro da Polé; Largo do Carmo; Praça do Carmo; Terreiro do Paço; e Largo do Paço. Do século XVI até meados da década de 1770, com a construção do Cais do Valongo, ali virou o principal ponto de desembarque de escravizados africanos na Guanabara.
Sua formação está diretamente ligada à expansão urbana do Rio colonial e à necessidade de organizar o espaço portuário e administrativo da cidade. No início do século XIX, com a transferência da Corte portuguesa para o Rio, o antigo largo se tornou o centro do poder político e administrativo do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Por que o porto era tão importante?
O cais da Praça XV era o portão de entrada oficial e nobre da cidade. Antes da construção do Cais do Valongo e de outras estruturas portuárias mais especializadas, aquele trecho concentrava o fluxo mais prestigiado. Navios mercantes e embarcações oficiais atracavam próximos ao Paço, facilitando o transporte de cargas valiosas.
A baía de Guanabara oferecia águas calmas e seguras, tornando o Rio um entreposto estratégico para o comércio atlântico. Foi por ali que, em 1808, desembarcaram o D. João e toda a sua corte, transformando o Rio de Janeiro em capital do Império português.
Não que na época o porto fosse uma Disneylândia. Como destaca o historiador Milton Teixeira, o desembarque da família real se deu num cais de madeira construído às pressas especialmente para a ocasião, localizado bem defronte ao Paço.
Posteriormente o comércio de escravos e mercadorias de maior volume passou para outros pontos como o Cais do Valongo, e assim o cais do Largo do Paço virou uma espécie de Sala VIP para passageiros importantes, e ponto de desembarque de mercadorias de maior valor destinadas ao palácio e à administração real.
Como era o porto do Rio comparado aos grandes entrepostos portuários da época, como Lisboa, Cádiz ou Londres?
No início do século XIX, o porto do Rio de Janeiro destacava-se como principal exportador de produtos coloniais, especialmente açúcar, café e ouro, além de ser um grande importador de manufaturas europeias.
Sua importância estratégica, ainda que marcada por improvisações. Na real, era um porto congestionado, com instalações precárias para navios de grande calado, e uma logística baseada em trapiches e ancoradouros naturais dependente de desembarques por barcos menores. Uma zona, que se por um lado não tinha a infraestrutura dos grandes portos ingleses, seu volume de comércio rivalizava com qualquer outro no mundo.
Com a chegada da corte e, principalmente, após a Abertura dos Portos às Nações Amigas, o a Guanabara experimentou um crescimento explosivo. De acordo com o estudo “O Porto do Rio de Janeiro no século XIX” da historiadora Margareth da Silva Pereira, o Rio tornou-se o principal porto do Atlântico Sul.

E porque a Praça XV virou o centro do poder da Corte?
Bom, como diz o verbo, desde o Velho Testamento, o chefe chegou. Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, a Praça XV tornou-se efetivamente o centro do poder do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Concentrava-se ali a sede da monarquia, no Paço Imperial (antigo Paço dos Vice-Reis), onde D. João VI despachava.
Próximos estavam outros edifícios fundamentais para a administração, como a Casa da Câmara e Cadeia, base do modelo de administração colonial portuguesa que abrigava o governo municipal e o tribunal no andar de cima; e a prisão no andar de baixo. O povo na época dizia de gozação que era comum alguém descer, ou vice-versa.
Já a Casa dos Contos era, como o nome sugere, o local onde se “contavam”, ou seja, registravam, arrecadavam e administravam os impostos e as rendas reais. Era uma espécie de tesouraria e receita federal da colônia e, posteriormente, do reino.
E, naturalmente, a já consolidada Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo (Igreja do Carmo), a capela real. Essa concentração física de palácio, governo, justiça e igreja fazia do local o núcleo incontestável das decisões que regiam o ainda vasto império português.

Todos os documentos sobre a origem do Rio se perderam mesmo num incêndio ali?
Este é um dos episódios mais trágicos para a memória histórica do Brasil, mas aconteceu bem antes da chegada da Corte. Logo após a inauguração do Paço, o juiz de órfãos da cidade, Antônio Telles Barreto de Menezes, resolveu comprar terrenos na área e construir um conjunto de casas luxuosas a fim de alugar para membros da alta classe.
Parte dos sobrados do casario foi alugada pela Câmara Municipal, que transferiu para lá quase todos os documentos do arquivo municipal da cidade, até então guardados na Casa de Câmara e Cadeia. Até que em julho de 1790, um incêndio de grandes proporções se iniciou numa loja de roupas usadas e se alastrou pelo conjunto, reduzindo-o a ruínas. Do antigo casarão dos Telles só sobrou o hoje conhecido Arco do Telles.
O fogo consumiu praticamente todos os registros oficiais da cidade desde sua fundação em 1565 até o final do século XVIII, incluindo atas, cartas de sesmaria, registros de terras e inúmeros outros papéis fundamentais.
Segundo pesquisadores como Nireu Cavalcanti, foi uma perda irreparável, que criou um “buraco negro” documental sobre os primeiros séculos da história carioca e brasileira, obrigando historiadores a dependerem de fontes indiretas, portuguesas, ou documentação eclesiástica.
Tiradentes foi enforcado ali?
Essa é uma ideia que ficou na memória popular em função da estátua do próprio, erguida diante do palácio de mesmo nome erguido onde era a Casa de Câmara e Cadeia. Só que na verdade, Tiradentes foi executado no Lampadário, localizado no Campo da Lampadosa, atual Praça Tiradentes.
Após a execução, em 21 de abril de 1792, seu corpo foi esquartejado e partes foram expostas em postes ao longo do caminho para Minas Gerais. Uma de suas pernas teria sido fincada, segundo algumas fontes, num poste próximo à Praça XV, mais especificamente na praia de São Domingos (área aterrada que hoje compõe a praça), como advertência final.
Quais prédios históricos sobrevivem até os dias de hoje?
Apesar de inúmeras transformações, o conjunto arquitetônico ainda permite compreender a centralidade histórica da Praça XV e sua relação direta com o poder em diferentes eras.
Os principais sobreviventes são o Paço Imperial, a Igreja de N. S. do Carmo da Antiga Sé, o Arco do Teles (vestígio do antigo casarão dos Telles), o Antigo Convento do Carmo, o Chafariz de Mestre Valentim e o panteão ao general Osório, uma estátua equestre de oito metros fundida com o bronze dos canhões apreendidos durante a Guerra do Paraguai.
Dentre os remanescentes, a maioria hoje tem função cultural ou cívico-cultural.

E o que se perdeu?
Perdeu-se a escala humana e a relação direta com as águas da baía. O mar foi afastado por sucessivos aterros, sumindo o cais íntimo com o Paço. Foram demolidos a Casa dos Contos, o Paço da Moeda e inúmeros sobrados coloniais que ladeavam a praça.
Mas perdeu-se, sobretudo, a função de centro político e econômico exclusivo da nação, que se dispersou com a mudança da capital para Brasília e a descentralização do comércio financeiro para outras áreas da cidade, como a Avenida Rio Branco e, posteriormente, a região da Avenida Presidente Vargas.


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