Ele aparece em um vídeo fardado, buscando proteção em um bunker próximo a outro combatente em meio a um bombardeio. De repente, um som bem mais intenso de bomba faz a imagem tremer. O militar encolhe o corpo e olha para cima, enquanto é possível ouvir um som que parece ser de parte do teto em ruínas. “Pegou aqui, cara”. Ele então olha para o colega de farda e volta a falar com a câmera. “Só dá pra pedir proteção a Deus, mais nada. Não tem o que fazer”. O colega responde: “Vai chover mísseis”. Outra imagem mostra a tropa correndo, ofegante, em uma área de mata em meio a bombas. Um dos registros mostra os militares aliados das tropas ucranianas chegando a uma casa em meio a escombros.
O autor dos vídeos em meio à guerra da Ucrânia, que já se arrasta há quase quatro anos, é o carioca Carlos Eduardo de Souza Cândido, 31. Ex-militar do Exército do Rio de Janeiro, onde serviu no batalhão de infantaria de 2012 a 2015, ele fez um diário de bordo do país em meio aos conflitos a pedido da Agenda do Poder. Há quase dois anos como aliado das tropas ucranianas, o combatente voluntário mostra os contrastes de uma rotina onde concilia a guerra e a busca por uma vida normal. “Eu estava na linha de combate. Agora, estou aqui, vivendo como um cidadão normal. Sinto que essa é a minha missão de vida. Eu nasci soldado, não faria outra coisa tão bem”, diz.
Em um dos vídeos que comprova esse contraste entre a guerra e a vida cotidiana do povo ucraniano, Cândido aparece caminhando tranquilamente pelas ruas de Kharkiv, a segunda maior cidade do país, com mais de 1 milhão de moradores. O local registrado para o diário de bordo é surpreendentemente urbano, com carros circulando pelas ruas e pessoas caminhando normalmente pelas calçadas. “É um país em guerra, e as pessoas vivendo normal. Isso é resistência e coragem de um povo”.
Já em outro cenário, Cândido come hambúrguer e batatas fritas em uma rede de fast food. “Aqui, a gente aprende a beber refrigerante quente. Eles não têm muito o costume de beber refrigerante gelado. E está chegando o inverno, está bastante frio. Aí, a gente acostuma, né”, comenta.
Para Cândido, a adaptação à nova realidade não se limitou aos momentos em que esteve no front portando fuzil e buscando refúgio de bombardeios russos. A temperatura e o idioma também foram empecilhos para encarar uma realidade bem diferente daquela em que vivia em Bangu, conhecido como um dos bairros com mais elevada temperatura no Rio de Janeiro.
“No começo, foi meio difícil a adaptação porque a gente não entende o idioma e o clima é totalmente diferente do Brasil. Isso aí foi um contraste bem grande para mim, né? Porque eu vim do Rio de Janeiro com 45 graus, pô. Aí, chega aqui na Ucrânia e pega 15 graus negativos, com neve e tudo congelado”.
Em seguida, Cândido aparece no vídeo pegando o metrô para ir ao shopping. Na caminhada ao local, ele comenta que o transporte público se tornou gratuito por causa da guerra. O espaço chegou a ser usado como uma espécie de bunker. “No começo da invasão, a cidade era bombardeada e o pessoal se escondia aqui”, contou.
Já dentro de um shopping center, mostra um centro comercial com lojas abertas e pessoas circulando sem aparentar maiores preocupações. “De vez em quando, tem um alarme. Aí, pedem para evacuar. Mas, normalmente, no dia a dia é bem normal”.
Cândido também busca interagir em outro ambiente alheio ao front e à adaptação ao povo ucraniano. Ele mantém um perfil com mais de 32 mil seguidores no Instagram, onde costuma conversar com brasileiros curiosos sobre a sua rotina em meio a bombas, drones e tiros de fuzil.
O combatente posta vídeos em uma página no YouTube com 37 mil inscritos. “Muita gente na internet quer saber o que eu vim fazer aqui. Uns me chamam de doido, outros me chamam de corajoso. Eu diria que estou fazendo apenas o que o meu coração manda”.

“Uns acham que nós viemos só por desejo de matar. Mas é o contrário. É gratificante olhar a cidade funcionando, com crianças brincando no parque. Estou fazendo algo útil para um povo, estou salvando vidas. A Rússia faz um massacre, atacando prédios civis, matando crianças e idosos. O risco de morrer é 24 horas por dia. Mas faz sentido quando lembro que vim para ajudar aqueles que precisam”.
Ele não nega as dificuldades de adaptação para se alimentar em uma culinária com muita sopa. Mas busca minimizar o impacto gastronômico em meio ao convívio com outros voluntários brasileiros, que preparam refeições em conjunto. “É inevitável, a gente sente saudade do nosso país e da família”.

