Anunciada como vice na chapa de Eduardo Paes (PSD) na pré-candidatura ao Governo do Rio, Jane Reis traz na bagagem o legado de integrar o “núcleo duro” de um dos maiores caciques políticos do Estado. Irmã de Washington Reis, a advogada de 51 anos preside o MDB Mulher em Duque de Caxias, reduto político do clã da família Reis. Conhecida por atuar nos bastidores e articulações da sigla, ela diz que não será apenas uma representante de uma aliança política costurada pelo atual prefeito do Rio. “Não vou ser peça decorativa”, diz, em entrevista concedida com exclusividade à Agenda do Poder.
Jane Reis afirma que pretende apresentar contribuições principalmente em pautas sociais e ligadas a políticas voltadas à Segurança Pública. Evangélica, também fala com naturalidade sobre o voto de eleitores religiosos. Mas evita críticas direcionadas ao governador do Rio Cláudio Castro e desconversa quando o assunto é o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais, já que seu aliado na chapa ao Governo do Rio é simpatizante à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Não quero entrar nas pautas do Governo do Rio e das eleições presidenciais. Estou focada na aliança estadual”.

Cientistas políticos veem a estratégia de Paes como uma forma de ampliar a quantidade de votos na Baixada Fluminense, reduto do clã. Washington Reis foi prefeito de Duque de Caxias por três mandatos, entre 2005 e 2022. “Mas ele também vai buscar apoio em Volta Redonda e Barra Mansa, onde Reis também tem muita força”, diz o cientista político e sociólogo Paulo Baía, que também atua como colunista em Agenda do Poder. “Ele [Eduardo Paes] é muito influente na capital. A tarefa agora é conseguir uma votação expressiva em outros municípios”, concorda o cientista político Ricardo Ismael.
“É exatamente aí que entra a Família Reis. Eu sou da Baixada Fluminense desde a minha infância”, diz a advogada, que projeta os próximos passos a partir de reuniões com Eduardo Paes. E já antecipa qual será o tom do diálogo.
“Será uma conversa prática e objetiva. Vou levar pautas e quero participar do programa de governo. O Paes é dinâmico e visionário. Mas eu tenho voz e vou brigar por isso também. Se em algum momento, eu perceber que não estou sendo ouvida, volto a repetir: não vou ser peça decorativa. Quando me proponho a fazer algo, vou até esgotar todas as possibilidades”.

A pré-candidata a vice na chapa de Eduardo Paes aponta a Segurança Pública como “o maior problema” do Rio. “Eu saio de Xerém [em Duque de Caxias] e cruzo pela Washington Luiz, pela Linha Vermelha e pela Linha Amarela. Em alguns trajetos, é preciso mudar a rota, porque há muitos assaltos nessas vias. É um problema que tira a paz de uma mãe. O direito de ir e vir é de responsabilidade e de competência do Estado”, diz, já antecipando um dos temas de debate nas eleições estaduais.

Foco em pautas sociais: ‘Busco soluções para a vida das pessoas’
Jane Reis atrela a busca por soluções ao desenvolvimento de projetos sociais pelo Governo do Rio. “Não se resolve só com enfrentamento. Tenho um olhar atento para a área social, mas também gosto de buscar soluções para outros setores”, diz a advogada.
A advogada também atua como voluntária na Fazenda Paraíso, em Xerém, apontada como o maior centro de recuperação de dependentes químicos do país. Um assunto sobre o qual fala com maior entusiasmo, trazendo relatos sobre pessoas que passaram por lá.
Em um episódio recente, relata quando foi abordada na rua por um ex-interno do centro de recuperação. “Um dia, passei em um comércio em Xerém e um rapaz gritou: ‘Estou na igreja e estou trabalhando. Só queria pedir para você não desistir’. O que me move é passar pela rua e encontrar pessoas que vi na Fazenda Paraíso e que mudaram de vida. São situações assim que fazem tudo valer a pena, e é assim que faço a diferença”.
“Sou uma mulher que sai de casa para trabalhar e que traz resultados. Busco soluções que podem mudar a vida das pessoas. Tenho aquela escuta sensível e atenta para pessoas sem muitas expectativas”.

Tragédia familiar, união pela fé e voto evangélico: ‘Eu sei o que é sofrer’
Quem vê o clã Reis, uma das famílias mais influentes no meio político do Rio, não imagina o passado de adversidades. Quando o pai morreu em um acidente automobilístico em 1981 em uma viagem para Petrópolis, na Região Serrana, a mãe precisou se desdobrar sozinha para criar os oito filhos. Jane tinha apenas 6 anos.
E, desde a infância, já ajudava a mãe.
“Quando ela ia fazer o almoço, eu tomava conta do comércio. Só depois, estudava. Então, sei o que é sofrer, sei o que é dor e sei o que é lutar. E é isso que quero passar para a população”.
Jane diz que, no momento de adversidade, a fé foi fundamental para que a família se mantivesse unida. “A minha mãe arrastava todos os filhos de ônibus para a igreja”, relembra Jane, ao falar da sua ligação com a fé.
Questionada sobre uma possível busca de Eduardo Paes pelo voto evangélico, Jane diz ver a situação com naturalidade. “Evangélico é eleitor também. O apoio que tenho é até pela identificação. Mas tenho amigos de todas as religiões”.

Como foi costurada aliança
Jane Reis diz que aliança que a colocou na chapa foi costurada entre Eduardo Paes e seu irmão Washington Reis, que preside o MDB do Rio. Ela diz ver semelhança entre eles.
“O plano inicial era que o Washington Reis fosse candidato ao Governo do Rio. Depois, surgiu essa aliança, de apoio a um perfil que se alinha ao dele. O Paes tem essa visão com as mesmas características de Washington Reis, de fazer acontecer e de ser um político competente, que entrega. Tenho muito a contribuir, porque sou uma pessoa determinada”.
Ela diz que o momento ainda é de cautela, para que os diálogos se intensifiquem nos próximos dias já buscando uma elaboração de um plano de governo. “O momento agora ainda é embrionário. Vamos conversar. Mas é cada coisa no seu tempo”.


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