Se os números não mentem jamais, o breve Império do Brasil realizou um feito que constaria facilmente no Guinness Book, o livro dos recordes. Em menos de 70 anos, distribuiu mais títulos de nobreza do que o Reino de Portugal em 771 anos de monarquia. Dom Pedro II, entre aulas de francês e estudos sobre pirâmides, fez da caneta imperial uma fábrica de barões, viscondes e marqueses. E assim mais de mil ricaços que suavam em trajes de veludo como se estivessem em Londres, passaram a ostentar no peito brasões novinhos em folha.
Mas não pense que isso aconteceu há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante. No meio do século XX o Vaticano, cidade-estado fincada no meio de uma Roma arrasada por duas guerras, inventou uma maneira de engordar o caixa trocando “doações” pelo título de “Conde Papalesco” — de onde vem os títulos de nomes contemporâneos como o do socialite Chiquinho Scarpa.
E no meio de todo esse papo sangue-azul, há até mesmo casos de títulos e fortunas que cruzaram o Atlântico e ficaram de vez por aqui. O exemplo mais vistoso é o do Marquês de Salamanca, título espanhol que pertence à família Monteiro de Carvalho. No fim das contas, vale o velho ditado para títulos de nobreza, comendas, ou qualquer outro tipo de condecoração: se oferecerem, recuse. Se insistirem, aceite. Se receber, nunca use.

Quantos títulos e nobreza Dom Pedro II distribuiu e por quê?
Dom Pedro II, aparentemente imitando um bom anfitrião oferecendo salgadinhos em festa de criança, concedeu cerca de 1 000 títulos nobiliárquicos, o que ultrapassa o que seu pai, Dom Pedro I, e seu avô, Dom João VI, fizeram juntos — e com sobra. Ao todo, no Império (1822–1889), foram criados 1.211 títulos, dos quais três ducados, 47 marquesados, 51 condados, 235 viscondados e 875 baronatos.
E aqui está o pulo do gato. No Império do Brasil, diferentemente das cortes europeias, os títulos não eram hereditários, e o nobre cavalheiro ainda pagava taxas anuais para manter o direito de pendurar um escudinho na carruagem.
A distribuição foi particularmente intensa nos últimos anos do Segundo Reinado porque Pedro II tentava de todo modo frear a ascensão das ideias republicanas entre as oligarquias, revoltadas com a abolição. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho resumiu: “A Coroa tentava pagar em símbolo de status o que tirara em interesse material”.
Quantos títulos de nobreza foram distribuídos na história do Reino de Portugal?
Ao longo de seus 771 anos, Portugal concedeu 28 ducados, 30 marquesados, 150 condados, cerca de 80 viscondados e mais de 100 baronatos totalizando 388 títulos. Só que os contextos são diferentes. A lógica da monarquia portuguesa era conservar prestígio e não diluir a nobreza. Fora que os reis tinham outro truque na manga.
Portugal, por outro lado, nomeou cerca de 8.500 nobres para ordens militares como a Ordem de Cristo (sucessora da Ordem dos Templários — e de seus bens — em Portugal) a Ordem de Avis, a Ordem de Santiago ou a Ordem de São João de Jerusalém. E cada um desses senhores pingou nos cofres da coroa seu devido dote para merecer a honraria.

Por que os títulos de nobreza do Brasil não eram hereditários?
A intenção era justamente que o status fosse passageiro, exclusivo do agraciado, e não se estendesse aos seus filhos. Oficialmente, era assim: apenas membros da Família Imperial tinham hereditariedade, os demais tinham títulos vitalícios e pessoais. Ou seja, uma fidalguia de ocasião, como uma fantasia elegante para um baile de gala no Carnaval.
E aí veio o efeito Brasil: não bastava o decreto imperial, os que recebiam as honrarias deviam pagar pequenas fortunas para mantê-las. E havia taxa, por exemplo, só para receber uma bonita carta assinada pelo imperador concedendo o título, outra para registrar a concessão desse mesmo título no livro do escrivão da nobreza — e até para poder usar o bendito brasão relativo ao título.
Resumindo: em valores de hoje, para ser marquês era como pagar uma matrícula anual em torno de R$ 500 mil na academia.
A tropicalização da nobreza
A grande ironia é que durante quase um século circularam por aí, de nariz em pé, do Marquês de Sapucaí ao Barão de Itapicuru-Mirim, passando pelo Visconde de Jequitinhonha e o Barão das Pindaíbas — que ao contrário do que sugere o título vivia muito bem, obrigado.
“Nomes bem brasileiros para gente que se vestia de veludo e lã, tomava o chá das 5 e lia em francês, refrescada por um abanador negro e humano comprado no mercado do cais do porto”, escreveu a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz em ‘As Barbas do Imperador’. Os nomes geralmente indicavam o lugar de nascimento ou de atividade política ou econômica relacionado ao agraciado.
Hoje quantos brasileiros ostentam títulos de nobreza?
Formalmente, nenhum título concedido no período imperial tem reconhecimento legal desde 1891, mas, na prática, algumas famílias mantêm uso cerimonial. A maioria não faz mais disso estandarte. Caso da família Setúbal, controladora do Itaú, que tem ascendência ligada a baronatos, viscondados e marquesados rurais de São Paulo.
De onde vieram os títulos de conde no Brasil no século XX?
Depois da queda da monarquia (1889), o Brasil deixou de conceder oficialmente qualquer título. Mas surgiram — no mundo católico — títulos honoríficos pontifícios ou ligados a ordens de cavalaria, dados por serviços ou doações à Igreja. Ou seja, não era nem serviço público nem café: era esmola, mas com nobreza de mentirinha.
Parte era honraria por generosidade com a Igreja, parte era “benesse”, um eufemismo elegante para “pague e leve seu título”. Numa dessas, o Supla pode reivindicar o título de conde que o papa concedeu ao seu tataravô, o megaempresário Francesco Matarazzo.


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