Alarme aéreo, carinho do povo ucraniano e homenagem aos mortos
Enquanto caminha pela rua, Cândido flagra o momento em que a sirene, usada como sistema de defesa do espaço aéreo, é acionada. Apesar do alarme, não demonstra qualquer tipo de preocupação. E, para as pessoas que cruzam com ele pela rua, também parecem ter assimilado essa nova realidade. “O alarme aéreo tocando é rotina, não tem muito o que fazer. Nem sempre é sinal de que a cidade vai ser atacada. As pessoas vivem normal, mesmo com a sirene. Ninguém corre mais para bunker”, diz.
O voluntário brasileiro diz estar cada vez mais adaptado à cultura do povo ucraniano. E diz ser tratado como herói de guerra por ser combatente estrangeiro arriscando a própria vida para lutar pela Ucrânia.

“As pessoas sempre perguntam: ‘Ah, Brasil? Rio de Janeiro?’. As pessoas realmente têm uma certa simpatia com o Rio de Janeiro. E, por eu ser militar, já recebi atos de gratidão dos ucranianos. Uso um amuleto de proteção que uma ucraniana me deu. Eu sempre uso. Até hoje, está dando certo. É um povo bem hospitaleiro”.
Cândido mostra um local em uma praça com uma espécie de memorial às vítimas da guerra, com fotos, cartas, bandeiras e grama pintada com as cores da bandeira ucraniana. “São centenas de famílias que perderam os seus entes queridos para os ataques russos. Cada bandeira representa uma pessoa que morreu defendendo a causa ucraniana”.

‘Passam mísseis em cima de casa’
Cândido já diz ser possível perceber um paralelo entre o período em que chegou na Ucrânia e sua rotina em meio a um cenário de guerra há quase dois anos, já adaptado a uma nova realidade de bombas e mortes.
“As coisas eram mais complicadas no início. Mas me acostumei com o clima de guerra. Passam mísseis em cima de casa, e já não é motivo de preocupação. Aprendi a lidar com isso”, diz.

“É preciso estar preparado psicologicamente. Tem muito brasileiro que escuta a sirene [de alerta de ataque aéreo] e vai embora, por medo”.
No vídeo, Cândido grava uma mensagem falando sobre o seu sentimento em meio à guerra em frente a uma bandeira do Brasil, rabiscada por mensagens escritas por colegas de farda e amigos. “Aqui atrás, está a minha bandeira, para me lembrar de onde eu vim e para onde eu devo voltar. É uma guerra física e psicológica por causa da saudade”, diz.
“As coisas são reais, acontecem de verdade. Agora, está tudo bem. Daqui a pouco, tudo explodindo. É bomba que cai do céu, você nem vê de onde. E nós vamos resistindo aos ataques russos”.

Formação militar brasileira facilita conexão com Ucrânia, diz especialista
Especialista em geopolítica, o geógrafo Guilherme de Paula Cardim diz que brasileiros com formação militar, mesmo perfil de Cândido, são fisgados para que se apresentem como voluntários na guerra. Isso acontece porque há uma filosofia de ensino capaz de criar uma conexão entre os militares do país com a posição ucraniana no conflito.
“A base militar brasileira está presa à perspectiva ocidentalista, com conceito pregado nas academias para formar soldados que sejam defensores do Ocidente, não só do Brasil”.
Ele também diz ver aspectos sociais, já que esses voluntários não costumam ter boas perspectivas de enriquecimento devido à situação econômica no Brasil.
“Os brasileiros com formação militar dificilmente conseguem empregos com bons salários devido à realidade social do país. Para ir à guerra da Ucrânia, são atraídos por salários que chegam a até R$ 25 mil por mês”, analisa Cardim.
Outro aspecto que atrai esses voluntários é o que ele entende como o “espírito de colocar em prática o que aprendeu” nas academias militares brasileiras apenas na teoria. “É que esses militares são formados para lidar com conflitos civis ou conturbações sociais, já que não temos vizinhos militarmente preparados. Mas, quando vão ao front da Ucrânia, esses voluntários acabam se deparando com uma realidade bem diferente do que imaginavam”.


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