Na véspera da eleição presidencial, um contingente que não aparece na disputa direta entre os candidatos ganhou peso nos cálculos das campanhas: o dos eleitores que podem não comparecer às urnas ou decidir votar em branco ou nulo. O chamado “não-voto” pode influenciar a composição dos votos válidos e, dependendo de como se distribuir entre diferentes segmentos do eleitorado, ter impacto sobre a possibilidade de a disputa terminar neste domingo (4) ou seguir para o segundo turno.
Pelas regras eleitorais, para vencer a eleição presidencial no primeiro turno é necessário obter mais da metade dos votos válidos. Brancos e nulos são descartados desse cálculo, enquanto quem se abstém sequer registra voto. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que 158,7 milhões de brasileiros estão aptos a participar das eleições de 2026.
Um grupo que cresceu na reta final
O sinal de alerta apareceu nas pesquisas. Levantamento Quaest divulgado em 28 de setembro mostrou que a soma dos entrevistados que declaravam intenção de votar em branco, anular ou não comparecer havia chegado a 10%, três pontos percentuais acima da rodada anterior. Ao mesmo tempo, os indecisos recuaram de 8% para 5%. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 24 e 27 de setembro e teve margem de erro de dois pontos percentuais.
O movimento chama atenção porque ocorre numa eleição polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Na pesquisa Quaest daquela rodada, Lula tinha 39% das intenções de voto totais, contra 34% de Flávio. Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) apareciam com 4% cada, Renan Santos (Missão), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 1%.
Pesquisas mais recentes mantêm Lula abaixo do patamar necessário para liquidar a disputa quando os resultados são convertidos em votos válidos. O Datafolha divulgado nesta reta final registrou 45% para Lula e 40% para Flávio. Já a CNT/MDA divulgada neste sábado (3) apontou 47,8% para o petista e 42,1% para o candidato do PL. A pesquisa CNT/MDA ouviu 2.007 pessoas entre 30 de setembro e 2 de outubro e tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
A matemática do primeiro turno
É justamente aí que o “não-voto” entra na equação. Brancos e nulos não são somados aos votos válidos e, portanto, não aumentam diretamente o percentual necessário para vencer. A abstenção também reduz o universo de pessoas que efetivamente participam da votação. Mas isso não significa que uma abstenção maior, isoladamente, beneficie automaticamente o candidato que está na frente.
O efeito depende de quem deixa de votar. Se a abstenção atingir proporcionalmente mais eleitores de determinada candidatura, ela pode alterar a distribuição dos votos válidos em favor dos adversários. Se atingir os diferentes grupos de maneira semelhante, a relação de forças tende a mudar menos. Por isso, mobilizar apoiadores e garantir que cheguem às urnas tornou-se uma variável importante na reta final.
Em 2022, a abstenção no primeiro turno presidencial ficou próxima de 21% do eleitorado. O histórico ajuda a explicar por que campanhas e pesquisadores acompanham com atenção não apenas a intenção declarada de voto, mas também o grau de mobilização dos diferentes segmentos.
Domingo dará a resposta
A eleição deste domingo terá votação das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Além de presidente, os eleitores escolherão governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Caso nenhum candidato a presidente alcance mais da metade dos votos válidos, Lula, Flávio Bolsonaro ou quaisquer outros dois candidatos mais votados avançarão ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. A incógnita, portanto, não está apenas na escolha registrada por quem comparecer. Está também no tamanho e, sobretudo, no perfil do eleitorado que ficará fora da contagem dos votos válidos.







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